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Presented to the
U^^LARYofthe
UNIVERSITY OF TORONTO
by
Professor
Ralph G. Stanton
BRANCO
|0 220 e 320
I Irmaiin. —
OH Felízeii.
ftl. — VII, O
latbeina. —
nan. — XI e
J. C. Vieira
— XIII. Di-
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njr. — XVII,
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ADO
N.* 1- — V— "'"" .-»v.^.«.«^ — ...UBtre Tartarin)
1 vol. de 176 paginas.
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N.« 23 — A Inundação, de Emilio Zola, 1 vol. de 187 pag.
N.« 24 — 08 Rantzau, de Erckman Chatrian, 1 vol. do 200 pa^k
LISBOA
Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA
(livraria editora)
50t 52 — Rua Augusta — 52, 54
CoUecção ANTÓNIO MARIA PEREIRA
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de Maria Amália Vaz d« Carvalho, 2 vol.
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Q. Chaves 2 vol.
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N.° 36 — Historias de BVades, por Lino d'A88umpçâo.
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N.» 27 — Os Reis no exílio, por A. Daudet.
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Todos os vol. com este signal * estSo esgotados mas vfto ser re*
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OBRAS
CAMILLO CASTELLO BRANCO
EDIÇÃO POPULAR
3CX1-V
OS BRILHAIITES 00 BimSILEIRO
VOLUMES PUBLICADOS
I — Coisas espantosas.
II — As três irmans.
III — A engeitada.
rV — Doze casamentos felizes.
V — O esqueleto.
VI — O bem e o mal.
VII — O senhor do Paço de Ninães.
VIII — Anathema.
IX — A mulher fatal.
X — Cavar em ruinas.
XI )
Correspondência epistolar.
XII
XIII — Divindade de Jesus.
XIV — A doida do Candal.
XV — Duas horas de leitura.
XVI — Fanny.
xvn )
XVIII I Novellas do Minho.
XIX )
XX )
Horas de paz.
XXII — Agulha em palheiro.
XXIII — O olho de vidro.
XXIV — Annos de prosa.
XXV — Os brilhantes do brasileiro
CAMILLO CASTELLO BRANCO
§S illlffi DO MSIL
QUARTA EDIÇÃO
REVISTA E CORRECTA PELO AUCTOR
LISBOA
Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA
UVRARIA EDITORA
Rua Augusta, 5o, 5-2 e $4
1904
LISBOA
OpnciNAS Typographica e de Encadernação
Movidas A vapor
Rua dos CorreeiroSf 70 e 72^ /••
1904
PKEpflCIO Dfl SEGUííM EDIÇÃO
Recebeu o publico urbanamente este livro
posto que o livro não se apresentasse sempre
de luva branca aos seus hospedeiros amigos.
Algumas vezes, o auctor, descurando a pauta
do moderno decoro com os leitores, abusou
do tom de familiaridade, e nos quer parecer
que despiu a casaca, e se ficou em mangas de
camisa a contar as manhas das Ruivas e Ca-
traias, dos Fialhos e Athanasios. Tem elle dito
aos seus amigos que a velhice auctorisa cer-
tas liberdades; e que, por mais agua de cal
que se lance nos esgotos, os cheiros nauseati-
vos vaporam sempre. Esta rasão da velhice e
dos cheiros não é efficaz ; e, por tanto, é de es-
perar que elle, na terceira edição do romance,
introduza sifões mais perfeitos nas suas latri-
nas sociaes, tornando inodoros os seus perso-
nagens.
Afflícções sudoriferas
Em um frigidissimo dia de janeiro de 1847, por
volta das nove horas da manha, o sr. Hermene-
gildo Fialho Barrosas, brasileiro grado e dos mais
gordos da cidade eterna, estava a suar, na rua das
Flores, encostado ao balcão da ourivesaria dos srs.
Mourões. As camarinhas aljofravam a brunida testa
de Fialho Barrosas, como se a porosa cabeça d'este
sujeito filtrasse hydraulicamente o estanque de soro
recluso no bojo não vulgar do mesmo.
Era o suor respeitável da mortificação; o espon-
jar das glândulas pela testa, quando as lagrimas
golpham dos seus poços, e não bastam já olhos a
estancal-as. Era, em fim, a dor que flameja infer-
nos em janeiro, e tira d'um homem adiposo e gla-
cial lavaredas, como o ethna as repuxa por entre
as neves do seu espinhaço.
Sondemos o que passa dentro d'aquelle corpo, e
desinchemos as bochechas do estylo.
8 Os brilhantes do brasileiro
Hermenegildo Fialho tinha recebido, ás oito da
manhã, no seu escriptorio de consignações e des-
contos na rua das Gongostas, um bilhete da ouri-
vesaria Mourão, convidando-o a entrar n'aquelle es-
tabelecimento, quando podesse, para negocio ur-
gente.
O substantivo anegocio» abalou-o. O adjectivo
«urgente» sacudiu -o.
Poz o chapéo, revestiu de borracha os pés im-
permiaveis, affligindo-os ; enroscou a cara no cache-
nez, sobraçou o guarda- chuva, e foi impando, costa
acima, pelo largo de S. Domingos, resmuneando
no intimo de si: «negocio urgente!... que diabo de
urgente negocio será este com o ourives !?...»
— Então que temos? — perguntou o esbofado
Barrosas, e sentou-se na gemente cadeira.
E os srs. Mourões disseram pouco mais ou me-
nos o seguinte: Que, seis annos antes, elle brasi-
leiro lhes havia comprado um adereço de brilhan-
tes, composto de gargantilha, brincos, broche e bra-
celete por 6:5oo.'ZC500o réis, com o fim de presentear
sua noiva, segundo elle comprador o declarara. Que,
passados sete mezes, pouco mais ou menos, uma
mulher desconhecida entrara na loja, e lhes vendera
um brilhante desengastado por 2boití)ooo réis. Seis
mezes depois haviam comprado á mesma mulher
outro de igual quilate e valor. Corrido o mesmo
praso, outro lhes fora offerecido e vendido. Que,
no fim d'um anno, um ourives visinho lhes tinha
negociado um brilhante de cem libras, o qual lhes
despertara reminiscência de ter sido vendido em
sua casa'; mas, por mais que avivaram lembranças-,
Os brilhantes do brasileiro (j
não recordaram a quem. E, volvido pouco mais
d'um anno, diverso ourives lhes vendera outro bri-
lhante do mesmo preço, dizendo que o comprara a
um joalheiro hespanhol. Não obstante, insistiam em
affirmar que as duas ultimas pedras tinham já sido
d'elles; sem todavia desconfiarem de roubo. Acon-
tecendo, porém, que oito dias antes, uma mulher
com geito de criada, a mesma que primeiro lá ti-
nha ido, lhes levasse uma pulseira para se engas-
tarem pedras falsas no encaixe de outras já desen-
cravadas, a desconfiança inclinou-se logo para rou-
bo. Ficou a pulseira, e depressa reconheceram que
era de sua casa, e d'ahi a suspeita de que os bri-
lhantes comprados lhe houvessem pertencido. Os
dois maiores ainda existiam soltos. Ajustaram^os
nos engastes: frizavam perfeitamente. Recordaram
com mais seguras probabilidades, e convieram na
presumpção que a pulseira era parte das jóias do
noivado compradas pelo sr. Barrosas, seis annos
antes. E, na incerteza, deliberaram prudentemente
reter a mulher, quando ella viesse buscar o brace-
lete, certos de que, a ser a jóia do sr. Fialho, por
força se praticara roubo, sendo improvável que um
sujeito notoriamente rico mandassse vender bri-
lhantes e repor minas novas na pulseira de sua
esposa. . .
— Deixe-m'a cá ver! — atalhou o brasileiro —
Mostre-me isso ?
Mostraram-lh'a.
Era a pulseira de Angela.
Aqui principiou a borbulhar um sumo gomoso e
crasso da testa do homem.
jo Os brilhantes do brasileiro
— É de minha mulher, acho eu ! — tartamudou
ainda indeciso o sr. Fialho — Que é da criada?
— Está na policia porque tentou fugir. Se vossa
senhoria quer, vae um cabo buscal-a.
— Bom será, que eu não posso mecher-me. . .
Parece que me arde o interior ! Dão-me os senho-
res um copo d'agua, se fazem favor?... Isto só no
inferno I — proseguiu o sr. Barrosas^ batendo na
testa com os pulsos - Minha mulher não vendia os
brilhantes ! É impossível ! Vendêl-os p'ra quê ? P'ra
quê, não me dirão os senhores ?
— Pôde ser que estejamos enganados — observou
um dos honrados ourives ; — mas o esclarecerm^o-
nos é tão necessário para vossa senhoria como para
nós. Se nos illudimos, ficamos contentíssimos e so-
cegados. As nossas suspeitas não offendem ninguém,
senão a criada. Em fim, cumprimos um dever.
— Fazem muito bem — obtemperou o brasileiro ;
— mas minha esposa não vendia os brilhantes...
Roubar-lh'os a criada? isso pôde ser; mas... Que
figura tem ella ?
— Baixa, gorda, mais de meia edade, vestida lim-
pamente.
— Os signaes são d'ella. . . Tem uma verruga no
nariz, assim do feitio de ervilha ?
— Não reparei.. .
— E um dos olhos assim a modo de vesgo ?
— Parece que sim... Ella não pôde tardar.
— E então os senhores — volveu o brasileiro com
outro gesto de cara e tom de voz mais afinado —
se os brilhantes forem meus, como hade isto ser ?
— Como hade ser ?!.. .
Os brilhantes do brasileiro Ji
— Perdi-os, eim?
— Isso é outra questão.
— Que questão ? Eu acho que não ha questão ne-
nhuma... Se os senhores compraram uma coisa
roubada...
— Provado o roubo, iremos haver a importância
dos dois brilhantes uhimamente comprados ao ou-
rives que nol-os vendeu; quanto aos que comprá-
mos a pessoa desconhecida, posto que já não este-
jam em nossa casa, restituiremos o seu valor, se
vossa senhoria quizer; mas seria justo e honroso
que o sr. Fialho não sacrificasse quem o acautellou,
para evitar que lhe roubem as outras jóias. Do con-
trario, teríamos de nos arrepender d'um zelo que
nos vem prejudicar. . .
N*este comenos, chegou a criada com um muni-
cipal e cabo de policia.
— E' ella mesma! cá está a ladra! — bradou o
brasileiro — Com que então roubaste a pulseira de
tua ama ? ! . . . Diz lá ! Não respondes ?
A creada abaixou a cabeça, e fechou hermetica-
mente os beiços, como se receasse que alguma pa-
lavra lhe fugisse.
— Que dizes tu, Victorina ? — bradou o amo —
Onde tens tu o dinheiro dos meus brilhantes ? Diz
onde está o dinheiro que eu não te metto na cadeia...
Declaras ou não ? Olhem a ladra que não tuge nem
muge l Já viram ? Olha que te rebento, mulher ?
Falias ? Roubaste os brilhantes ?. . . E esta ! nem pa-
lavra ! Justiça com ella ! Enxovia, até declarar onde
está o meu dinheiro!. . .
Os circumstantes^, espantados do silencio da cria-
12 Os brilhatites do brasileiro
da, e talvez suspeitosos d'algum mysterio talvez jus-
tificativo da inculpabilidade d'ella, instavam-na a
responder.
— Perderia a falia com o susto — aventou o cabo,
e sacudiu-a pelos hombros paralhe desemperrar a
lingua — Você não pôde fallar, creatura ? Que fez
você ao dinheiro dos brilhantes ?
— Gastei o. . . — respondeu ella soluçando.
— Ah ! já confessou ? — interveio Hermenegildo —
cadeia com ella, que eu cá vou a casa ver se me
falta mais alguma coisa. Hade ir degredada !
II
l:650tfl00 réis
Estava Angela na janella de sua casa na «rua do
Bispo», quando o marido surdiu da esquina da «Pra-
ça nova». Reconheceu-o logo pela corpulência re-
donda. Retrahiu-se da janella, e disse comsigo as-
sustada :
— Ha novidade ! O coração bem m'o dizia. . .
Meu marido nunca vem a casa a esta hora ! E Vi-
ctorina sem chegar ! . . . Que seria ! , . .
O resfolgar de Fialho, escada acima, cobria o
estrondo dos pés nos degráos que rangiam.
— Angela ! Angela ! — clamava elle.
— Que é ?
— Dou-te parte que estás roubada ! — bradou
o espheroide.
— Roubada ! gaguejou a esposa.
— Sim ! roubada, tu 1 Aqui tens o teu bracelete
sem os brilhantes. Gonhecel-o ? Vê lá que ladra
sahiu a tua criada favorita ! Um conto, seiscentos e
14 Os brilhantes do brasileiro
cincoenta mil réis de pedras... foi -se ! E tu sem
dares tino d'isto, mulher ! Viste ?
A pulseira tremia nas mãos convulsivas d'Angela.
E o marido proseguia :
— Aqui tens 1 tirou-lhe as pedras boas, e tinha a
pulseira nos Mourões para lh'as incravarem falsas.
Lá está na administração a ladra, e de lá vae pr'á
cadeia, onde hade morrer ; mas o meu conto, seis-
centos e cincoenta mil réis, esse é que não torna...
Angela chorava soluçante.
— Não chores, menina ! — accudiu o sr. Barrosas
— olha que isto não abala a nossa fortuna. . .
— O' meu Deus! — balbuciou a senhora — com
as mãos nas faces.
— Não te afflijas que eu comprò-te outra pulseira,
mulher, deixa-me cá por minha conta a criada ; que
essa, ou eu não heide ser Hermenegildo, ou ella
hade morrer na enxovia.
— Que infortúnio, Jesus, que infortúnio ! — bra-
dou ella desafogando-se a custo dos soluços.
— E ella a dar-lhe ! Tem animo, Angela í Já te
disse que te dou outra pulseira. Sou muito rico,
graças a Deus ! Da ladra da moça eu te vingarei !
Angela cobrou alento^ ergueu a face, enxugou as
lagrimas, e disse serenamente :
— Não prendas a criada que ella estáinnocente.
— O quê ? 1
— Victorina não roubou os brilhantes.
— Então quem diabo os roubou ?
— Mandei-os eu vender.
— Tu ? 1 pr'a que ? o dinheiro d'elles que lhe fi-
zeste ? — exclamou o marido, fazendo ambos os pés
Os brilhantes do brasileiro i5
atraz^ e tressuando novos repuxos de afflicto suor
— Tu mentes, Angela 1 Dizes isso para livrar a cria-
da, não é verdade ?
— A verdade é que Victorina está innocente. Cas-
tigame a mim, se queres, que os brilhantes foram
vendidos por minha ordem — tornou ella com admi-
rável serenidade.
— Que fizestes ao dinheiro, 4u ? — ululou Fialho,
sopesando com as mãos o arquejar do abdómen.
— Gastei-o.
— Em quê? Não tinhas o que te era necessá-
rio ? !
— Tinha ; mas. . . gastei o dinheiro. . .
— Com quem ? com quem ? torno a perguntar
com dez milhões de diabos, com quem gastaste um
conto e seiscentos e. . .
— Não foi em coisas que me deshonrassem, nem
a ti.. .
— Então diz em que foi ?
— Não posso.
— Não podes ? Raios ! . . . pois não podes ? então
quem é que pôde ?
— Não posso.
— Arrebento ! Tu não me cegues, mulher ! Olha
que eu já te não vejo nem enxergo ! Com quem gas-
taste um conto e seiscentos e . . .
— Mata-me que te perdoo a morte ! — volveu ella
tranquillamente — Morrerei sem remorsos nem ver-
gonha. As jóias de minha mãe valem quatro a cinco
contos de réis. Faz de conta que estás pago do
roubo que te fiz : lá as tens.
— A historia não é essa, não é o dinheiro. . . —
i6 Os brilhantes do brasileiro
replicou briosamente o marido — O que se quer sa-
ber é a quem deste o capital ?
— A quem o precisava para não ser infeliz.
— Essa é boa ! Então deste um conto e seiscen-
tos e cincoenta mil réis de esmola ?
— Dei.
— Mas a quem? a quem? com dez milhões de...
— Não te posso diíer mais nada, Hermenegildo. . .
.A criada está innocente. Não a prendas.
— Hade ir presa até dizer a quem deste o di-
nheiro.
— Ella morrerá, sem o dizer.
— Pois hade morrer. . . — vociferou Barrosas sal-
tando e batendo com os dois pés em cheio no soa-
lho— E tu... não sei o que será de ti...
— Mata-me que eu não tenho pena de deixar o
mundo. . . — murmurou socegadamente, mas debu-
lhada em lagrimas, a pallida senhora.
Hermenegildo rolou a sua pessoa fumegante esca-
das a baixo. Entrou no escriptorio do administra-
dor, chamou de parte a authoridade, e contou-lhe
o occorrido com a mulher^ insinuando o magistrado
a sacar da criada o segredo.
— O meu dever é aceitar as declarações voluntá-
rias da criada, — disse o administrador — Não posso
incutir-lhe terrores, nem devassar os segredos da
vida domestica de vossa senhoria. Se sua senhora
diz que a criada está innocente, a confissão da ré
não basta a destruir o depoimento da ama, sendo
de mais a mais muito natural que os brilhantes se
hajam vendido por consentimento de sua esposa ;
aliás desde muito que ella teria dado pela falta. Em-
05 brilhantes do brasileiro 17
fim, sou obrigado a interrogar a ama e a criada, uma
na presença da outra.
— Essa vergonha é que eu não quero ! — obstou
desabridamente o brasileiro.
— O interrogatório hade ser secreto : não ha tes-
temunhas que divulguem este acto impreterível de
justiça, — contraveio a authoridade. — Se sua senho-
ra disser de modo convincente: «a criada cumpriu
as minhas ordens» é certo que a moça não pôde ser
pronunciada, visto que obedeceu a sua ama ; e os
desvios dos bens communs feito pela esposa não é
roubo, nem a cumplicidade da criada é punível. Se
sua esposa foi burlada por algum industrioso, e qui-
zer declarar-se, o meu dever é seguir o fio do en-
redo ; mas o que eu não posso é interrogal-a sobre
segredos da sua vida intima. Isso pertence a vossa
senhoria mediante processo d'outra naturesa. . .
— Então... afinal diz-me vossa senhoria que... —
interrompeu o brasileiro zangado.
— Que vou mandar chamar sua senhora. . .
— Pois chame ! — bradou elle — Este negocio
hade aclarar-se . . . Não se me importa a vergonha
nem o diabo ! Eu sou um homem de bem, sr. ad-
ministrador !
— Quem o duvida ?
— Ninhos atraz das orelhas não m'os fazem 1
— Com rasão. . .
— O meu dinheiro quero saber que fim levou.. .
— Essas averiguações é que são delicadas, sr.
Fialho, — aconselhou a authoridade — E parecia-me
rasoavel e prudente que vossa senhoria as guardasse
para o secreto da sua casa.
2
i8 Os brilhantes do brasileiro
— Mas ella não o diz!
— Se o não diz a vossa senhoria, menos o dirá
a mim ou ao juiz. . .
— Diz que deu um conto e seiscentos e cincoenta
mil réis de esmolas ! O senhor acredita isto ?
— Acredito;. .. porque não ? Se ella repartisse por
todos os infelizes do Porto essa grande quantia, es-
tou em que não chegaria um pinto a cada pobre.
— Mas então a criada que diga a quem levava as
esmolas. Dá-me vossa senhoria licença que eu- per-
gunte ?
— Sim, senhor — respondeu o administrador, e,
tangendo uma campainha, disse ao official de dili-
gencias :
— Essa mulher que entre aqui sósinha.
Entrou Victorina.
— Responda alli a seu amo — disse a authoridade
á presa.
Hermenegildo assoou-se, fez duas upas na cadei-
ra, rossou no pavimento as espaciosas plantas, e
rompeu n^este interrogatório:
— Quem roubou os brilhantes?
— Fui eu, senhor.
— Mentes! Os brilhantes foi tua ama que t'os
mandou vender!
Victorina estremeceu, fitou o administrador, e ga-
guejou palavras imperceptíveis.
— Foi sua ama que mandou vender os brilhan-
tes?— interveio a authoridade.
— Não, senhor. . . Fui eu que os, . . furtei.
E as lagrimas derivavam-lhe pelas faces copiosa-
mente.
Os brilhantes do brasileiro ig
«Esta mulher está innocente!» disse entre si o
interrogador.
— Mentes, desavergonhada! — trovejou o sr. Fia-
lho, jogando com as catapultas dos braços á cara da
criada.
— Levemos isto mais moderadamente, sr. Barro-
sas,— admoestou o administrador — Ora diga-me,
mulher, foi vocemecê mesma que vendeu os bri-
lhantes ?
Demorou-se Victorina em responder:
— Fui, sim, meu senhor.
— A quem?
Repetiu-se a mesma tardança na resposta.
— A quem os vendeu? aos ourives Mourões? —
repetiu o funccionario.
— Sim, senhor.
— Todos ?
— Sim, senhor.
— Está vocemecê mentindo. Os Mourões compra-
ram três pedras a uma mulher, que provavelmente
era vocemecê, e duas a um visinho. Como explica
vocemecê esta verdade com a sua mentira?
A mulher abafava com soluços.
— Seja verdadeira; vocemecê não roubou os bri-
lhantes: vendeu-os por ordem de sua ama. . .
— Não, senhor — acudiu a criada com vehemencia.
— Não me desminta, que logo vae ser sua ama
interrogada na sua presença, e ella mesma já disse
ao sr. Fialho que vocemecê não furtou a pulseira.
— O que eu quero— intermetteu-se o brasileiro —
é saber a quem a tua ama dava o dinheiro.
— Isso é que eu não quero saber em quanto sua
20 Os brilhantes do brasileiro
senhora se não queixar de que foi lograda fraudu-
lentamente— emendou o administrador do bairro —
Já disse a vossa senhoria que esta repartição judi-
ciaria não é confessionário, nem entende com a mo-
ralidade dos actos domésticos, entre casados, em
quanto elles se não queixam competentemente. Da
minha competência é saber como heide enviar esta
mulher ao juizo criminal. EUa teima que roubou os
brilhantes; a esposa de vossa senhoria declara que
os mandou vender. O meu juizo está feito; mas. . .
— Então qual é o juizo do sr. administrador? —
interrompeu o queixoso.
— E' o )uizo do sr. Fialho.
— O meu ? !
— Sim : o senhor diz que foi sua esposa quem
mandou esta ou outra mulher vender as pedras :
eu digo o mesmo.
— Mas quem me hade a mim dizer o caminho
que levou o dinheiro? Um conto seiscentos e. . .
— Sua senhora, se quizer.
— Mas esta mulher sabe-o.
— Vocemecê sabe-o, mulher? — perguntou a au-
thoridade sorrindo.
— O quê, meu senhor?
— Sabe o que aquelle senhor deseja saber?
— Sabes a quem tua ama dava o dinheiro dos
brilhantes ? — perguntou o amo com estrondosos
berros.
— Que brilhantes?
— Os brilhantes que ella te mandava vender.
— Não me mandou vender nada.
— Então roubastel-os tu?
Os brilhantes do brasileiro 21
— Sim, senhor.
Hermenegildo sobre poz os braços um no outro,
transversalmente apoiados no estômago, e começou
a dar com elles de modo que tiravam um som de
tympanites das cavernas subjacentes.
— Já viram pouca vergonha d'este feitio? — gri-
tava elle — Veja vossa senhoria se isto náo é para
indoudecer um homem !
E, levantando- se com prodigiosa rapidez, excla-
mou :
— Vou consultar os meus amigos sobre o que
devo fazer; vossa senhoria faça a sua obrigação. O
negocio é muito serio. Heide sahir com honra d'esta
tramóia. Sou um homem de bem. Quem quizer sa-
ber quem é Hermenegildo Fialho Barrosas, pergun-
te-o ahi na praça do commercio do Porto.
— Sei que é um honrado capitalista, sr. Fialho !
Quem lhe nega as suas excellentes qualidades?
— Vossa senhoria parece que está disposto a fa-
vor dos criminosos ! — retorquiu o ricasso, esbofe-
teando uma mosca na testa.
— Quem são aqui os criminosos?
— Não sei ! não entendo esta balbúrdia !
— Sua senhora diz que mandara vender os bri-
lhantes. Quer que ella seja enviada ao juizo crimi-
nal com o labeo de ladra? — volveu o administrador
agastado.
— Não quero isso! quero saber quem recebeu o
dinheiro.
— Não posso esclarecei o.
— O dinheiro gastei-o eu — repetiu Victorina.
— E' o que vamos ver.
22 Os brilhantes do brasileiro
Disse, e tangeu de novo a campainha o funccio-
nario mandando o official que intimasse a sr.* D. An-
gela a comparecer na administração.
— Que vem ella cá fazer ? ! — exclamou Victorina
com afflicção — Minha ama não tem que fazer n^esta
casa!
— Cá se avenham! — disse o brasileiro, e sahiu
em cata dos seus amigos.
III
Retratos do nataral
Os amigos do sr. Fialho, áquella hora, estavam
em grupo na calçada dos Clérigos á porta do im-
maculado capitalista ***.
Hermenegildo chamou-os á sala do primeiro an-
dar d'aquelle prestante amigo dos brasileiros, e
fallou d'este theor:
— Meus amigos velhos ! srs. Athanasio José da
Silva, Pantaleão Mendes Guimarães e Joaquim An-
tónio Bernardo ! . . .
Interrompa- se a apostrofe, e desenhemos as proe-
minências moraes características d'estes sujeitos in-
vocados a conferir e alvidrar n'um pleito de honra.
O sr. Athanasio tem quarenta e oito annos, é ca-
pitalista, casado, sócio que foi de molhados com o
sr. Fialho, bom visinho, cidadão pacifico, e aos cos-
tumes disse nada. Porém, o povo reza que elle,
apanhando em flagrante a esposa n'uma excursão
24 Os brilhantes do brasileiro
philarmonica ás espheras sonorosas com um cai-
xeiro, tão duro e miúdo tocara o compasso no cai-
xeiro com a batuta de uma tranca, que o rapaz ex-
pulso a couces chegou á terra natal e expirou oito
dias depois, contando o segredo a sua família.
A esposa de Athanasio, depois de encerrar-se
quinze dias no seu quarto, viu abrir-se a porta á
força, fez o acto de contricçao para morrer christã-
mente, e ia expirar de pavor, quando o marido lhe
abriu os braços e disse: «Estás perdoada; mas, se
fazes outra, escavaco-te.» Desde então o porte d'esta
senhora reduz as Fulvias e Marcellas a condições
indignas dos gabos históricos. Peccadora que passe
por ella é visão que a enjoa e adoenta. As filhas,
quando a escutam discretar em virtudes, cuidam que
sua mãe é uma mulher da Biblia.
Quanto a probidade mercantil, Athanasio José
da Silva é contrabandista, e, algum tempo, ia men-
salmente á estalagem da Ponta-da Pedra, em três
carruagens de recreio, com sua familia e as famílias
dos dois amigos presentes, receber cortes de seda,
cambra'*as, rendas e pellames inglezes. Conforme á
justiça e ás manhas do Porto, a firma de Athana-
sio é das mais acreditadas na. praça, e as gazetas,
quando escrevem Athanasio José da Silva, ante-
pÕe-lhe ao nome os adjectivos honrado e probo; e,
se acontece ir para Caldas ou praias com a mulher,
vae sempre f o honrado capitalista com sua virtuosa
esposa».
Pantaleão Mendes Guimarães, quarenta e cinco
annos, capitalista, armador, antigo negreiro e ten-
gajador» moderno. Ha doze annos que uma fres-
Os brilhantes do brasileiro 25
cassa loureira, chamada Francisca Ruiva, lhe coou
filtros cupidineos atravez das enchundias do peito,
e lhe atorresmou os toicinhos da alma. Pantaleao
trasladou do bordel ás alcatifas de sua casa a Ruiva
saudosa do lundum chorado, investiu a da gover-
nança da dispensa, e mais tarde esposou-a, no in-
tento de condecorar socialmente a lama que trou-
xera do alcouce. E, de feito, D. Francisca Mendes,
n'este anno de 1847, 1^ logrou a satisfação de se
ver também calumniada de «esposa virtuosa» nas
gazetas.
Joaquim António Bernardo, negociante por ata-
cado de fazendas brancas, quarenta e um annos,
estúpido perversissimo, antigo gandaieiro, que pas-
sara uma doce mocidade, subtrahindo assucar mas-
cavo das caixas expostas no Terreiro do Paço, e
actual irmão da Misericórdia do Porto e fiscal da
mesma. Casou com a mais desbragada pôlha que
deu a Maya, e arreiou a de veludos e setins para a
passear nas praças do Porto com o gáudio d'um
cornaca vaidoso que expÓe o seu elefante ajaezado
bisarramente. Esta Lais de trapeira, quando passa
espeitorada, recende e trescala o fartum das excre-
ções cutâneas.
Não obstante, a sua recamara não inveja á de
Lésbia o sevo de delicias em que a maiata, Circe
digna dos javardos que a esforçam, ganhou renome
que bastaria a felicitar três coUarejas. Esta dama
já se viu, n'um periódico, em que se dava conta
d'um seu baile, nomeada de «illustre e distincta.»
Ambos os epithetos lhe quadravam, occultos os
substantivos. Não a tratavam de virtuosa, porque
20 Os brilhantes do brasileiro
o localista receou que o termo, revendo ironia, lhe
fechasse as portas do seguinte baile.
Eis aqui noiuito em escorço esboçados os traços
dos três amigos de Hermenegildo Fialho Barrosas.
Deixal-o fallar agora.
IV
Tribunal de honra
— Amigos e senhores — proseguiu Fialho — a ra-
são doesta chamada vão vocês sabel-a !
— Você parece que está afflicto, sr. Hermenegil-
do ? ! — accudiu magoadamente Pantaleão.
— Se lhe parece !. . . E' um caso d'honra e que me
ha de atirar á cova !
— Ora deixe-se d'isso ! — sobreveiu Joaquim Ber-
nardo— Então os amigos p'ra que servem? Aqui
estamos physica e moralmente para tudo que fôr
preciso.
— Meus amigos ! — volveu o marido de Angela —
acontece em minha casa o mais extraordinário caso
que vocês ouviram. . .
— Como assim ? ! — interrompeu o marido de
Francisca Ruiva.
— Negocio de mulheres!... Poucas vergonhas de
mulheres!... Ainda ha quem se case!... — esclare-
ceu Fialho intercortando as palavras com uns sus-
2<y Os brilhantes do brasileiro
piros que lhe subiam do estômago á mistura com
os arrotos de bacalháo assado do almoço.
— De mulheres?! querem vocês ver!... — disse
com espanto Athanasio José da Silva. •
— Temos maroteira ? — perguntou Pantaleão.
— Ouçam lá. Minha mulher vendeu cinco brilhan-
tes da pulseira de casamento que eu lhe dei, e não
diz o que fez a um conto seiscentos e cincoenta mil
réis sonante que recebeu pelos brilhantes. Aqui es-
tá o que eu tenho a dizer.
Os três conferentes levantaram-se a um tempo,
cruzaram as mãos sobre os osssos sacros respecti-
vos, e começaram a passear cada um para seu
lado.
Quem primeiro parou e fallou do seguinte modo
foi o marido da maiata :
— Physica e moralmente fallando, sua mulher,
amigo Hermenegildo, vendendo os brilhantes e dis-
pondo do dinheiro, deve dizer o que lhe fez, por
força ou por geito. Eu cá por mim pegava d'um ar-
rocho, e dizia-lhe: «ó minha amiga, você diz o que
ÍQZ ao dinheiro, ou acaba se aqui hoje o mundo!»
— Amigo Joaquim — contrariou Pantaleão — Não
voto por esse systema, e queira perdoar. Vamos por
partes. O amigo Fialho desconfia de sua mulher?
-Eu?
— Sim : parece-lhe que ella doidejou e lhe fez al-
guma patifaria ?
— Eu sei cá, homem !. . . Vejo isto I. . . Ah ! esque-
ciame de dizer que ella diz que deu o dinheiro aos
pobres. .
— Bem me fio eu n'isso ! Essa não amolo eu ! —
Os brilhantes do brasileiro 29
refutou Pantaleão, bascolejando nas queixadas um
riso gallêgo — Aos pobres 1 . . .
— Também eu não a engulo ! — concordou o ir-
mão da Misericórdia — Que diga o nome dos po-
bres I Sim ! queremos saber quem são os pobres.
Physica e moralmente fallando, se ella o não disser,
está provado o crime.
— isso está ! — obtemperou Athanasio — E cá, se
a tratantada fosse comigo, era negocio feito, per-
cebe você ?
— Você que faria? — perguntou Fialho.
— Eu ? I Eu ? ! então você ainda me não conhece ?
eu cá era dois pontapés, e rua, percebe você ?
— Isso não são modos ! — obstou Pantaleão Men-
des Guimarães — Amigo Fialho, você averigue esse
caso com vagar.
— Não tenho que averiguar! — recalcitrou o ma-
rido de Angela — E' isto que lhes digo. Gastou o
dinheiro e não diz em quê.
— Então, convento com ella ! — alvitrou o pru-
dente Guimarães — Um homem de créditos faz isto.
Os amigos digam agora o que entenderem.
— Eu — opinou Joaquim José Bernardo, descas-
cando os rebordos das ventas infectas — physica e
moralmente fallando, também vou para ahi, atten-
dendo a que é melhor não dar escândalo. Você ad-
ministra-lhe de comer e beber no convento, e não
quer mais saber d'ella.
— E se lhe pozer demanda a mulher ? ! — lem-
brou Athanasio.
— Demanda? ora essal... — accudiu Joaqaim
Bernardo — Demanda ?
3o Os brilhantes do brasileiro
— Sim ; vamos que ella pede metade da fortuna,
ou o dote de trinta contos com que o amigo Fialho
a dotou?
— O amigo Fialho não tem nada — respondeu
triumphantemente o arbitro — Tudo que elle tem é
nosso por uma escriptura de divida. Você tem pro-
curação d'essa mulher?
— Tenho.
— Então que lhe pegue com um trapo, physica e. . .
— Pelo que ouço — interrompeu Fialho — vocês,
amigos, decidem que minha mulher se porta mal...
— Pois isso ! — confirmou Pantaleão — Nem dado
nem de graça ! Você inda duvida ? !
— Eu, como não tenho desconfiado nem visto
nada. . .
— Podéra vêr I. . . — redargiu o fiscal da Miseri-
córdia.
— E vocês tem ouvido fallar de minha mulher ?
— perguntou Fialho.
— Olhe, isto de fallar, falla-se de todas — respon-
deu o marido da maiata. — Nem a minha tem es-
capado, cá por certos zuns-zuns que me chegaram
aos ouvidos ; mas vem barrados cá pr*a mim, que
eu sei quem tenho. . .
Pantaleão e Athanasio trocaram uns lances d'o-
Ihos velhacos em que Hermenegildo entrou com o
seu contingente de fino maroto.
— Isso é verdade — apoiou o marido de Francis-
ca Ruiva — A gente se for a dar ouvidos á cana-
lha, está perdida com a sua vida. Um homem tem
sempre rabos de palha. Mas eu ando tanto ao se-
guro cá a respeito da minha honra, que desafio o
Os brilhantes do brasileiro 3r
mais pintado a dizer de minha mulher isto ou
aquillo.
D'esta vez os olhos de Joaquim encontraram os
de Athanasio, em quanto Fialho lá entre si dizia :
«Estás arranjado com a virtude de tua mulher. . .»
— Meus amigos, — disse Athanasio a seu turno —
isto é terra de calumnias e aleivosias. A inveja vin-
ga-se em nos ferir no mais sagrado de nossas al-
mas. Aqui estou eu que . . .
O truculento homicida do caixeiro ia fazer o elo-
gio da consorte, quando Barrosas bradou impacien-
temente :
— Então em que ficámos, senhores ?
— Em que ficámos ? ! — perguntou Athanasio.
— Sim ! os amigos estão ahi a palavriar em obje-
ctos que não vem á collecção. Ora que tenho eu que
as suas mulheres sejam isto ou aquillo ? Se são boas
e virtuosas, dêem graças a Deus, e tratem de reme-
diar este contra-tempo,
— Não tem rasão de se agoniar, amigo Fialho —
contrariou mansamente Pantaleao — Isto veio ao ca-
so de você perguntar se tinhamos onvido fallar de
sua mulher. . .
— Mas ouviram? — accudiu arrebatado o esposo
de Angela.
— Eu não ! — condisseram os três simultanea-
mente ; — mas você bem sabe, — ajuntou Joaquim
António, resalvando melhor juizo — que a nós nin-
guém dizia nada porque sabem que o Fialho e nós
somos carne e unha,
— Sim — obtemperou Pantaleao — Pôde ser que ha-
ja alguma cousa ; mas pelo que eu sei não perde eHa.
32 Os brilhantes do brasileiro
— Mas vocês entendem que o dinheiro não foi
para esmolas. . . — repisou o marido incommodado.
— Sim eu. . . — murmurou Joaquim.
— A faliar a verdade. . . — disse outro.
— E' muita esmola. . . — concluio o terceiro.
— Não que o administrador disse que podia
ser ! . . . — sobreveio Fialho casquinando uma risada
gosmenta.
— O administrador é um asno! — definiu laco
nicamente Pantaleão.
— Asno e mais alguma cousa 1 — obtemperou
Athanasio.
— E então dizem vocês — tornou o brasileiro —
que eu devo metter já minha mulher n*um convento ?
— Podéra... —apoiou o marido de Francisca
Ruiva.
— Deve dar esse exemplo de moral publica ! —
confirmou o marido da maiata.
— E saber quem lhe comeu os brilhantes para se
lhe dar cabo da casta ! — addicionou o matador do
caixeiro.
— E isto como hade ser — volveu meditativo o
interrogador dos honrados juizes de sua dignidade
— Eu não a quero vêr mais diante dos meus olhos !
— Também nos parece acertado isso. . . — con-
veio um dos três.
— Pois então, é mister que os meus amigos se
encarreguem de lhe dizer que se recolha a um con-
vento.
— Não me nego a servil o, sr. Fialho, no que po-
der ser-lhe útil — disse magnanimamente Athanasio
— Os amigos conhecem-se nas occasiões, percebe
Os brilhantes do brasileiro 33
você ? Quer então que vamos dizer a sua mulher
que é preciso já )á entrar n'um convento. . .
— Se ella não disser a quem deu o dinheiro, no-
meando os pobres um a um. . . — condiciou Her-
menegildo.
— Apoiado ! — approvou Athanasio — Se o di-
nheiro se foi em esmolas, então o caso muda muito
de figura, acho eu.
— Isso é verdade — consentiu o fiscal da Mise-
ricórdia \ — mas é necessário que ella não torne a
cahir na asneira de dar tão grandes esmolas» . . que
eu, amigos e senhores meus, ainda que ella me dis-
sesse os nomes dos pobres, havia de pôr de quaren-
tona a galga ! . . . Em fim lá vamos . . . Amigo Fia-
lho, descance em nós, e espere-nos aqui.
Sahiram os mensageiros, e ficou entregue ás con-
solações do aíFectuoso dono da casa o agonisado
marido.
Considerações plásticas
D. Angela já descia as escadas, encaminhando se
á administração, quando foi intimada a comparecer
em juizo. Pela primeira vez, em sua vida de vinte
e seis annos, encarava um official de justiça, cujo
semblante carregado e voz cavernosa a trespassou
de susto. O esbirro caminhava de par com ella,
dando ao acto uma solemnidade policial que fez es-
panto nos logistas visinhos. Alguns enviaram os
marçanos na colla da pallida mulher de Fialho, e
ficaram conjecturando, com variadas hypotheses,
por que iria capturada a visinha.
O administrador, ao ver Angela, ergueu-se em
respeitosa postura, postergando o estylo costumado
n'esta ordem de funccionarios, cujo lance de olhos
é sempre fulminante, denotando, nos vincos da fron-
te severa, a carranca da justiça que os anima e
afeia.
Esta desusada urbanidade do magistrado pôde
explical-a a bellesa de Angela. A condição d'um
Os brilhantes do brasileiro 35
administrador de bairro, no exercício de suas func-
ções, não ha ahi compendio de civilidade que a
pula e amacie tanto como uns olhos meigos que
obrigam a respeito e amor quando intentam so-
mente pedir commiseração.
A esposa de Hermenegildo Fialho, se não era
formosa para causar assombros, tinha direito a ser
considerada uma das mais galantes esposas de bra-
sileiros, os quaes, n'aquelle tempo, eram os usufru-
ctuarios mais ou menos exclusivos das peregrinas
burguezas do Porto.
Angela não era portuense, como opportunamente
se dirá ; mas, no rosado sadio da musculatura e re-
dondez das formas, pertencia á espécie de belleza
sohda e tanto ou quê patriarchal que distinguia e
avantajava, sobre todas, as senhoras da cidade eter-
na de ha quinze annos para além. E, como vem de
molde, deixarei aqui em estylo lamentoso uma sau-
dade á memoria d*aquella raça forte de mulheres
quasi extincta, e já hoje representada por suas filhas,
dessoradas no ambiente impuro dos collegios, e adel-
gaçadas por uma alimentação franceza que lhes de-
pauperou a opulência do sangue herdado.
Orvalharam se-me, ha dias, estes olhos, quando
passados annos de ausência do grande confluente
das famílias do Porto, volvi ás praias da Foz, e re-
conheci a custo as bellas damas da minha moci-
dade. Fora de lisonja, eram ainda grandiosas remi-
niscências dos explendores da formosura antiga,
sem impedimento da superabundância de tecidos
moles que lhes almofadavam as espáduas e qua-
dris : o que porém entristecia era ver as filhas d'es-
^6 0$ brilhantes do brasileiro
tas sadias mães. Britannicamente esgrouviadas, de-
latando a magresa na adherencia dos trajos aos
ossos escarnados, as filhas das sebáceas bellesas
de i85o assustam a alma devotada mais fervorosa-
mente ao ideal; que a pailidez e o osso não é o
prisma por onde poetas costumam entrever as des-
lumbrantes coisas do céo.
Além d'outras causas doeste deplorável estiola-
mento da geração nova, insisto nas que já argui :
collegio e alimentação. O collegio em que o espiri-
to atazanado pelo supplicio lento da geographia, da
historia e da grammatica, perde a seiva nativa, e
refaz-se a expensas do corpo; de maneira que a
idéa se enriquece ao passo que o musculo deteriora :
questão fundamental de physiologia, que importa
ser estudada nos tratadistas especiaes. Quanto á
alimentação, é sabido e notório o progresso peri-
goso da culinária portuense n'estes últimos vinte
annos. A cosinha tornou-se a antecâmara da sepul-
tura. As intoxicações, causadas pelas especiarias,
sobre-excedem a mortandade feita pelo verdête, pe-
los fósforos e pelo acido prussico.
Ora é de saber que as mães d'estas meninas
apenas aprenderam o necessário de leitura e es-
cripta para sustentar uma correspondência honesta
e parcimoniosa com os sujeitos adquados ao intento
licito da familia e da procreação. De espirito não
consummiam coisa que lhes fizesse falta no corpo.
A naturesa florecia e fructificava desempedidamente.
Pôde ser que a mulher ignorasse a forma do globo
e a situação geographica da Abissínia; mas, cm
compensação, o rosado das faces e o alabastrino
Os brilhantes do brasileiro 3j
dos hombros pareciam estar pedindo azas para dis-
putar formosura a uns anjos que vos encantam por
entre as folhagens e festões dourados das cathe-
draes. Rasoavel ignorância e solida nutrição expli-
cam a robustez d'aquella donosa plêiade de cheru-
bins portuenses que levavam os olhos do forasteiro.
Homem de Lisboa, que entrasse no theatro de
S. João, recordava-se de S. Carlos como quem se
lembra de ter visto aquellas almas brancas e Uvi-
das das formidáveis visões do florentino ; ao mesmo
passo que os rostos carminados das filhas do norte
realisavam o mais vivaz colorido do pincel flamengo.
Pois saibam que vae volatisar se da terra portu
gueza essa raça de mulheres que nossos filhos já
não hão de ver. Eu não deploro este desappareci-
mento somente por que me sinto levado na corrente
em que derivam as graças plásticas do meu tempo :
esse egoísmo não cabe na minha alma. Lamento,
s'obre tudo, a sorte dos meus netos, se elles tive-
rem bastante espirito para se não contentarem com
o amor dos puros espíritos. Volvidos cincoenta an-
nos, n'este andar, se a mulher assim continua a su-
btilisar-se, a conservação da espécie não me parece
provável. A meu ver, o fim do mundo está se an-
nunciando na delgadeza, seccura e descarnamento
da fêmea. Virá uma geração em que mulher e ho-
mem se defrontem, não já para se quererem e ama-
rem, senão para discutirem egualdade de direitos
entre espirito e espirito, entre osso e osso. Chegado
o género humano a essa extremidade, acabou-se este
globo, que me parece ser o mais ordinário de todos.
Não era, todavia, assim quando existiam mulhe-
3& Os brilhantes do brasileiro
res como a do brasileiro Hermenegil(jo Fialho Bar
rosas.
Alta e refeita ; cabellos castanhos ; testa larga e
escantuda; sobrolhos 'pretos ; pálpebras amorteci-
das com aquelle doce cançasso do somno irresisti-
vel ; faces que as rosas não deixam ser trigueiras,
mas que um primoroso apreciador do bello desejaria
menos carminadas ; beiços arqueados pelo molde da
pequena bocca, ainda pequena quando o riso mostra
o esmalte dos dentes; pescoço alto, quebrando em on-
dulações de jaspe e torneios de espáduas e n'outras
ondulações que o cantor das Ilhas dos Amores sa-
bia descrever lindamente colhendo nos pomares as
suas graciosas analogias : tal era Angela. Tal era ? !
Que presumpção ! Quem soube ahi descrever uma
bellesa mediana por maneira que vingasse retra-
tal-a no espirito do leitor ? E que direi da mulher
que, á feição de Angela, sobrelevava ás de mais gra-
ças o realce d'um suavissimo colorido de candidez
em que transluzia alma sublimada e cheia de poé-
ticas tristezas!
Que admira, pois, que o administrador do bairro
cortejasse com aíFavel sombra a esposa de Fialho,
sendo que, já de antemão, propendia a protegel-a
das iras um tanto brutas do mazorral marido ?
— Minha senhora — disse elle, mandando retirar
os circumstantes, menos a criada — Seu marido
accusa esta mulher de lhe haver roubado uns bri-
lhantes . . .
— Meu marido engana-se —interrompeu Angela
— Os brilhantes, que a minha criada vendeu, fui eu
quem os mandou vender.
Os brilhantes do brasileiro 3g
— Mas a sua criada confessou ter sido ella quem...
— Já sei que ella confessou ; mas não creia vossa
senhoria senão o que eu lhe digo Esta mulher está
innocente. Pôde vossa senhoria mandal-a embora
sem receio, que estou prompta a declarar por es-
cripto que mandei vender os brilhantes da minha
pulseira.
O funccionario sentia sinceramente não ter mais
que fazer n'este lance, em harmonia com o código
administrativo. Quizera elle, com qualquer motivo
judicial, prolongar a sua interferência nos negócios
domésticos da linda creatura ; mas não lhe occorria
coisa que lhe desculpasse a curiosidade, ou, mais
exactamente, a fulminante ternura que o alvoraça-
ra. Não obstante o acanhamento natural d'estas pai-
xões de assalto, o bacharel, que não era já verde,
e podia com a gravidade do aspecto honestar o in-
tento, animou-se a entrar no mysterio dos brilhantes
com a seguinte pergunta :
— Vossa excellencia tem bastante confiança no
amor de seu marido ?
Angela poz os brandos olhos no semblante do
interrogador, silenciosa e desconfiada do intento de
tal pergunta.
O administrador insistiu, esclarecendo :
— Pergunto eu, minha senhora, se provada a in-
nocencia da sua criada, vossa excellencia consegui-
rá explicar a venda dos brilhantes sem irritar o gé-
nio de seu marido, motivando suspeitas. ..
Atalhou Angela :
— Mandei vender os brilhantes para fazer bem
a uma pessoa infeliz.
40 Os brilhantes do brasileiro
O funccionario receava transpor muito além a ba-
lisa do seu officio, averiguando a espécie de philan-
tropia que uma esposa honesta escondia de seu ma-
rido ; mas o peccado da curiosidade, desculpado
pela bellesa da interrogada, esporeou-o até á indis-
crição de perguntar lhe :
— E essa pessoa infeliz é... é pessoa de quem
seu marido possa .. . suspeitar... relações... me-
nos louváveis ? . . .
Angela doeu-se, ou, mais ao certo, pareceu cor-
rida da pergunta, corando, e baixando os olhos si-
lenciosa.
O administrador não instou, já convencido da im-
puresa da caridade. Faltava solida base para tal
juizo ; mas a malicia humana, se algumas vezes in-
fama, adivinha outras. D'esta vez, porém, o magis-
trado adivinhava apenas que n'aquelle mysterio o
coração era grande parte.
— Bem — disse elle, violentando-se a respeitar o
segredo alheio de sua alçada — O que tenho ave-
riguado é que vossa excellencia mandou vender os
seus brilhantes, e que a criada obedeceu ás ordens
de sua ama.
— Certamente.
— Pôde por tanto vossa excellencia retirar-se,
quando quizer, e a sua criada também. E estima-
rei — ajuntou elle com intencional mas delicada iro-
nia — que vossa excellencia comsiga conciliar á sua
boa acção a complacência do sr. Fialho.
Deu ares de o não perceber a pallida esposa do
brasileiro. Erguueu-se, e sahiu. A criada, limpando
as lagrimas, acompanhou-a.
VI
Amigos do seu amigo
Já Hermenegildo Fialho estava afflicto com a de-
mora dos três parlamentarios enviados á esposa.
Não cuidava elle que Angela comparecesse na poli-
cia, ou se havia esquecido de ter concordado com
a authoridade sobre a urgência da acareação entre
ama e criada.
A impaciência dava-lhe empurrões. Gahia aquelle
sujeito sobre as molas das othomanas flácidas e fa-
zia ringir os aços. Resaltava com pasmosos saltos
d'um coxim para outro, e parecia tentar um suici-
dio por despejo da janella á calçada dos Clérigos,
quando enxergou na Praça-nova Joaquim António
Bernardo, Pantaleão Mendes e Athanasio José da
Silva.
Os solicitadores da honra de Fialho caminhavam
á pressa e com ar de embezerrados. O brasileiro
pregara os olhos n'elles, a vêr se lhes lia alguma
coisa nas physionomias, cá do segundo andar onde
4^ Os brilhantes do brasileiro
os outros Ihejviam^a cara grande e escarlate como
a lua dos theatros.
— O homem dá-lhe ataque apopletico ! — disse
Athanasio a Pantaleão.
— Asno será elle se lhe der algum ataque! —
observou Joaquim António, empregando a gramma-
tica e a phylosophia do seu uso.
— Qual ataque nem qual diabo ! — corroborou
Pantaleão Mendes — Um homem é um homem, sabe
você, amigo Athanasio ? E mulheres não faltam,
physica e moralmente fallando. Haja dinheiro e
saúde : o mais, regalorio !
— Pois sim — redarguiu Athanasio, quando su-
biam a escada — ; mas você não se vá pôr a dizer
isto nem aquillo da mulher, percebe você ? Conte
o que se passou, e deixe obrar a naturesa.
— Não me dê conselhos... — resmuneou Panta-
leão — Deixe o negocio por minha conta ; que a
honra dos meus amigos é como se fosse a minha.
Hermenegildo estava no topo da escada com os
braços em cruz no costado, e o queixo debaixo ca-
bido e apoiado sobre o papo dos bócios.
— Então que ha? — perguntou elle esgazeando
pelas caras homogéneas dos três um relance d'olhos
penetrante.
— Vamos conversar — respondeu Pantaleão, le-
vando o de braço dado para a sala.
— Vocês tardaram tanto! — volveu o brasileiro.
— Estivemos á espera que a sua mulher se despa-
chasse lá da policia ; depois, palavra pucha palavra,
e deitou-nos a conferencia a esta hora — explicou
Athanasio, encarregando Pantaleão, por um gesto
Os brilhantes do brasileiro 43
de cabeça, de ser o relator dos casos acontecidos.
O qual tirou do interior umas palavras, cortadas
por pausas que davam á narrativa uns toques de se-
riedade, prejudicando a Índole ridicula da scena.
— Senhor compadre — disse o marido de Fran-
cisca Ruiva. — Sua mulher não estava em casa ; aqui
o amigo Joquim foi-lhe na piugada, e soubemos que
ella tinha sido chamada á presença do administra-
dor. Esperamos uma hora e pico. N'isto chegou ella
a mais a criada. Estávamos sentados no banco do
pateo, quando sua mulher deu comnosco, e fez-se
amarella como esse colete que você traz vestido.
Erguemo-nos, fizemos lhe as nossas cortezias, e dis-
se eu que lhe queríamos uma palavrinha em parti-
cular. Mandou-nos subir, e chamou para dentro que
nos abrissem a sala de visitas. Entrámos, e d'ahi a
pouco chegou ella, assim com modos de quem se
não importava muito comnosco. Sentou-se, e per-
guntou o que quedamos ; não foi isto, amigo Atha-
nasio ?
— Tal e qual ; é como você diz.
— Eu tomei a palavra, e disse que o meu honra-
do compadre e amigo velho Hermenegildo Fialho
Barrosas nos mandara os três afim de averiguar a
quem a senhora D. Angela deu um conto seiscentos
e cincoenta mil réis de esmola. E vae ella esteve um
quasi nada a pensar, e respondeu que me não dizia
a mim nem a ninguém o que não tinha dito a seu
homem, entende o amigo ? Depois, aqui o nosso
Athanasio tomou a palavra, e começou-lhe a dar
práqui-prácolá, porque torna e deixa, a senhora deve
confessar o que fez ao dinheiro, quem lh'o apanhou.
44 Os brilhantes do brasileiro
que qualidade de pessoa era; porque as mulheres
não podem dispor assim dos capitães dos seus ho-
mens, aliás ninguém pôde contar com o que é seu ;
e de mais a mais dar um conto seiscentos e cincoen-
ta mil réis sem dizer a quem, era caso para descon-
fiar de certas coisas muito feias, etc. etc. etc. Em-
fim, o amigo Athanasio batalhou com ella, apertou-a
por todos os lados, mas respondeu você, compadre?
não respondeu ? nem ella ! Vae depois, o amigo Joa-
quim fallou também com toda a prudência e corte-
zia, discorrendo a respeito da honra d'um liomem,
e também não fez nada. Emfim, como ella estivesse
a ouvir sem responder uma nem duas, eu tomei a
palavra, e disse que o senhor seu marido lhe orde-
nava que se recolhesse sem perda de tempo a um
convento. Agora é que são ellas 1 — proseguiu Pan-
taleão Mendes batendo nas próprias pernas duas
palmadas que soaram como se as ponderosas mãos
batessem nas pernas d'um Cileno de pedra. — Que
cuida você, compadre, que ella respondeu ? ! Que...
— Que não ia! — atalhou o brasileiro, careteando
com olhos e bocca e nariz uma temerosa carranca
de cólera.
— Isso mesmo ! — conclamaram os três.
— «Não vou» — accrescentou o relator — mão
vou para convento» disse ella. E disse mais: tmeu
marido tomou conta das jóias que eram' de minha
mãe ; que fique lá com o dinheiro dos brilhantes, e
que me mande o resto; se quizer mandar; se não
quizer, que fique com tudo. Convento é que não.»
Ha de ir! gritei eu; ha de ir, que seu marido é
quem governa na senhora. aNão vou» teimou ella.
Os brilhantes do brasileiro 45
Então que quer a senhora fazer, se o seu homem
a deixar, sem comer, nem beber, nem casa ? — «Tra-
balharei para viver ; e, se morrer de fome, Deus me
dará o céo, porque morrerei honrada e innocente.»
— Foi o que ella disse, e nós quedamos a olhar uns
p'ros os outros. Disse-lhe então o amigo Athanasio
que dissesse a quem deu o dinheiro, se estava hon-
rada e innocente.
— E vae ella. . . — accudiu o brasileiro anciada-
mente.
— Respondeu que só se confessava a Deus, que
sabia a pureza do seu coração. Não foi isto, sr.
Athanasio?
— Sem tirar nem pôr.
— Tornei a fazer-lhe outra predica — proseguiu
Pantaleão. — Disse-lhe tudo quanto me lembrou em
termos commedidos, não sei se me entende ? Não
acreditei que ella fosse honrada nem innocente por
varias rasões. Ouviu-me tudo com má cara, e poz-
se de pé, e disse que, se lhe não quedamos mais
nada, que podíamos ir á nossa vida. Veja você que
atrevida má-creação a da tal senhora 1 Impor d'este
modo três amigos de seu marido, que iam alli tra-
tar d'um negocio muito serio 1 Coisa assim nunca
me aconteceu na minha vida ; e só pela honra d'um
amigo velho é que se pôde tragar d'estes bocados !
A' vista d'isto, a nossa commissão estava acabada.
Não tínhamos que fazer alli. Pegámos nos chapéos
e nas bengalas, e sahimos. Aqui tem o acontecido.
Você fará o que quizer, compadre.
Hermenegildo começou a passear na sala, jogan-
do de braços por maneira que parecia ensaiar-se
46 Os brilhantes do brasileiro
com elles para esvoaçar. Os amigos contemplavam-
no com umas caras tristes, quando um criado en-
trou com uma bandeja, na qual transparecia em
christaes a opala de antiquíssimos vinhos, lardea-
dos de marmelada, e outras fructas assucaradas que
negaceavam o apetite. O bisarro dono da casa con-
vidou os quatro attribulados a honrarem a sua gar-
rafeira, e sem esforço obteve que' todos, excepto
Fialho, rebatessem os Ímpetos da sua angustia com
alguns tragos de licor que investe os ânimos de for-
ça reagente, e infunde stoicismo nas mais sandias
almas.
— Compadre, beba d'este — disse Athanasio sob-
pondo ao nariz do amigo afflicto o cálix aromático.
— Tire isso p'ra lá ! — refusou Fialho, sacudindo
a cabeça, e fechando os olhos, talvez, á tentação. —
E resmuneou, entre trágico e cómico :
— Se fosse veneno, mettia-o no corpo. . .
— Não seja asno ! — accudiu com hombridade
Joaquim António Bernardo — pois você ainda está
n'essa — Matar-se por causa de mulheres I Está a
ler o nosso homem t — ajuntou o marido da maiata,
gargalhando com applauso dos circumstantes que
bascolejavam o vinho e o riso entre as mandíbulas.
— Ingula esse nó que tem nas goelas, e beba, ami-
go Fialho ! Mulheres 1 . . . Com que então você, com
amigos e fortuna, era capaz de tomar veneno p'rá-
mor d'uma desaustinada de mulher que se portou
mal ! Ella que se mate, se quízer ; e você viva re-
galadamente com cento e noventa contos que tem.
Faça de conta que ella morreu, e trate de arranjar
outra. . .
Os brilhantes do brasileiro 4']
— Ou duas, que é melhor — emendou Athana-
sio.
— Ou três que é mais peitoral — ampliou Pan-
taleão, jpondo a mão suavemente nos gorgomilos
por onde ia passando um damasco.
— O dono da casa, invejoso do espirito dos seus
amigos, accrescentou ;
— Quatro, quatro, para não ser pernão. . . O da-
do é sete fêmeas para cada macho.
— Macho será você ! — replicou Athanasio com a
boca a disbordar de marmelada.
Eis aqui o caixilho luctuoso em que incuadrava
a agonia de Hermenegildo. Por pouco não descam-
bava em orgia o tribunal de homens congregados
para julgar a deshonra de Angela, e salvar a digni-
dade do marido. Paliavam todos a um tempo, al-
vitrando planos tendentes a evitar que a esposa in-
fiel tivesse parte nos haveres do brasileiro. Para
poder entrar n*esta secção importante com inergia,
Fialho sopeteou duas bolachas americanas n'um cá-
lix do de 1806, e poz a mão instinctivamente no bu-
cho aquecido, e capaz de competir em calor com o
coração visinho. Os amigos, fazendo-o beber segan-
do cálix, applaudiam o seu triumpho, e juravam que,
ao terceiro, a honra do seu amigo ficaria lavada co-
mo as goelas.
Apoz longos debates, em que todos fallavam á
mistura, convieram em que Fialho, como commcr-
ciante que era, se obrigasse por escriptura a di-
vidas excedentes ao valor dos seus bens immoveis.
e desde logo alienasse os titulos bancários, e se co-
zesse com o dinheiro. A soberana rasaoque poz os
48 Os brilhantes do brasileiro
cinco alvitristas n'este accordo, deve-se a Athana-
sio, o qual raciocinara d'esta laia :
— Amigo e compadre Fialho, não ha que duvi-
dar : sua mulher tem homem a quem deu o dinhei-
ro. Este homem hade aconselhal-a a separar-se de
você para se dividirem os bens, percebe você ? Se
você os tiver, que remédio ha senão repartil-os. O
maior logro e castigo que você pôde pregar a ella
e mais ao patife é não ter nada que repartir? Eim ?
A resposta geral foi um brado unisono. E logo,
no afogo do enthusiasmo, sacrificaram a quarta gar-
rafa e uma bandeja de pasteis de Santa Clara.
— Mas, se ella não quizer sahir de casa? — per-
guntou Barrosas, acalmado o barulho.
— Você já não tem casa. A sua casa está vendi-
da. Um de nós, quando o compadre quizer, vae to-
mar posse, e sua mulher recebe intimação judicial
para despejo, percebe você? — respondeu enfatica-
mente Athanasio.
— Diz você bem, compadre — obtemperou Fia-
lho — que eu tenho procuração d'ella em branco.
Faz-se escriptura da venda da casa. E n'esse caso
é preciso avisal-a que se mude quanto antes. Vamos
ver se ella sahe ao bem.
— Duvido; — atalhou Joaquim António Bernardo
— aquillo é mulher finória e soberba. Sem ser por
justiça, não a põe o amigo fora de casa.
Continuaram debatendo questões jurídicas ao pro-
pósito, em que as sandices se disputavam primasia,
até que, chegada a hora de jantar, Hermenegildo
foi hospedar-se em casa do compadre, reservando
para a reunião do dia seguinte o plano definitivo.
VII
Revelações cómicas
A's onze da noite d'aquelle dia, Hermenegildo
Fialho rebolava-se no enxergão de pennas, e gemia
uns gemidos que soavam como regougo de raposa.
A comadre foi escutal-o á porta, e veio dizer ao
marido que o compadre estava a gemer de sauda-
des da indigna mulher. Ageitou-se á esposa escan-
dalisada boa occasião de cortar nas mulheres des-
leaes; o marido, porém, que tinha, ás vezes, cons-
cienciosas brutalidades, tapou-lhe os respiradoiros
da ira, murmurando :
— Galla-te, calla-te; e não me cantes tretas a
mim . . .
A esposa incolheu-se, odiou mais do intimo o
marido, e gosou o néctar dos deuses, o prazer da
vingança antecipada, e a prelibaçao da vingança
porvir. Ah ! Athanasios, Athanasios ! . . .
Ergueu-se o verdugo de caixeiros deshonestos.
(Veja o cap. III) e foi ao quarto do hospede.
4
So Os brilhantes do brasileiro
— Que tem, compadre? — perguntou elle — Não
pôde dormir ? Estranha a cama, ou que é ?
— E' uma dor de barriga — respondeu o triste,
apanhando nas mãos a parte dorida, e acocorando
se — Fez-me mal o empadão das ostras. Dá-me vo
cê um bocado de Hollanda, a ver se esmôo este
diabo de marisco?
Fialho sugou na botija, e d'ahi a pouco tinha es-
moido o empadão, e rebentava-lhe tanta saúde pela
cara fora que parecia desafiar todas as ostras do
sr. Bocage a perturbar-lhe o somno.
Mas o compadre, sentando-se-lhe na cama, per-
guntou :
— Quer você cavaco ? Ainda agora deram as
onze.
— Vá lá; vamos conversar, que eu estou esperti-
nado.
— Você nunca desconfiou de sua mulher ?
— Eu nunca.
— Não ia lá por casa ninguém. . .
— Nem alma viva, a não ser a costureira. Visitas
foi coisa que nunca me entraram das portas p'ra
dentro, afora você e mais a sua patroa.
— Mas no theatro . . .
— Theatro! tó carocha t foi logar onde nunca a
levei . . .
— E na missa ?
— Missa ! . . . não era moda lá em minha casa . . .
Você bem sabe que a gente lá no Brasil perde o
pêllo. Logo que casei disse-lhe que isto de missa
era uma historia. Ella ao principio ficou estarreci-
da: mas foi-se afazendo. Comprei-lhe um oratório
Os brilhantes do brasileiro 5i
e dei'Ih'o p'ra que resasse em casa, se quizesse. E
o caso é que ella e mais a criada, aos domingos,
fechavam-se no quarto duas horas a resar ladainhas.
Ora fiem-se lá nas mulheres resadeiras ! . . . Olhe
você, compadre, se a religião não é uma patranha !
— Patranha 1 e que grande patranha !
— A sua mulher resa ?
— Nem se sabe benzer, acho eu.
— Faz ella muito bem; mas vae á missa dos
Congregados ao meio dia, que eu já a tenho visto
entrar na egreja.
— Vae por dar um passeio, e mais os pequenos,
percebe você? Ora diga me cá, compadre — conti-
nuou o previsto Athanasio sem dar logar a que o
hospede averiguasse coisas tendentes a provar que
a mulher do seu amigo conciliava a pureza dos cos-
tumes com a ignorância do signal da cruz — eu ouvi
dizer, e sei com certeza, que você tinha seus amo-
res fora de casa. Nunca lhe perguntei nada a tal
respeito por se não oíFerecer occasião ; mas eu sei
que você tinha em S. Roque da Lameira uma mo-
çoila da sua terra, chamada Rosa ; e outra na sua
quinta da Cruz da Regateira, chamada Benedicta.
— Não lhe mentiram. Confesso o meu peccado;
mas dou-lhe a rasão. Minha mulher não me tinha
amor de casta nenhuma. Tratava-me como se trata
um tio. Entrava e sahia a semana sem me dar um
beijo, nem se lhe importava que eu comesse ou
não comesse. Você sabe que eu sou atreito a mo-
léstia de fígado, e que só me sinto alliviado com
papas de linhaça ; pois ella mandava-me pôr as ca-
taplasmas pelo galego ! Diga-me se uma boa esposa
52 Os brilhantes do brasileiro
consente que alguém ponha as cataplasmas em seu
marido!... Um homem, quando anda pelos cincoen-
ta, precisa ser affagado, não é verdade ? . . . E p'ra
isso é que eu me casei com uma rapariga pobre,
apesar de ser fidalga, formando tenção de a deixar
rica. Imagine você que ella nunca me fez um cari-
nho. A' minha beira estava sempre triste como a
noite. Nunca se ria de chalaça que eu lhe dissesse ;
e depois que eu me deitava ficava ella duas horas
a costurar, mais duas horas a resar, e via-se mes-
mo que me aborrecia. Aqui tem você a rasão por
que eu trouxe da minha terra duas raparigas boas
e bonitas que me amam com todo o aífecto, e cho-
ram, quando se passam três dias sem eu lá ir.
— E sua mulher desconfiava?
— Sabia tudo, por que um brejeiro d'um caixeiro,
que eu puz fora, lh'o mandou contar n'uma carta.
— E ella que fez ?
— Deu-me a carta, e disse que não tornasse a fa-
zer os meus caixeiros sabedores dos meus desvarios.
— E não se zangou ! ?
— Nada.
— Ora essa!. . .
— Pois se ella não me tinha amor nenhum!.. .
Você não intendeu ainda?
— Agora percebo... Mais uma rasão para ter-
mos a certesa de que ella fazia outro tanto.
— Pois isso é claro como a luz que nos está alu-
miando... Chegue-me d'ahi a genebra, que estou
com azia.
O brasileiro embocou a botija, gorgolejou três
bons tragos, e proseguiu:
Os brilhantes do brasileiro 53
— Se ella me tivesse amor, fazia o diabo em casa,
logo que soubesse das minhas asneiras, não é ver-
dade? Pois nunca me jogou a mais pequena cha-
laça a tal respeito ! . . .
— Então não ha que duvidar: — evidenciou Atha-
nasio Mendes — sua mulher tinha com quem se dis-
trahir-, e agora percebo eu como é que ella está in-
nocente. Quer dizer na sua que está tão innocente
como você, seu maganão !
Athanasio riu-se do chiste do próprio remoque.
— Pois sim — reflectiu judiciosamente Fialho —
mas você bem sabe que nós, os homens, não so-
mos mulheres. Elias tem outra casta de obrigações.
Se a mulher for egual ao marido, então não ha
honra nem vergonha n'este mundo, não acha?
— Diz bem, compadre ; mas é que ellas abusam
do exemplo que os homens dão, percebe você ?
— Isso também é verdade— concordou Hermene-
gildo, fechando o olho esquerdo.
— Você parece que quer dormir.. . — notou o hos-
pede.
— Sim, elle agora parece que chega — resmungou
Fialho, fechando o olho direito.
Minutos depois, esta victima deplorável da per
versão dos costumes . . . roncava.
VIII
Revelações tristes
A'quella hora alta da noite, Angela, ajoelhada
diante do sanctuario, pedia á Virgem que lhe inspi-
rasse o melhor meio de cumprir os seus deveres na
apertada situação em que se via.
O ar innocente d'esta mulher que se ajoelha como
infeliz sem culpa, deve tocar o animo de quem vae
lendo isto, e já desde o começo do livro pende a
desconfiar da virtude da esposa do brasileiro. E',
pois, tempo de antepararmos da involuntária aleivo-
sia a mulher pura.
Na margem direita do Lima, ergue-se por entre
arvores seculares o antiquissimo paço de Gondar,
cujo decimo oitavo senhor, no tempo da invasão
franceza, era Simão de Noronha Barbosa, capitão de
cavallaria, gentil e valente, em annosflorentissimos.
Ainda não tinha dezeseis quando amou a filha de
um seu caseiro, com quem queria casar se. Os pa-
rentes e o tutor debalde lhe anteposeram os estor-
Os brilhantes do brasileiro 55
vos da lei e ainda ordens expressas da regência. A
mulher humilde chegou a ser-lhe arrebatada e presa ;
mas a passagem da onda revolucionaria socavou as
portas ferradas da cadeia de Ponte do Lima, e re-
meçou-lhe aos braços a formosa encarcerada. Certo
general de Napoleão mandou a um vigário que os
casasse em sua presença, e galardoou assim a de-
voção, talvez forçada, do capitão portuguez ao leão
de Austerlitz.
Simão de Noronha foi ferido mortalmente no re-
contro de Amarante. A esposa, que o acompanha-
va, quando o viu acutilado e muribundo entre as
garras dos patriotas, que cevavam suas iras mais
encarniçadamente nos jacobinos, morreu de puro
terror, suíFocada por um golpho de sangue. Era
uma fidalga alma a d'aquella filha do povo !
A piedade d'alguns populares salvou o capitão
de ser arrastado nas ruas de Amarante.
Apoz seis mezes de curativo, recolheu-se ao seu
paço de Gondar, e levou comsigo o esqueleto mal
escarnado de sua mulher. Dias depois, entrou n'um
mosteiro, e amortalhou-se no habito de noviço be-
nedictino.
Antes, porém, de findo o noviciado, Simão viu
casualmente sua prima D. Maria d' Antas. Era uma
senhora de formosura rara. Não direi que o rasgar
o noviço o habito fosse um preito digno d'esta no-
tável dama ; nem me espantaria que toda a congre-
gação benedictina despisse as túnicas, e os frades
se esmurraçassem por amor d'ella. Mulheres assim
aluiriam conventos, se lhes fosse consentido visitar
os ; primos. Por um de seus cabellos arrastariam
56 Os brilhantes do brasileiro
communidades, e, d'um volver d'olhos, consumma-
riam a empresa que não bastaram séculos a vingar.
D. Maria d' Antas, filha d'um desembargador da
supplicação, trouxera de Lisboa, aos vinte e cinco
annos, o coração já derrancado. Os seus costumes
e manhas não edificavam ninguém ; mas indoude-
ciam os mais guapos e galhardos fidalgos do Alto
Minho. Além de bella e palavrosa, a fidalga d'Antas
era guapa cavalleira, monteava lobos, matava pa-
tos bravos, e tinha de mulher, apenas, a cara que
ficaria bem n'um anjo, e as fraquesas que vence-
riam a rebeldia dos demónios.
Simão de Noronha, em 1812, já morava no seu
solar das margens do Lima. O esqueleto da esposa
e o habito de noviço eram apenas umas lembran-
ças de infortúnios remotos. A casa ameiada de Gon-
dar recebia a luz e os aromas das primaveras no-
vas pelas rasgadas janellas onde, ás vezes, appare-
cia uma mulher alta vestida de branco. Era D. Ma-
ria d' Antas, não já esposa, mas prima, titulo res-
peitável com que ambos se abroquellavam da infa-
mação. E', porém, de notar que nenhum se preoc-
cupava dos rumores públicos acerca daquelle vive-
rem sós e desligados d'outros parentes sob o mes-
mo tecto.
Devolvidos oito annos, a calumnia já tinha mais
onde morder. Maria d'Antas, sem pejo nem res-
guardo, apparecia com uma creança d'um anno nos
braços.
Mas esta creança, antes de prefazer dois annos,
ficou sem mãe. As janellas do paço de Gondar
techaram-se outra vez. Simão de Noronha desap>
Os brilhantes do brasileiro 5j
pareceu, emquanto na egreja parochial se entoa-
vam os responsos á volta da eça de D. Maria. A
creança foi levada a Vianna, onde vivia casada uma
irmã do fidalgo. E o espanto geral dos visinhos não
desistiu de cavar na sepultura da formosa desvai-
rada até descobrir que ella, n uma vertigem de ciú-
me, fora estrangulada. Isto de cavar na campa da
morta vem aqui figuradamente. Ninguém profanou
a sepultura de D. Maria. O caso execrando sou-
be-se quando um morgado dos Arcos de Vai de Vez
contou aos seus amigos, não sem fatuidade, que
Simão de Noronha matara sua prima, instantes de-
pois que encontrara entre moitas de roseiras um pu-
nhal com a firma d'elle revelador, que também era
primo. Ora este punhal lhe saltara da algibeira da
vestia castelhana, quando o fugitivo pulava da ja-
nella ao jardim. *
Doze annos depois, Simão de Noronha desem-
barcava no Mindêllo com a patente de coronel.
Quarenta e seis annos teria : mas apresentava adian-
tada velhice.
Finda a guerra e reformado em general, o senhor
de Gondar foi viver no seu arruinado palacete de
Ponte do Lima, e não voltou á casa solarenga.
De longe a longe, parava á porta do general uma
^ As miudesas referidas vão quasi textualmente trasladadas
d'uma ementa marginal escripta n'um livro de genealogias,
que principia nos reis de Córdova e termina em Simão de
Noronha Barbosa, 18." senhor do Paço de Gondar. Os que des-
presam os manuscriptos genealógicos atiram fora o melhor
oiro da historia civil, politica e religiosa da nossa terra.
58 Os brilhantes do brasileiro
liteira, d'onde apeava, juntamente com sua criada
já edosa, uma menina que contaria entre quatorze
e dezeseis annos. As pessoas, que tinham conhe-
cido D. Maria d' Antas, decidiram logo que a bella
hospeda do general era filha d'aquella mallograda
dama e de Simão de Noronha. De feito, era a crean-
ça que treze annos antes havia, talvez, sido arreba-
tada dos braços de sua mãe, pela mão que lhe afo-
gara o nome no sangue da garganta.
Era Angela.
Demorava-se a hospeda um dia em Ponte do Li-
ma, e voltava com sua criada, para Vianna, onde
residia querida extremosamente da irmã de seu
pae.
O general não dava nem recebia caricias. A pre-
sença da filha não descondensava de sobra a alma
d'elle as trevas da consciência que lhe escurenta-
vam tudo. A's vezes quedava-se a contemplar An-
gela largo espaço. Marejavam-se-lhe os olhos, e
afundavam-se-lhe as rugas da fronte. E' que via Ma-
ria d' Antas na filha, e em si o algoz. Depois, aíías-
tava-se d'ella carrancudo e desabrido ; por maneira
que Angela não visitava seu pae sem ser compel-
lida. Cobraralhe medo antes de sentir no coração
a ternura de filha.
E a do general por ella raros instantes entreluzia
nas sombras do rosto carregado. De natural um tan-
to selvagem, peorado por infortúnios que endure-
cem a condição, o sr. de Gondar parecia-se com
todos os pacs que não viram crescer hora a hora
os filhos, tanto mais entranhados n'alma quanto lá
pungiu o susto de os perder. Deixar uma filha com
Os brilhantes do brasileiro 5g
dois mezes, e volver a tel-a de quatorze annos, é
como adoptar uma creatura d'outrem, é ter perdi-
do o direito á consolação de amar ardentemente o
ser que se formou ao calor dos nossos beijos. N'esta
compensação entra beneficio de Deus : a não ser
assim, bastaria o sangue para encher de súbito amor
o coração. O sangue ! Retrocede cem annos quem
faz conta do sangue — o extracto utii do bolo ali-
mentar — no vinculo espiritual de pae e filho, al-
liança sacratíssima, que se faz de lagrimas e não
de sangue.
Angela, já suposta herdeira do general Noronha,
era amada em dobro : formosa e rica. Amavam-na,
pediam-na uns morgados que ella nunca tinha visto
nem conhecido de nome. As solicitações por escri-
pta ao mysantropò velho não recebiam resposta.
Ninguém ousava dirigir-se em pessoa a um homem
que dizia aos criados: «não conheço ninguém».
D. Beatriz, a irmã do general, tinha sido a me-
dianeira dos primeiros pretendentes. O pae de An-
gela, no propósito de cortar futuras negociações,
ordenou seccamente a sua irmã que mudasse An-
gela para a companhia d^outra tia professa nas be-
nedictinas de Vianna, se a não queria solteira em
sua casa.
E Angela abençoava a resistência do pae. Não
conhecia uns, e não amava nenhum dos fidalgos que
trcs séculos antes porfiariam em merecel-a acutilan-
do-se reciprocamente. Os mais destros e insofíri-
dos o que faziam era chover cartas de empenho a
D. Beatriz de Noronha, e presentes ao egresso con-
fessor d'aquella distincta beata.
6o Os brilhantes do brasileiro
Temos, portanto, donzella invulnerável ? Angela
desmentirá a exhuberante sensibilidade de sua mãe ?
Ou, namorada das visões beatificas do christianis-
mo, suspira pela soledade do senobio ?
Muito longe d'isto, e muito a dentro das raias da
naturesa humana estava a peregrina Angela.
IX
Amores falaes
Amava um que se habituara a contemplal-a como
o espirito devoto contempla uma escuiptura da Vir-
gem Maria, e com respeitoso temor imagina que os
olhos da imagem fixos nos seus tem raios de luz
viva e transluzem amor e misericórdia do coração
divino.
Era um estudante que se habilitava para cursar
a escola medico-cirurgica do Porto. Era cunhado
do mercieiro que provia a casa de D. Beatriz. Era
irmão da mulher que costurava os vestidos das fi-
dalgas, e ensinara a bordar D. Angela. Ghamava-
se, curta e plebeamente. Francisco José da Costa, e
sabia que seu avô paterno tinha sido carpinteiro, e
seu avô materno cosinheiro de um hiate.
Ora um homem assim «mal-nascido» alguma jóia
devia trazer preciosa dos inexauriveis thesouros de
Deus. Se nos elle sahir bom e honrado coração,
desculparemos a baixeza de instinctos com que nos
alvorece Angela no seu primeiro amor.
fe Os brilhantes do brasileiro
A innocente não se escondia de D. Beatriz. En-
sina a experiência que a candura e a indiscrição an-
dam muito intimas. A innocencia hombrea com a
inépcia. Não pôde uma menina amar innocentemen-
te senão as suas bonecas. Amores d'outra espécie,
desajudados de espertesa e finura, desfecham em
escândalo ou sandice.
D. Beatriz, devotíssima de S. José que carpinte-
jaya, de S. Pedro que pescava, e de S. Marcos que
mesinhava enfermos, e de S. Lucas que pintava, e
de S. Matheus, cobrador de impostos, e de S. Cas-
siano, mestre escola, e de S. Theodoto, taverneiro
— christã a extremos de lavar os pés aos pobres em
quinta feira santa, — transiu-se de horror frio quan-
do teve a denuncia de que sua sobrinha amava o
irmão da Joanna Costa. A denuncia vinha justifica-
da com uma carta d'elle, significativa de não ser a
primeira, nem talvez a decima : porque o tratamen-
to dado a uma filha de Simão de Noronha e de D.
Maria d'Antas era . . . um tu !
D. Beatriz poz as mãos convulsas nos olhos quan-
do leu iu na primeira linha, tu a primeira syllaba da
carta, uma entrada assim suja e escandalosa n'uma
missiva de caderno numerado d'uma a dez pagi-
nas ! E não leu mais do que aquelle tu, porque em
seguida apanhou-lhe o flato as potencias da alma, e
ella ficou a escabujar tão somente com a potencia
de braços e pernas.
Angela accudiu; Victorina, aquella criada que o
leitor já conhece, lá estava, e nas mãos d'esta, a
carta.
— Veja isto, menina, veja isto ! — murmurou Vic-
Os brilhantes do brasileiro 63
torina — tanto lhe pedi que não lhe escrevesse...
Angela sumiu a carta no seio, e tomou nos bra-
cos a tia. Chamou a, beijoua, pediu lhe perdão, de-
bulhou-se em lagrimas, e deu graças a Deus quando
a velha mandou fazer uma infusão de herva cidrei-
ra para applacar a tempestade dos nervos.
Depois do quê, D. Beatriz obrigou a sobrinha a
contar-lhe pelo miúdo a origem da sua correspon-
dência com o irmão da costureira. Via-se a menina
inleiada para referir o mais singelo da historia que
era a origem; mas a velha insistia em perguntar:
— Gomo foi o principio d'isso?
— O principio ... foi . . . foi . . . eu vêl-o . . . — -
respondeu Angela muito apertada.
Este começar a historia d'um primeiro e talvez
eterno amor tem a sublimidade simples da origem
do universo, referida por Moysés: «No principio
era o Verbo» ; com a differença que o principiar de
Angela entendese melhor.
— Então tu... — objectou a tia entre irónica e
severa — viste-o, olhaste para elle, e mais nada. . .
ficaste apaixonada ! . . . Com effeito ! . . . Eu ainda
não me infirmei bem na cara d'esse sarrafaçal ; mas,
pela idéa que tenho, elle tem uma figura muito re-
les! Tu não sabias — continuou D. Beatriz espiri-
tando-se com uma pitada de vinagrinho — não sa-
bias que elle é irmão da Joanna, e cunhado do Zé
tendeiro ? e que o pae d*elle era sacristão da Se-
nhora da Agonia, e que a mãe trabalhava com os
bilros ? Sabias isto ?
— Sabia. . .
— Sabias ? ! quem t'o disse ?
64 Os brilhantes do brasileiro
— Foi elle.
— Foi elle mesmo ?! o tal Francisco ?
— Sim, minha senhora.
— Então tu fallavas-lhe ?
— Não, minha senhora . . Escrevia-me elle.
— E contou-te de quem era filho ! . . . É extraor-
dinária a sinceridade 1 . . . E para que fim te contava
elle essas coisas que deviam fazer-te cahir na rasao
da tua indigna escolha ?
— Gontava-me estas coisas para que ninguém
m'as contasse antes d'elle.
— Então o rapazola tinha orgulho em ser filho
do sacristão ? . . . Bem sei . . . são as idéas que cá
trouxe a liberdade. . . Deus perdoe a teu pae, que
também ajudou a fazer gente os netos dos carpin-
teiros e dos cosinheiros dos hiates... Oxalá que
elle não pague. . . Vamos ao caso. . . E tu, apesar
do Francisco da Joanna te dizer quem era, não mu-
daste de idéa ?
— Não, minha senhora. . .
— Continuavas a querer-lhe. . .
— Sim, minha tia.
— E com que fim ? querias casar com elle ?
— Se me deixassem, casaria.
— Ora não sejas infame! — bradou a tia, cer-
rando os punhos, e resfolegando tão irada que o
tabaco lhe espirrava em granizo das ventas arque-
jantes— não sejas infame, Angela! — repetiu ella,
resistindo ao flato que já lhe emperrava a lingua —
Não és minha sobrinha, não és filha de Simão de
Noronha... De Maria d' Antas creio eu bem que
sejas filha. . .
Os brilhantes do brasileiro 65
A ultima espécie do insulto foi vociferada com
rancoroso sarcasmo: Angela não o percebeu.
— Com que então, se te deixassem, casarias com
o cunhado do Zé tendeiro ! . . . repetiu a velha acen-
tuando com crispações de riso aspérrimo aquelle
Zé^ elidindo a primeira syllaba para engrandecer a
ignominia do nome.
Angela ouvia em silencio e lagrimosa as invecti-
vas da velha, cortadas de frouxos nervosos. De sú-
bito, D. Beatriz, circumvagando pelo sobrado o
olho direito armado da luneta, exclamou:
— Que é da carta, que eu tinha aqui ? Que é da
carta ?
— Aqui está — disse mansamente Angela, apre-
sentando-lh'a.
— Querias lêl-a, não é assim ? ! — gritou a velha,
tirando-lh'a da mão com arremeço — Vae perguntar
á criada que m'a trouxe se ella quereria casar com
o Francisco da Joanna. . .
E, abrindo a em tremuras de raiva, pôz a luneta,
e bradou :
— Tu!.., Olha isto, filha de Simão de Noronha!
Tu. . . O neto do cosinheiro dá tu á filha do decimo
oitavo senhor do paço de Gondar ! . . . Não te en-
vergonhas, Angela!..» Consentiste em semelhante
insulto a tua mãe, que era das mais distinctas fa-
milias de Portugal?*
4 O auctor já deu noticia d'um manuscripto genealógico
da família d'Antas/escripto por um garfo infeliz d'este illus-
tre tronco. Eram quinze ou dezeseis os monarchas apparen-
tados com esta familia. Veja-se o livro intitulado Coisas le-
ves e pesadas.
5
66 Os brilhantes do brasileiro
Como a filha de Maria d' Antas não respondesse,
D. Beatriz gesticulou d'hombros e cabeça em ar de
assombrada, repoz a luneta no olho fundo e mirra-
do, e leu mentalmente, fazendo esgares com os
queixos, ao passo que um novo tu lhe descompu-
nha o apparelho nervoso. Muito é, porém, de no-
tar-se que da leitura da segunda pagina em diante
o rosto da velha denotava espanto sem ira, sem
carrancas, sem intermittencias de suspiros e ais. Um
período especialmente a impressionou de feição que
voltou terceira vez a lêl-o, compassando o intendi-
mento de cada phrase com um gesto aííirmativo de
cabeça. A passagem dizia assim:
«Não nos illudamos, minha boa amiga. Pôde ser
«que Deus aproximasse as nossas almas; pôde ser
«mas, se ellas houverem de se encontrar e unir, hade
«ser na presença de quem as creou, — no céo. N'este
«mundo, é impossivel; e, se fosse possível, a so-
«ciedade te obrigaria a chorar rios de lagrimas, e
«eu mesmo chegaria a sentir o tormento do remorso
«por ter assassinado as alegrias do teu destino, e
«destruído as modestas aspirações do meu. Desde
aque comecei a adorar o que em ti ha divino, nem
«uma hora sô entrou em minha alma o pensamento
«de te ver minha esposa. Era escusado que minha
«boa irmã estivesse sempre a medir a distancia que
«nos separa. Bem viste que eu t'a mostrei na se-
«gunda carta que te escrevi; e Deus sabe que eu
«chorava quando parecia rir da humildade de meu
«pae, que era um respeitável velho muito pobre,
«muito resignado, e muito feliz. A grande herança
«que elle me deixou foi a certesa de que ha pobres
Os brilhantes do brasileiro 67
«felizes. Conheço que a minha mocidade já não vae
«encaminhada pela trilha da de meu pae. Elle igno-
«rava tudo, excepto os artigos da fé que atam as
«tristesas transitórias d'esta vida aos eternos con-
«tentamentos d'outra: eu estudo ha seis annos,
«penso e afflijo-me em terriveis duvidas; e, se creio
«n' alguma coisa santa, é porque comparo a felici-
«dade de meu ignorante pae com as dolorosas in-
« quietações do meu espirito. Mas a ti que importa
«isto, minha adorada amiga? Que impertinentes
«cartas te escrevo n'estas njites tão compridas e
«veladas! E que pesar me fica se ellas te enfadam,
«cuidando eu que tens lá também noites sem dor-
«mir, e amisade bastante para acceitar as confiden-
«cias do pobre solitário!...»
D. Beatriz deixou cahir o braço que sustinha o
papel, desarmou o olho cansado, e perguntou :
— Elle é quem ditou isto?
— Isto quê, minha tia ?
— Esta carta?. . . Não creio que elle saiba dizer
estas coisas. . . Não pôde ser. . . Alguém lhe faz as
cartas... Nada... O Francisco da Joanna, com
aquella cara de bruto que tem, não ideava assim
umas idéas tão discretas. Aqui anda sancadilha ar-
mada á tua innocencia, Angela. Ha velhaco escon-
dido n'este negocio! Sabes o que é, tola?. . . O ra-
paz pensa que te prende com a confissão da sua
humildade. Pouco mais ou menos aconteceu isso
comigo, quando eu era da tua edade; e mais o meu
pretendente era um doutor, filho do juiz de fora de
Ponte. Também me veiu com estas cantigas da
desegualdade dos nossos nascimentos; e eu, a fal-
68 Os brilhantes do brasileiro
lar-te verdade, ia-me deixando levar, e não sei onde
chegaria a minha loucura, se teu avô do pé p'ra mão
não me escolhe marido conveniente. Casei, e d ahi
a quinze dias já nem me lembrava o outro ; s6
quando o vi passados annos, muito gordo e nédio,
é que me lembrei do palavriado d'elle. (D. Beatriz
contava o caso espedindo uns espirros de riso gos-
mento). Dizia o velhacorio que o seu ultimo dia
seria aquelle em que me visse ligada a outro cora
ção; e, ainda na véspera de me casar, me fez ver-
ter grossas bagadas sobre o papel em que me es-
crevia que o sangue lhe sahia em borbotões pela
bocca. Depois quando o vi muito barrigudo, casado
com outra barriguda de feitio e da casta d'elle, pe-
gou-me uma vontade de rir, que ainda agora não
posso ter mão, que me não doam as ilhargas ! . . .
E casquinava de modo a humorística velhinha
que Angela ria também do irresistivel grutesco de
sua tia, recordando tão comicamente os seus virgi-
naes amores.
— Pois convence-te, menina — volveu a fidalga,
revertendo a custo a seriedade do acto— que estás
passando pelo que eu passei; mas este cá me quer
parecer mais manhoso do que o outro. Tem mais
lábia. Vem cá com estas coisas dos artigos da fé,
que resava o pae... Podéra não! Ou elle não fosse
sacristão !. . . Aposto eu que o filho não sabe o Pa-
dre nosso! Se o pae era feliz na sua baixa posição,
por que não vae elle para o logar do pae ? Eu já
disse ao Zé tendeiro que se deixasse de o mandar
estudar no Porto; que o mettesse n'um officio. E
elle quem lhe deu dinheiro para seguir os estudos
Os brilhantes do brasileiro 6g
de cirurgião, ou medico, ou lá do que é? O cunha-
do quanto tem quanto me deve. Emprestei-lhe um
conto de réis a juro ha três annos, e paga me em
arroz e bacalháo. Nem d'aqui a vinte annos me tem
pago. Ora não ha! — continuou a credora do mer-
cieiro aguçando a voz em iracundo falsete — se eu
via minha sobrinha casada com um lapuz, que ain-
da ha annos andava por ahi a jogar a pedrada no
cães ! Onde foi elie apprender este palavriado ! . . .
Nada. . . isto é d'algum finório que esperava ganhar
alguma coisa se cahisse o raio na minha familia.
Não hade cahir ! — bradou ella batendo com os ossos
do pulso no capacho de palha em que encruzara as
pernas — Não hade cahir, em quanto eu for viva !
Teu pae não te quer casar ? Eu te casarei ! Esco-
lhe. Tens cinco pretendentes. Um da casa de Paço-
vedro ; outro da Passagem ; outro de Aborim ; ou-
tro de Aguião ; outro de Azevedo ; outro de . . .
quem é o outro?
— Não sei, minha tia : nem quero saber, por que
não caso com nenhum.
— Não casas com nenhum ? ! — assobiou a velha
erguendo-se duas pollegadas de salto acima do ca-
pacho.
— Não, minha senhora,
— Não ? I . . . Vou escrever a teu pae ! Elle te
obrigará !
— Meu pae não quer que eu case com algum
d'esses que a tia nomeou.
— Não? mas eu vou dizer- lhe que ha um preten-
dente mais moderno : o Francisco do sacristão. Pôde
ser que elle queira este. O negocio vae arranjar-se.
70 Os brilhantes do brasileiro
Queres que lhe dê parte do novo arranjo ? Respon-
de : isto é pedir de bocca. Teu pae deve querer que
o decimo novo senhor do Paço de Gondar seja neto
do sacristão da Senhora da Agonia. Tem vergo-
nha ! tem vergonha ! — rebramiu a velha, erguen-
do-se de Ímpeto, e bradando a Victorina que lhe
trouxesse mais chá de cidreira.
X
D. Beatriz injuriara cruelmente Francisco José da
Costa ; mas não conseguira envenenar com a du-
vida o coração de Angela.
A corajosa menina, livre da velha que adorme-
cera quebrantada de insultos nervosos, fechou-se a
lêr as cartas do moço, e a escrever-lhe a noticia
das tribulações d^aquelle dia. Atraiçoada pela me-
dianeira da correspondência, supplicou a Victorina
que fizesse entregar aquella carta, promettendo-lhe
ser a ultima. Condoeu-se a criada, movida também
pela esperança de ver terminado o funesto namo-
ro, prenuncio de maiores desgraças. Foi ella pro-
priamente entregar a carta, e pedir a Francisco da
Costa que sahisse de Vianna, se não queria que a
menina perdesse o amor de sua tia, e, peor ainda,
a protecção do pae. Ainda assim, os dizeres da
carta desdiziam dos rogos da criada. Angela pe-
dia-lhe amor e animo, paciência e esperança, ju-
']2 Os brilhantes do brasileiro
rando morrer antes de succumbir a um casamento
violentado.
O estudante esperou alguns minutos que as la-
grimas o desafogassem, e, escrevendo, pedia per-
dão a Angela de sua covardia. «Sou covarde — es-
tcrevia elle — por que fujo; covarde por que me
«não atrevo a vêr o rosto da infelicidade que te
«ameaça. Vou sahir de Vianna. Quando souber que
«o meu nome passou do despreso ao esquecimento
«de tua tia, voltarei. Se te encontrar tranquilla, não
«perturbarei o teu socego. Para eu te adorar, como
«até aqui, em todas as situações estarás bem, mi-
«nha amiga. Ainda ligada a outro homem, eu sabe-
«rei separar o anjo da mulher. O que eu não que^
«ro, nem posso, é tirar-te o nome, o prestigio, o
«amparo e a honra que só é visivel em quanto a
«consideração publica a proclama ou finge reconhe-
«cer. . .»
— Elle não me ama! — disse, entre soluços, D.
Angela a Victorina — Não me ama, e eu hei de ser
muito desgraçada por amor delle!. . .
A criada louvava-se a si do conselho, e agradecia
a Deus a honrada determinação do estudante, dan-
do como terminado o lance em que o bello e rico
futuro da sua menina corria perigo. Angela, toda-
via, asseverava que tudo estava perdido para ella,
e que só lhe restava reduzir-se á extrema pobresa
e desvalimento do pae, a ver se assim o homem
pobre e plebeu a queria para esposa.
Este plano, se viesse a realisar-se, era original, a
meu vêr^ mas não sei que fados esquerdos se atra-
vessam aos projectos épicos em matéria de casa-
Os brilhantes do brasil etr^o jS
mento, se a poesia depende de uma casinha colma-
da, á ourela de um regato, com seis pés de couve
na horta, e por cima lua, sol, estrellas e ar á des-
crição. A culpa de se malograrem estes sublimes
intentos quem na tem é a sociedade, esta prosa
derreada do gentio commum que assim que vêem
pomba a librar-se três metros acima da lama, ape-
drejam-n'a, desazam-n'a, dão com ella em terra. E
desgraça ! Mulheres distinctas com amores distin-
ctos é mister invental-as. E maior desgraça ainda :
as heroinas, que se admiram e applaudem no ro-
mance e no drama, seriam assobiadas, se tal gé-
nero de pensar e viver se encarnasse em sinceras
heroinas na vida real.
Angela seria capaz de descer até livelar-se com
o irmão da Joanna costureira ; mas não a deixaram.
Privaram-na de estremar-se do vulgar. Compelli-
ram-na por maneira as circumstancias que não ha
ahi maior rebaixamento onde podesse ir sopesada
uma alma primorosa em finesas d*amor.
Vamos ver o que este mundo faz das mulheres
que transcendem a craveira commum.
D. Beatriz, aconselhada pelo seu confessor, es-
creveu ao irmão precavendo-o contra a inclinação
amorosa de sua filha, sem esconder o nome e a ge-
ração vilissima do inquietador de Angela. Por sua
parte a fidalga declinava de si a responsabilidade
d'alguma consequente ignominia de familia, admoes-
tando o general a que levasse Angela para sua casa,
e lhe insinuasse com o preceito sentimentos de di-
gnidade e faro mais senhoril na escolha dos mari-
dos. Esta linguagem methaphorica devia ser do
7^ Os brilhantes do brasileiro
frade confessor. Só um egresso, descassado das
boas praticas de sala, daria a uma senhora faro na
escolha de maridos, assim á guisa de perdigueira
de dois narizes que fareja a volateria.
Simão Barbosa não se assanhou. Respondeu pla-
cidamente que transferisse Angela para o conven-
to, e lhe fizesse saber que a rebeldia lhe redunda-
va em passar de condição de senhora á de criada.
9. Eu não sei bem de quem ella é filha. Apenas lhe co-
nheci a mãe,y> Este homem, escripto isto, devia
accrescentar : «Eu deveras não sou pae d'essa mu-
«Iher, por que pude escrever esta resposta sem sen-
«tir o minimo abalo de ódio ou de piedade. Se me
«dissessem que ella tinha casado com o filho do sa-
«cristão, daria ordem a um lacaio que os enchotas-
«se da minha porta com um tagante.» Era o ermo,
o tédio, a doença, a irreligião, a covardia em anni-
quilar-se, que empedravam o coração do general.
Uma hora, em certa noite, dezesete annos an-
tes.. . hora negra foi essa que lhe innoitou a vida
inteira. Ullulava-lhe desde essa hora nos ouvidos um
grito de garganta abafada. Nenhum rir de festa, ne-
nhum gemer de infelizes, nenhuma aurora de paz
vingou mais distrahil-o d'aquella noite, e do som final
d'uma corda de vida que lhe estalou entre os dedos.
Quando Angela recebeu as ordens de seu pae, já
Francisco da Gosta ia caminho do Porto.
Mas que homem é este ? que edade tem ? que fi-
gura ? que despropósito de coração é esse que se
escusa com feminil pavor a fazer rosto á desgraça,
raras vezes vencedora, se a paixão braveja e se es-
braseja n'um formidável «quero» ?
Os brilhantes do brasileiro ji
Francisco José da Costa vae em vinte e dois an-
nos. Não se recommenda por gentilesa, posto que
lhe sobejem graças estimáveis. Basta lhe os olhos
negros e a tristeza, a pallidez e o nunca sorrir-se.
E* poeta ; mas as suas estrophes não se imprimem ;
são lagrimas ; e desconhecidas, porque ninguém o
vio chorar. Estuda desde os treze annos com intel-
ligencia precoce. A mente de seu pae era fazel-o
frade em ordem pobre ; mas o mocinho esperava
que o seu estudo lhe valesse formatura gratuita em
Coimbra.
Mudadas as instituições politicas, e fallecido seu
pae, Francisco acceitou as sopas offerecidas por seu
cunhado, mercieiro escasso de posses, e sempre in-
feliz nas empresas commerciaes. José Maria dos
Santos, como não tivesse filhos, promettia cortar
pelas precisões domesticas para formar o cunhado
na escola medico-cirurgica do Porto. Esta depen-
dência mortificava o estudante, não por Índole re-
belde á gratidão, senão que via sua irmã afadigada
no lavor da costura para auxiliar as despesas no
Porto.
Joanna era a mais doce e resignada creatura que
ainda a Providencia deparou no seio de uma fami-
lia mal-sorteada de bens d'este mundo. Seu marido
tinha quarenta e seis annos, e ella vinte e três. Não
distinguireis entre a filha extremosa e consorte des-
velada. Acariciava-o e respeitava-o como a pae. Não
sabemos que grau marcava a temperatura do seu
amor de esposa : o certo é que José Maria, golpea-
do de revezes no seu negocio, dizia que Deus o com-
pensava sem medida, premiando o com o oiro do
']6 Os brilhantes do brasileiro
coração de sua mulher, em exemplo de paciência,
suprema riquesa do pobre, moeda sagrada com que
se negoceia o céo.
Francisco adorava sua irmã ; todavia, para estar
triste, escondia-se d'ella. Joanna queria que todos agra -
decessem a Deus, quando se levantavam com saúde,
e se juntavam á volta da mesa do almoço. Se via
triste o marido ou irmão, dizia: «Sois ingratos ao
Senhor. Se um de nós adoecesse, e a doença fosse
mortal, com que saudade nos lembrariamos doestes
dias tão quietos, tão felizes ! Pensae na tristesa da
familia onde morreu um irmão ; pensae na casa on-
de ha fome e frio, e dizei-me se não é ingratidão e
peccado uma tristeza causada não sei porquê 1»
Quem primeiro revelou a Francisco o amor de
Angela foi Joanna. Acabou de lhe contar a confi-
dencia da fidalga, e disse :
— Agora, Francisco, é necessário que vás para o
Porto, embora a aula se abra em outubro. Deixa
que o tempo desfaça esta creancice de D. Angela.
Eu disse-lhe o que devia : mas ella respondeu-me
que havia de ser tua esposa, se a tu amasses. Já
viste innocencia assim ? Eu fiquei espantada a olhar
para a menina, e de repente passou-me pelo espi-
rito uma nuvem negra. Deus me livre que tu, meu
querido irmão, não podesses vencer-te, se chegas-
ses a imaginar possível casar com a filha do gene-
ral Noronha, com a sobrinha de D. Beatriz, tão so-
berba da sua fidalguia !
Francisco escutou sem assombro e sem interrom-
pel-a a extensa revelação de Joanna. Passados mo-
mentos de serena reflexão, disse :
Os brilhantes do brasileiro yj
— Eu sabia isso...; ainda assim, dás-me uma
triste novidade.
— Sabial-o ? por quem ? !
— Por mim. Tinha-m'o dito a minha alma. Eu
pensava n'ella. . . — vê que doidice I — pensava em
Angela imaginando a felicidade do homem que ella
amasse. Era uma inveja que me envergonhava, por
isso t'a não confessei. Até de mim a quizera eu es-
conder; mas o absurdo luctava com o absurdo, e
não sei quem venceu... Um dia sonhei que a viacho-
rando, e acordei a chorar. Desde este momento, senti
que adorava Angela. Isto foi ha três annos, lem-
bras-te? Fui para o Porto, e lá fiquei todo o anno.
Quando voltei e a vi, desejei morrer. Um dia en-
trou-me no coração a certesa de que era amado. . .
Por quem? perguntas tu, Joanna; e bem vejo que
estás sorrindo da vaidade do teu pobre irmão!...
Eu te digo como foi... estávamos na egreja matriz,
nas trevas de sabbado santo. Eu sabia em que tea
de altar ella tinha ajoelhado; mas entrevia-lhe es-
cassamente o vulto. Ao tanger da campainha, fez- se
a claridade súbita no templo, e vi os olhos d'ella cra-
vados nos meus, que se abaixaram respeitosos. Sa-
bes tu que delírio de piedade me assalteou? Ajoe-
lhei, quando todos se levantavam e davam boas-
festas. Ajoelhei no maior sombrio da nave... e
chorei. Aqui tens a revelação que os olhos de An-
gela ensinavam á minha alma... Que pensas tu
agora de mim ? — Proseguiu o moço, apoz longa
pausa de reconcentração. — Receias que eu appa-
reça diante de Angela com o collo erguido pela
vaidade de ser amado? Cuidarás que eu principiei
7<y Os brilhantes do brasileiro
a acastellar illus5es por esse céo além, e a descer
d'ellas para o paradoxo d'um casamento? Mal me
conheces então, Joannal Vê se me comprehendes
isto. . . Acho sempre o teu espirito aberto a certas
coisas confusas que eu digo, e não sei dizer mais
intelligivelmente. Olha, minha irmã^ eu não sei se
o estudo invelhece o coração: figura-seme que sim.
A alma não; que essa é immortal, inalterável e in-
violável á destruição do tempo. Em mim conheço
o coração atrophiado, e a alma viventissima. Como
homem d'alma adoro Angela, illumino a á luz que
radia das minhas crenças em Deus. Como homem
de coração não a sacrificaria, nem me sacrificaria.
Impulso que me arroje a querel-a ouvir dizer que
me ama não o sinto; desejo de encontrar aquella
bella imagem, no silencio do espaço em que a te-
nho visto nas minhas noites de vigília, intender os
murmúrios que ressoam o seu nome, vestil a das
aerias roupagens que sonhou a exaltada poesia do
oriente, é isso, é isso o meu amar, o meu delirar,
a minha inoffensiva vertigem, que não tem nada
que ver com o nascimento, nem com os haveres de
Angela. Não sei quem é, não conheço, não quero
conhecer a filha do general Noronha, a rica herdei-
ra, a fidalga que tem no seu paço de Gondar re-
tratos de avós que fundaram a monarchia portu-
gueza. Quem eu conheço e adoro é uma mulher
que se chama Angela, que tem no rosto uma luz
celestial, e essa luz m'a representa de geração divi-
na. AUi ha signal de origem mais alta. Eu vou bus-
car-lh'a no céo; não a procuro na fundação da mo-
narchia. Porque receias tu, então, que eu perturbe
Os brilhantes do brasileiro yg
o socego da fidalga opulenta, se eu não lhe quero
nem os brasões nem o oiro? Pôde ella dar-me a
alma sem lesar os seus pergaminhos nem declinar
o direito de succeder nos castellos dos senhores
feudaes seus avós? Pôde. Então, minha irmã, deixa
ao pobre sonhador a sua innocente felicidade, e faz
de conta que o defensor de Angela não é o anjo
da guarda, sou eu.
XI
Sonhos e esperanças
Gomo foi que a vigilância dos dois anjos-custodios
de Angela deixaram passar a primeira carta?
Denunciaremos á moral publica certa fragilidade
do estudante.
O escrever-lhe não constava do programma ; nem
isso era mister para homem que se abastava com
o ideal encontro no silencio das noites estrelladas.
E, de feito, elle não escrevia cartas á imitação
d'umas que o vulgo mais selecto escreve, e suja e
profana nas mãos incodeadas d'um aguadeiro.
Francisco, no calado da noite, voltava contempla-
tivo e vagaroso da costa maritima, ou descia dos
pinhaes cerrados d' Agra. Aquellas noites estivas da
gentilissima Vianna, que se reclina á beira-mar, sob
um pavilhão de verdura, e se remira no espelho do
seu Lima, são noites para poetas, e poetas se fa-
zem alli súbito inflammados por tantas maravilhas
da naturesa, raro cumuladas n'um só paraiso. De-
Os brilhantes do brasileiro 8j
baixo de céo tão inspirativo, e terra tão espontânea
de murmúrios, de musicas, de perfumes, de silên-
cios que se intendem e ouvem no coração, alli,
onde não se faz mister a forma para adorar a idéa,
é que o poeta de Angela adorava idéa e forma tam-
bém, apesar dos seus incorpóreos devaneamentos.
Na volta da montanha ou das ribas do mar, con-
tinuava os sonhos, á lâmpada do seu quarto, e es-
crevia-os, justamente n'um caderno com frontespi-
cio que dizia sonhos.
O mercieiro viu, uma vez, a costaneira com o
estranho titulo; abriua, leu duas linhas, fechou-a
como os philologos modernos em consciência de-
viam fechar os códices cophtas, e disse á esposa:
— Teu irmão está alli, está doido. Escreve de
dia os sonhos que tem de noite. Pobre moço !
Joanna foi ver também. Leu e intendeu muito
pela rama.
Aconteceu perguntar D. Angela á sua mestra de
bordar o que fazia o irmão, quando não lia.
— Escreve n'um grande livro em branco uma
coisa chamada Sow/ios— respondeu Joanna.
A fidalga pediu, rogou e supplicou á costureira
que Ih^os deixasse ver.
Joanna hesitou muitos dias em denunciar a sua
curiosidade a Francisco; todavia, importunada por
Angela, referiu ao irmão a sua imprudência.
Fraquesa congenial do homem ! Teve o rapaz uns
assomos de jubilo com os rogos de Angela ! Releu os
seus SonhoSy deu o manuscripto á irmã, e disse-lhe :
— Pede-lhe que rasgue esses papeis depois de
os ler.
6
82 Os brilhantes do brasileiro
Angela pairava em regiões sob-postas á do seu es-
piritual adorador. Adivinhou mais do que percebeu.
Decorou até o que não intendia.
Vem de molde o encher-se um vácuo importante
d'esta historia. A educação litteraria da filha de D.
Maria d' Antas era egual á do capellão que lh'a trans-
mittira. Escrevia com a orthographia do padre, quasi
nunca racional. Lia os livros de sua tia, que se pre-
sava de perceber a Recreação philosophica do pa-
dre Theodoro d'Almeida, e relia todos os annos o
Feli\ independente do mesmo congregado, o Relicá-
rio de Marmontel, e outros livros, cujas passagens
notáveis andavam de memoria na familia.
Que montava isto ? O amor de Deus infundiu a
máxima sciencia nos apóstolos ignorantes. O amor
do homem arrotea e enfrutece, a súbitas, o mais
maninho intendimento de mulher. Fenómenos do
amor. O divino, florejando e aromatisando marty-
res e santos, ala os amados á gloria. O humano com
seus relâmpagos que abrasam, e perfumes que em-
briagam e asphixiam, despenha-se nos recôncavos
do inferno, que n'este mundo se chama o deses-
perar.
Angela sentiu destecer-se o escuro de sua igno-
rância ao compasso da leitura nocturna que fazia dos
Sonhos. Aquelle livro não lhe ensinava historia, nem
grammatica, nem geographia, e outras coisas que
não sabidas, constituem a ignorância humana. O
que ella aprendia era o Verbo, não o verbo que se
conjuga; mas a palavra, o som que vibra, a corda
virgem, a translucidação do sentir inexpressavel, o
definir da idéa confusa, a linguagem um tanto mys-
Os brilhantes do orasileiro 83
tica d'esta religião do amor que precisa revelação
dos iniciados. Emíinn, o Verbo.
Ora, muito era para vêr-se a affoitesa com que a
menina começou desde logo a escrever em um li-
vrinho em oitavo, brochado por suas mãos, uns
pensamentos curtos e singelos, com o titulo de es-
peranças ! Mal emplumada ainda para librar-se a
remontados lirismos, Angela apenas avoejava de ar-
busto em arbusto, colhendo todas as suas imagens
das flores, como a abelha a dulcidão dos seus favos.
Quando já tinha escripto algumas laudas, pediu,
com adorável simplicidade, a Joanna que entregasse
o livrinho ao irmão, e acrescentou :
— Quando elle rasgar esse, eu rasgarei o que me
elle mandou. E diga-lhe que se elle sonha, eu espero,
Joanna satisfez o pedido com repugnância, e mor-
mento quando viu Francisco por tanta maneira ba-
nhado de consolação que lhe batiam as artérias das
fontes, collando o livrinho aos beiços.
Agora é que vae começar o pariodo epistologra-
phico d'estes amores.
Joanna, receiosa de ser solicitada para medianei-
ra em tão arriscada correspondência, evitava o en-
sejo de estar a sós com Angela, e raramente, sem
necessidade extrema, ia a casa de D. Beatriz.
Angela, doida d'este desaflecto, grangeou impru-
dentemente os serviços d'uma criada a quem entre-
gou carta fechada para Joanna. O contheudo eram
puerilidades, senão antes umas espertesas innocen-
tes. Enviava ella duas folhinhas no formato das suas
Esper ancas j e pedia que fossem reunidas ás ou-
tras. O dizer d'este supplemento era já triste e
84 Os brilhantes do brasileiro
queixoso : chamava-lhes ella aos pensamentos : Es-
peranças que fenecem. Se Francisco não estivesse
presente, a irmã esconderia os papelinhos, e iria
pedir misericordiosamente á fidalga que se esque-
cesse de seu irmão, e empregasse amor onde lhe
fosse permittido esperar felicidades.
Francisco mandou esperar a criada, e escreveu a
primeira carta. Depois, a segunda, a terceira, até á
duodécima, que era o caderno, cujo paradeiro foi
ás mãos convulsas de D. Beatriz.
Ate-se agora o fio da historia, no lance de D.
Beatriz mandar que a sobrinha se preparasse para
entrar no convento.
XII
A surpresa tolheu a reflexão.
Angela, pela primeira vez, deu ares de familia.
Contavam-se arrojos de D. Maria d* Antas, em an-
nos verdes, quando o pae lhe impunha observância
das leis do decoro, em desacertos amorosos. Sahiu-
se a filha de Simão de Noronha com um dos atre-
vimentos não communs em quanto a sociedade as-
susta, e o coração mulheril não desteme os effeitos
do escândalo.
Ouvida a ordem, ao anoitecer, entrou no seu
quarto onde se deteve até ás dez. O silencio da casa
era completo, quando ella abriu a janella mais rente
da rua, sahiu e encaminhouse a casa de Joanna.
A irmã de Francisco, que tanto o instigara a sahir
para o Porto, n*aquelle dia, estava, a essa hora,
chorando saudosa d'elle. Quando ouviu bater á por-
ta, alvoraçou-se, cuidando que o irmão desandara,
por não poder vencer se. Perguntou, conheceu a
86 Os brilhantes do brasileiro
voz tremula da fidalga, expediu um grito, e chamou
o marido.
Angela, apenas entrou, disse entre risonha e es-
pavorida :
— Fugi!
— Fugiu, santo Deus ! — exclamou Joanna — Vos-
sa excellencia fugiu, senhora D. Angela ? ! Não me
diga isso por quem é ! . .
— Fugi, deveras, pois não vê, minha amiga?
Olhe. . . ninguém veiu comigo. . . Se eu não fugis-
se, amanhã havia de entrar no convento forçosa-
mente, que assim m'o disse minha tia. . .
— E agora, minha senhora? — atalhou affligidis-
sima a irmã de Francisco.
— Agora o quê ?
— Que tenciona a menina fazer?
— Fico n'esta casa — respondeu serenamente D.
Angela, apertando nas suas a mão de Joanna.
— Mui pobre casa; mas ella aqui está, e nós para
servirmos a vossa excellencia — disse José Maria
respeitosamente.
— Mas que infelicidade, minha senhora, que in-
felicidade!— exclamava a tremula irmã do acadé-
mico, em quanto Angela relançava em volta de si
os olhos indagadores.
— Não te afflijas assim, Joanna! — disse tran-
quillo o mercieiro — maior infelicidade seria que a
fidalga não tivesse pessoas que a respeitam como
nós.
— Seu irmão? — perguntou Angela com vehe-
meneia, como se a salteasse o pensamento d'elie ter
sahido para longe.
Os brilhantes do brasileiro 8y
— Está já no Porto, minha senhora — respondeu
José Maria, visto que a mulher não respondia.
— Foi para o Porto ? ! — murmurou a filha de D.
Maria d'A/itas empallidecendo e esbugalhando os
seus brilhantes olhos negros.
— Foi, minha senhora ; pedi-lhe eu muito que
fosse — tartamudeava Joanna — cuidando que, sa-
hindo elle d'aqui, se acabavam as inquietações de
vossa excellencia e de sua tia.
Angela pendeu a face para o seio, e quedou-se
largo espaço confusa, sem attender ás sensatas obser-
vações de José Maria.
— Que ingratidão ! — murmurou ella ; e, levantan-
do-se de salto, disse : — Bem . . . não vim aqui fazer
nada; irei para o convento; irei para onde quize-
rem. Meus amigos, abram-me a porta, que eu vou
outra vez para casa ; mas digam ao senhor Gosta
que eu vim procural-o n'uma hora de muito soffri-
mento, que não o encontrei, e que sahi desenga-
nada. . .
— O' minha senhora, vossa excellencia é injusta
com o meu pobre irmão... — exclamou Joanna,
com as mãos postas, e inclinada quasi em joelhos.
N'este em meio, soaram na porta redobrados
golpes. Estremeceram todos.
José Maria foi á janella, e as duas senhoras se-
guiram-no.
— Está cá a senhora D. Angela? — perguntou
uma voz de mulher esbofada.
— E' Victorina. . . —disse a fidalga — Estou, Vi-
ctorina, estou aqui. . . Que é?
— O' minha senhora — disse a criada anciadissi-
88 Os brilhantes do brasileiro
ma — Deram fé que vossa excellencia fugiu. Sua
tia levantou-se a chamar os criados. Não tardam
ahi. . . Olhe que a levam á força, e sua tia disse ao
João Alho que se pilhasse ás mãos o sr. Francisco,
o fizesse em postas. Volte depressa, que, se elles cá
chegam a vir, ha desgraça de maior.
— Eu vou — disse atribulada Angela — eu vou ;
que não vão elles fazer-lhes mal, meus amigos.
Adeus, adeus, que nos não tornamos a ver. .. —
E, abraçando Joanna, balbuciou coberta de lagri-
mas : — Diga a seu irmão que lhe perdoo, que fez
bem em fugir, senão talvez o matassem. ..
E desceu pressurosamente as escadas.
Logo que sahiram á rua, ouviram a estropeada
de criados que eram muitos, acaudilhados pelo ca-
pellão, sujeito de má rez.
— Vamos por outro lado — disse Victorina re-
ceando o encontro.
— Não — obstou Angela — Se elles me não en-
contram, são capazes de arrombar a porta d*esta
pobre gente. Vamos direitas a elles. Se não queres
vir comigo, vae por outra banda.
— Não, minha menina, heide acompanhal-a, acon-
teça o que acontecer. . . — disse Victorina.
A poucos passos encontraram a chusma. Angela
parou. O capellão aproximou-se a reconhecel-a, e
disse severamente:
— D*onde vem vossa excellencia?
— Vou para casa — respondeu imperturbada a fi-
dalga.
— Mas d'onde vem? — insistiu o padre.
— Que lhe importa ?
Os brilhantes do brasileiro 8g
— Importa, sim, senhora — replicou elle, aper-
tando entre os dedos o marmeleiro argolado que
vergava sob a pressão d'aquellas mãos ungidas de
sacerdote de Jesus; e proseguiu: — Eu queria ver
a cara ao bandalho ; queria mandar as orelhas d'elle
de presente ao senhor general Simão de Noronha.
Angela ladeou a turba, e, trespassada de súbito
medo, seguiu caminho de casa. Os criados, imitan-
do o padre, seguiram-na de perto.
Entrou a senhora pela porta principal. D. Bea-
triz rodeada de criadas e visinhas, estava na pri-
meira sala. Angela perdeu o animo, quando avistou
do patim a multidão que^ estava dentro. Voltou-se
então muito desalentada para Victorina, e disse :
— Quem me dera morrer n*este instante ! . . .
O capellão adiantou-sc, mandando recolher os
criados. Passou avante de Angela, e disse a D. Bea-
triz:
— A sobrinha de vossa excellencia está alli. Que
ordena ?
— Abram-lhe uma porta de dentro ; que não passe
diante dos meus olhos, e que fique esta noite aqui
por caridade. Começou como Maria d' Antas ; pro-
vavelmente acabará como ella. Tal mãe, tal filha.
E, vociferando assim, sacudia umas calmandulas
de azeviche que tinha penduradas no pulso.
A gente, que a rodeava, repetiu com tom de pie-
dade :
— Tal mãe, tal filha ! . . .
E Angela escutara aquillo, amparando-se nos bra-
ços de Victorina.
E esta mulher sentia-se transida de horror, po
go
Os brilhantes do brasileiro
que só ella e Simão de Noronha sabiam que mor-
rer havia sido o de D. Maria d*Antas. Ella tinha
sido quem conduzira a Vianna a criancinha de dois
annos; e nunca o terrivel segredo lhe fora arran-
cado pelas suspeitosas indagações de Angela.
Recolhida ao seu quarto, a pávida menina rom-
peu em soluços abafados no seio da criada.
XIII
o capellão obteve de galope as licenças necessá-
rias para a clausura de Angela.
D. Beatriz recusou ver a sobrinha, que lhe man-
dou pedir licença para despedir-se.
Victorina acompanhou-a.
Quando entraram no convento, já lá corria a no-
ticia da fuga. Soror Gassilda de Noronha, irmã do
general, estava prevenida por sua irmã. Recebeu
glacialmente a sobrinha a quem aborrecia : era ódio
reflexo de D. Maria d'Antas, causa indirecta da sua
forçada reclusão. Fora o caso que Simão de Noro-
nha, resolvido a concubinar-se com a prima, remo-
veu o estorvo da irmã, induzindo-a ou constran-
gendo-a a professar, já quando não podia consagrar
ao divino esposo a virgindade do coração. Sem im-
pedimento da mortalha, Soror Gassilda desforrou-se,
bem que não sahisse da classe, e da sua ordem,
honra lhe seja; que os seus amados tinham sido
g2 Os brilhantes do brasileiro
todos frades benedictinos. Sem embargo, o ódio in-
veterado a Maria d'An<:as foi semente maldita, que
bracejou arvore, onde as aves infernaes fizeram ni-
nho. Cumpria á desditosa filha da peccadora tra-
gar-lhe os fructos.
Para dobro de desgraça, o general foi avisado da
fuga. A resposta do selvagem foi simples: «não te-
nho filha.» Queria dizer: essa mulher que se sus-
tente com o seu trabalho, ou sustente-a a caridade
publica.
E, por tanto, Angela não tinha mesada. Cassilda
dizia ás suas criadas: «dêem lhe alguma coisa, se
quizerem». E Victorina, que tinha cordoes e arre-
cadas, vendeu o seu oiro, alegrando-se de o ver
transformado no pão da sua ama.
Foi terminantemente prohibido á porteira entre-
gar carta á recolhida, sem prévio exame da abba-
dessa ; a mesma condição estipulada para carta ida
do convento.
Três dias depois, José Maria, o mercieiro cujos
haveres não chegavam a pagar o debito de um
conto de réis a D. Beatriz, foi intimado para pagar
ou nomear bens á penhora. Tinha a casa em que
vivia, e os géneros de sua loja a pagamento de pra-
so. Offereceu a casa. Penhoraram-lh'a. Os credores
confluíram. Fecharam lhe a loja. E dez dias depois
o coveiro fechou-lhe a sepultura. «Morro deshonra-
do, e deixo-te a pedir e mais teu irmão» exclamou
elle, desde que o ameaçou a congestão cerebral até
que pendeu a cabeça aos braços da esposa, e ex-
pirou.
Chegou a noticia do successo triste ao mosteiro.
Os brilhantes do brasileiro gS
D. Angela verteu acerbas lagrimas, e tomou como
sobre-carga de angustias a responsabilidade da mor-
te do mercieiro, e a desgraça da viuva e do cu-
nhado.
Francisco José da Gosta recebeu a um tempo a
noticia da fuga e reclusão de Angela, a da penhora
e fallencia, a da doença e provável morte do cu-
nhado. Partiu para Vianna. Quando chegou, Joanna
assistia de joelhos ao acto de sacramentar-se o ma-
rido. Francisco não ajoelhou. N'aquelle estacar im-
movel diante do espectáculo lúgubre, havia o que
quer que fosse peor que a condição do moribundo.
Vêl-o era comprehender as palavras plangentes
d'um escriptor celebrado : «A vida morta ficou se-
pultada no corpo vivo». *
Fechada a sepultura de José Maria, a viuva ajoe-
lhou á beira do leito do irmão.
— Não morras, que eu não tenho outro amparo !
— ihe clamava ella.
— Qual amparo ? ! — murmurou elle.
— Trabalharemos, meu irmão í Vê que sou mu-
lher, e não desespero ! Vê que dores me trespas-
sam, Francisco I e vivo, e vivo, meu querido irmão !
Lembra-te da coragem da infeliz menina ! . . . Não
sejas tu o mais fraco de tantos desgraçados, já
que. . .
— Já que foste a causa, . . completou o moço a
phrase, e rompeu em choro desfeito.
1 Padre Balthasar Telles— Chronica da Companhia de Je-
sus.
g4 Os brilhantes do brasileiro
Depois, sentou-se no leito, fincou os dedos recur-
vos na fronte, e disse :
— Pois sim : trabalharemos.
E, volvidos poucos dias, Joanna e Francisco sa-
biam para o Porto, com^quanto dinheiro possuiam : o
urgente para a alimentação de oito dias.
O estudante abandonou as aulas. Quem o sus-
tentaria ? Como congraçar o estudo com qualquer
outro emprego ? E qual emprego lhe daria pão, ex-
hauridos os cobres salvados dos últimos vestidos
teitos por sua irmã?
Joanna pedio trabalho a uma modista franceza.
Exigiram-lhe fiança. EUa disse a chorar que não co-
nhecia ninguém. Abonaram-n*a as lagrimas. Per-
mittiu a modista que a desvalida levasse as fazen-
das para um sótão da RuaEscura, onde seu irmão
tinha vivido como estudante de escassos recursos.
Francisco vendeu todos os seus livros, depois que
apartou de entre elles as Esperanças de Angela.
Comprou com o producto d'elles o catre de sua ir-
mã, que dormia sobre taboas. Dizia ella que para
quem passava as noites trabalhando e chorando todo
o leito era bom.
Os condiscipulos do académico, sabedores do in-
fortúnio do primeiro annista, cotisaram-se para lhe
accudir e salvar o anno : Francisco regeitou a es-
mola sem orgulho, dizendo : quem não pôde ser
medico, seja operário de mais humilde condição.»
Um dia oftereceram-lhe um logar de amanuense
de tabellião. Acceitou muito agradecido. Escrevia
á rasa, e ganhava trezentos réis diários. No sótão
da Rua-Escura, depois de dois mezes do trabalho
Os brilhantes do brasileiro g5
incessante, com intermittencias de lagrimas, havia
horas regulares de comer.
Eis aqui o poeta dos Sonhos, três mezes depois
que. . . sonhava.
Que despertar aquelle I Se não vale mais andar
um homem sempre acordado, e a patinhar na lama
d'este planeta para não adormecer !. . .
Entretanto, Angela de Noronha, ou d'Antas, co-
mo as tias a apellidavam para sacudirem de si o
opprobrio de tal parenta, ainda lia os Sonhos do
scismador do monte d'Agra e das ribas do mar. O
manuscripto e cartas de Francisco andavam na cai-
xa de Victorina, valendo todavia menos ás amar-
guras de Angela do que o oiro da velha, o qual (di-
gamol-o com vénia da poesia, e da prosa apocali-
ptica) tornava-se muitíssimo mais prestimosa a cai-
xa da generosa criada.
O recolhimento e conformidade da filha do ge-
neral moveram á commiseração algumas religiosas,
que se não pejaram de frequentar a sua desornada
cella, a occultas de soror Gassilda. Se alguma frei-
ra, mais desprendida de respeitos e preconceitos,
se aíFoitava a arguir de cruel a invalida consolado-
ra dos extinctos frades, Gassilda respondia que não
acceitava como sobrinha a mulher que seu irmão
não considerava filha. Esta rasão passava com fo-
ros de discreta e ajuizada.
Quem mais se compadecia de Angela era uma
criada da prelada. Assim que vagava ás lides ca-
seiras, ia com mostras de grande respeito á cella da
fidalga, e alli se esquecia a contemplai a, e a dizer
coisas muito encarecidas, fascinada de sua bellesa.
g6 Os brilhantes do brasileiro
Muitas vezes oflfereceu as suas soldadas de trinta
annos a Victorina, ás escondidas da senhora ; mas
a criada fazia milagres de economia com o producto
dos seus enfeites, auxiliado com os bordados da ama.
Rita de Barrosas — que assim se chamava a cria-
da da abbadessa — contou muito secretamente a
Victorina que sua ama tinha apanhado uma carta
muito grande, vinda do Porto para a fidalga ; por
signal, ajuntava Rita, que a senhora abbadessa, len-
do-a a outras freiras, chorava com ellas.
Com o bom propósito de não acerbar as dores de
sua ama, Victorina occultou esta confidencia. E,
quando Angela, brandamente accusava o esqueci-
mento de Francisco, a criada, conciliando a discri-
ção com a consciência, dizia :
— Deus sabe o que elle padece ! E vossa excel-
lencia sabe também que á sua mão, carta que elle
escreva, nunca chegará.
— Mas nem Joanna. . . aquella infeliz mulher. . .
— Deus sabe também se ella terá papel em que
lhe escreva... Minha querida menina, tenha com-
paixão d'elles, que são mais infelizes do que vossa
excellencia.. Disse me a Rita de Barrosas que ouvi-
ra contar misérias da pobre gente lá pelo Porto.
Olhe, minha senhora, se vossa excellencia poder
esquecer o sr. Costa, ainda pode ser que volte ás
boas graças de sua famiHa, e seu paesinho, á hora
da morte, lhe perdoe, e a deixe herdeira dos bens
livres, como todos diziam que deixava ; mas, se el-
les souberem que vossa excellencia ainda teima n'es-
tes praguejados amores, então não sei o que hade
ser da minha infeliz menina.
Os brilhantes do brasileiro gj
— O que a divina Providencia quizer. Eu não
posso esquecer-me de Joanna e de Francisco porque
fui causa da desgraça d'elles. Se Deus me desse al-
guma coisa, e meu pae me deixasse pouco que fos-
se, eu daria tudo para os remediar. Isto já não é
amor, Victorina ; é dever. Quem matou o José Ma-
ria foi a cruel vingança de minha tia. Fui eu que lhes
não deixei gosar a santa felicidade de pobres.
XIV
Yla dolorosa
Passaram dois annos, e somos chegados ao de 1840.
Alteração notável no viver de Francisco José da
Costa não ha nenhuma. E' ainda amanuense de
tabellião. Joanna continua ajrabalhar para as mo-
distas; mas, cançada e doente, rende lhe pouquís-
simo o lavor.
O viver de Angela é mais angustiado. Victorina
já vendeu tudo que valia dinheiro. A ama não tem
que vender, porque sua tia Beatriz negou-lhe algu-
mas jóias que o pae lhe havia dado, sem impedi-
mento de terem sido de D. Maria d' Antas. Os es-
crúpulos de beata não iam ao extremo de repulsa-
rem os braceletes e correntes da peccadora.
Victorina já acceita as esmolas de Rita de Barro-
sas, e as liberalidades de outras senhoras que deli-
cadamente favorecem a sobrinha de Gassiida de No-
ronha— freira opulenta, como depositaria e her-
deira m mente d'um dom abbade de benedictinos.
Os brilhantes do brasileiro gg
rolado ao inferno por intermédio d'uma hydropesia.
Angela ignorou algum tempo a sua deplorável de-
pendência. Era, comtudo, forçoso adivinhal-a, e in-
ferii-a das tristesas da criada. Animou-se para en-
trar ao fundo da sua miséria, e soube que estava
indigente.
Vencida pela desesperação, escreveu ao pae, invo-
cando a memoria de sua mãe. Péssimo expediente I
Victorina quiz dissuadil-a da invocação ; mas era-lhe
doloroso, tendo de explicar a inconveniência, contar
a uma filha a desastrada morte de Maria d'Antas.
A carta foi ; mas a resposta não veiu.
Pensava Angela em sahir do mosteiro e ir ajoe-
Ihar-se diante do pae. Constou o intento. A prela-
da, com boas palavras, lhe desfez o plano, dizen-
do-lhe que só poderia sahir com ordem de sua tia
ou do sr. arcebispo de Braga.
— Mas minha tia ou o sr. arcebispo não me dei-
xarão morrer á necessidade ? — perguntou Angela
debulhada em lagrimas.
A prelada commovida respondeu :
— A menina não hade morrer á necessidade. Por
em quanto alguém a tem soccorrido e continuará a
soccorrer. A misericórdia do Senhor é grande.
N'este tempo, aconteceu chegar ao convento a no
ticia de ter apparecido em Barrosas um brasileiro
muito rico, procurando novas de uma irmã que dei-
xara, quando, em creança, fora para a America. Ora
a irmã do brasileiro era Rita de Barrosas, criada
da abbadessa. Grande alvoroço, e alegrias, e inve-
jas no mosteiro!
Rita correu ao quarto de Angela a mostrar a car
joo Os brilhantes do brasileiro
ta do vigário da sua freguezia, avisando-a de que o
irmão iria brevemente buscai a de liteira.
Dias depois, chegou a Vianna Hermenegildo Fia-
lho \ e, dado aviso ao convento, foi procurar a irmã.
Sahiram a cumprimental-o as religiosas mais autho-
risadas^ e folgaram de o ver comer pasteis ensopa-
dos em vinho do Porto com familiar lhaneza e pro-
porções homéricas de estômago.
Ao outro dia, Rita sahiu do mosteiro, depois de
ter chorado abraçada em Angela, única pessoa, di-
zia ella, de quem levava saudades, e de quem nun-
ca se esqueceria.
Com este successo coincidiu a morte de D. Bea-
triz de Noronha. Contaram as criadas que o fan-
tasma de José Maria, auxiliado por incommodos de
bexiga, a matara, penetrando a d'um remorso dila-
cerante. E posto que a critica e a medicina presu-
mam que D. Beatriz haja succumbido a uma sisti-
te, ou qualquer outra moléstia mais ou menos gre-
ga, é certo que a velha para lograr o espectro do
mercieiro, deixou em testamento g6oitt>ooo réis para
missas por sua alma de esmola de 240. Quatro mil
missas ! O diabo que se atreva a levar alma com
tal recommendação, se é capaz l
Fallecida Beatriz, solicitou Angela novamente a
sua sahida. A prelada consultou Soror Cassilda, a
qual respondeu que não tinha que ver com a sa-
hida, assim como não tivera com.a entrada.;Sem-
pre discreta! Os frades d'esta senhora deviam de
ter sido sujeitos atticos bastantemente nos seus ra-
ciocinios. Esta madre era notável nas formas apho-
rismaticas, e quasi sempre rebatia as replicas com
Os brilhantes do brasileiro loi
argumento de dois bicos. Parece que, na convivên-
cia de varões doutos, a subtil religiosa medrava em
espirito o que os mestres iam adelgaçando na par-
te que Xavier de Maistre denomina a outra.
Rita de Barrosas, escrevendo a D. Angela, pe-
dia-Ihe que fosse estar com ella uma temporada á
bella quinta que seu irmão acabava de comprar ; e
ajuntava que, sendo necessária licença, ella se en-
carregaria de requerer e obter em Braga.
Ninguém impediu a sabida da reclusa. As freiras
cooperaram quasi todas para que não se estorvasse
á pobre senhora o intento de pedir perdão ao ge-
neral.
Eífectivamente, Angela, apesar de despresada do
pae, insistia em tentar a reconciliação apresentan-
do-se-lhe com as supplicas piedosas do costume. Se
ella medisse o seu amor filial pelo que devia espe-
rar de Simão de Noronha, poupar-se-hia a tentati-
vas vãs. Em verdade, o desapego, era reciproco. A
ficção poderia espremer lagrimas dos olhos de An-
gela aos pés do pae, que Ih as despresaria; se, to-
davia, elle podesse sobre-posse acaricial-a, os júbi-
los do perdão escassamente agitariam o coração da
filha. Seriam, bem ensaiados, filha e pae de come-
dia, quando os artistas se compenetram dos seus
papeis.
Um pensamento, nem esquisito, nem reprehen-
sivel, avassalava o animo de Angela : cogitava em
ser rica para enriquecer Francisco da Costa e ir-
mã. O amor já entrava quasi esvahido n'este cal-
culo. Figurava-se lhe que tocaria o acume da for-
tuna se conseguisse pagar cem por um dos bens
102 Os brilhantes do brasileiro
que perderam os dois irmãos, quebrado o esteio do
logista.
Ora, a riqueza d'onde lhe proviria a não ser do
general, cuja abastança engrossara com a herança
de D. Beatriz ?
Rijo era, pois, o estimulo que a fazia transpor as
balisas da dignidade. E longe de nós acoimar de
aviltamento a humilhação da filha ; se, no entanto,
o sentir filial a não impulsa, e a cobiça, fingindo ar-
rependimento, se deplora, o senhoril do acto é pou-
quissimo exemplar. Tanto assim, que Angela, des-
preoccupada do desejo de enriquecer-se para reme-
diar alheios infortúnios, certo se deixaria vencer da
fome antes de ajoelhar a um homem distincto dos
outros pelo nome insignificativo de pae.
Foi, pois, caminho de Ponte do Lima, apenas
sahiu do convento. Chegou de noite com Victorina
ao portão do palacete. Bateu, esperou largo tempo
que lhe abrissem. Annunciou-se. Mandoua entrar
um antigo criado; conduziu-a a uma sala, com duas
alcovas, dizendo-lhe :
— Vossa excellencia tem alli uma cama n'aquella
alcova, e a criada outra. Eu vou servir o chá.
— E meu pae não me consente que o veja hoje ?
— perguntou Angela.
— Seu pae, minha senhora, foi para França ha
quinze dias consultar médicos, por que tem pade-
cido muito n'estes últimos mezes. Eu já era criado
em Gondar quando vossa excellencia nasceu. A sr.*
Victorina hade lembrar se do João Pedro. Sou eu,
é este velho que aqui está. Ora eu fiquei com o
governo d'esta casa, que para isso fui chamado lá
Os brilhantes do brasileiro io3
do Paço, e intendo que a minha obrigação é rece-
ber a filha do meu amo, e dar parte para Paris que
vossa excellencia está aqui. Se o sr. general repro-
var o meu procedimento, e me despedir do seu ser-
viço, já me não prega grande peça, que eu pouco
heide viver. Até já, minha senhora. Se a sr.* Victo-
rina quizesse ajudar- me a preparar o chá, bom se-
ria, para não haver grande demora \ que eu despe-
di a cosinheira assim que o patrão sahiu, e cá me
arranjo e mais outro criado com duas brazas e um
púcaro.
Era consolador o repousar e respirar que Angela
experimentava n'aquella athmosphera de riqueza, O
seu quarto de dormir, quando, annos antes, visi-
tava o pae, era aquelle mesmo. Em quanto Victo-
rina moirejava alegremente na cosinha, a senhora
pegou d'um castiçal e andou percorrendo a casa.
Reconheceu a ante-camara de seu pae, entrou e sen-
tou se na cadeira de espaldar ante-posta á banca de
escrever. Era esta banca rodeada de escaninhos
onde se recadavam cartas. Angela reconheceu a le-
tra da defunta Beatriz n'um sobrescripto de carta
immassada com outras. Leu a primeira em que sua
tia relatava os pormenores da fuga, calumniando a
sobrinha a ponto de referir que os seus criados a
tinham arrancado dos braços do filho do sacristão.
Que seria d'aquella alma, a não se guindar do pur-
gatório alçapremada por quatro mil missas a 240
réis !
Leu a segunda, em que D. Beatriz participava es-
tar disposta a obrigar Angela, pela necessidade, a
vestir a touca de criada, para que todos soubessem
104 Os brilhantes do brasileiro
que os parentes, se o eram, (sublinhava ella) a ti-
nham abandonado como infame.
— E' impossível que meu pae me receba... —
disse entre si amargurada.
Ia retirar-se, quando reparou n'um cofre de pra-
ta que assentava sobre um bofete. Reconheceu-o,
por que tinha sido de D, Beatriz. Abriu-o. Estavam
dentro as jóias que seu pae lhe tinha dado, e so-
bre ellas um cartão com o nome impresso do ge-
neral, e por baixo, escripto do pulso d'elle, o se
guinte : Estas peças em numero de de:[ pertencem a
Angela^ filha de D. Maria d' Antas ^ já defunta. Se
eu morrer em Paris, entreguem-Was os meus testa-
menteiros. Procurem na no mosteiro de S. Bento em
Vianna, ou onde ella parar. Não tem mais que her-
dar da casa onde viveu sua mãe.
Fechou Angela o cofre e voltou profundamente
descoroçoada á sala.
Entravam os dois criados com a bandeija do chá.
A filha de Maria d' Antas tomou uma chávena, e
disse :
— Aceito a esmola, sr. João Pedro. Dirá ao sr.
general que a filha de D. Maria d* Antas aceitou esta
chávena de chá, e um leito onde passar uma noite.
— Uma noite ! — ; volveu espantado o velho — vos-
sa excellencia está em sua casa, penso eu. E, se
me não engana o coração, a fidalga não sahirá mais
da casa de seu pae.
— A'manhã.
— A'manhã I pois vossa excellencia ainda ha pou-
co parecia resolvida a ficar esperando que o sr. ge-
neral.. .
Os brilhantes do brasileiro io5
— E' verdade ; mas resolvi outro passo menos
deshonroso. A'manhã iremos para Barrosas, Victo-
rina. Aceitaremos o bem-fazer da mulher humilde.
EUa foi pobre •, será por isso mais compadecida.
— Estou ás aranhas, minha senhora ! — exclamou
João Pedro — Faça-me o favor de mudar de idéas,
e queira desculpar o meu atrevimento. A senhora
tenha prudência. Já que veiu, fique; que seu pae,
quer queira quer não, para fora de casa não a
manda. . .
— Manda — affirmou Angela com vehemencia —
Diga-me uma coisa, sr. João : nunca ouviu fallar de
mim ao sr. general ? •
— Nunca : eu não sei mentir.
— Quem suppõe vossemecê que seja herdeiro do
senhor general ?
— Os irmãos da mulher com quem elle casou
quando tinha dezeseis annos, uns homens de pé des-
calço, que nunca vieram a esta casa. Eu desconfio,
minha senhora, que seu pae está doente de cabeça,
ha coisa de quatro annos. Os médicos não atinam
com a cura por que lhe procuram a doença no pei-
to, e elle tem-na nos miolos ; salvo tal logar E' por
isso que eu desejava que elle visse aqui vossa ex-
cellencia, por que, se a visse, parece-me que atre-
maria outra vez.
— E, se elle morresse em Paris, eu seria expulsa
d'esta casa pelos homens de pé descalço, não é ver-
dade ? — perguntou Angela.
— Seria o que fosse. Eu, e mais os criados to-
dos, iriamos jurar que seu pae não regulava do jui-
zo quando fez o testamento ; e p'ra prova basta dizer
io6 Os brilhantes do brasileiro
que elle mandou trazer da capella do Paço de Gon-
dar o esqueleto da tal Josepha Salgueira com quem
foi casado, e tem-no debaixo da cama n'um caixão
de páo de alcanfora. Quel-o mais doido ao pobresi-
nho do velho ?
— Respeite-se a sua dor, embora seja um desa-
tino — disse Angela. — Então elle amou muito essa
mulher ?
— Lá isso muito. Ella morreu de afflicção, quan-
do o viu ferido em Amarante.
— Já sabia isso. Era uma sublime alma ! Conhe-
ceu-a ?
— Se conheci ! Andava ella com o rebanho das
ovelhas, quando eu era rapazola de quinze annos.
Era muito linda, isso era I
— E de minha mãe lembra-se ?
— Da senhora D. Maria d^Antas?... pois não
embro 1 Isso foi hontem ? Fui criado d'ella dez an-
nos. . . como heide eu não me lembrar?
— A Victorina diz que era muito formosa . . .
— Era vossa excellencia sem tirar nem pôr. Es-
tou a vêl-a. Só era um poucachinho mais alta ecó
rada.
— Lembra-se se ella era muito minha amiga ?
— Parece-me que sim. . .
— Por que ?
— Foi ella quem a creou : não quiz ama, como
todas as mães que tem de seu.
— Lembra-se da morte d'ella ?
João Pedro respondeu tardamente e tartamudo :
— Não me recordo bem. . . Eu estava então na
quinta de Santo Amaro... Lá é que me chegou a no-
Os brilhantes do brasileiro íoj
ticia de ter morrido a fidalga . . . E, quando voltei,
o sr. Simão de Noronha já estava fora de Por-
tugal . .
— Mas o sr. general não mandou buscar os os-
sos de minha mãe ? — perguntou Angela chorando
no sorriso.
O velho não respondeu.
— Vamos deitar, Victorina. Até amanhã, sr. João
Pedro.
— Muito bem passe a noite, fidalga.
Ao alvorejar da manhã, Angela, que vellara a
noite ao pé do leito de Victorina, foi sentar-se á
banca de seu pae, e escreveu uma breve carta, que
sobrescriptou ao general Simão de Noronha, pedin-
do-lhe que perdoasse ao seu criado a caridade de a
ter recebido, e de lhe ter dado uma cama por uma
noite, e lhe haver ainda esmolado dinheiro com
que ella e sua criada podessem chegar a outra porta
caritativa. Em seguida, chamou João Pedro ao es-
criptorio de seu pae, abriu o cofre das jóias, leu-lhe
a declaração do general, e ajuntou :
— E' quasi certo que, por morte do sr. Simão de
Noronha, me sejam entregues as jóias de minha
mãe. Sobre este penhor, peço eu a vossemecê que
me empreste uma moeda para eu poder ir d'aqui a
uma terra chamada Barrosas. Não tenho outro pe-
nhor que lhe ofFerecer.
— Pois eu tenho mais que uma moeda para dar
a vossa excellencia. Tenho cincoenta.
— Uma me basta.
— Torno a pedir-lhe que não vá, fidalga.
— Heide ir forçosamente.
io8 Os brilhantes do brasileiro
— Faça-se a sua vontade. Irei então alugar ca-
valgaduras ; e entretanto Victorina fará o almoço.
— Aqui tem esta carta: mande a a meu pae —
concluiu Angela sahindo com a face altiva e enchuta.
XV
Meio mllhío !
Ao cabo de onze léguas de jornada, encontraram
a quinta dos Choupos, residência de Rita de Bar-
rosas, que os do sitio chamavam a sr.* D. Rita bra-
sileira.
Quando apearam, Hermenegildo estava no espa-
çoso pateo vigiando os pedreiros que derruiam uma
antiga torre de architectura manuelina para construir
nos alicerces d'elia uma capoeira.
Fialho, habituado a ouvir repetidas descripções
da formosa fidalga, reconheceu Angela, apertou o
cóz das ceroulas, abotoou o colete amare lio, deu
um geito ao collarinho desengravatado, e foi ao
portão receber a hospeda, mandando chamar a
irmã.
— Faça favor de desculpar este desarranjo, mi-
nha senhora... — disse elle referindo-se ás mouras
verdes acalcanhadas, onde os pés jubilavam em ple-
no desafogo dos joanetes. — Vossa, . . vossa excel-
lencia é a sr.* D. Angela amiga cá da Rita ?
no Os brilhantes do brasileiro
— Sim, senhor. . . Como está ella ?
— Rija como um pêro. Ella ahi vem a quatro
pés!... A mulher é sua amiga como eu nunca
vi!...
— Também eu d'ella.
Rita abraçou Angela pelos joelhos, e levantou-a,
exclamando :
— Pilheia I pilhei-a ! não torna a sahir d'aqui a
sr.^ D. Angela, senão para a companhia dos anjos,
que não são tão lindos !
E com estes outros sinceros encarecimentos en-
traram nas vastas salas, onde o brasileiro tinha re-
colhido as espigas do milhão a monte, de mistura
com as cebolas, e as nozes e as castanhas.
Passado este lanço da casa, que havia sido con-
vento de ordem rica, no angulo formado pela vasta
quadra, as salas e quartos estavam decorados com
luxuoso e atrapalhado máo gosto.
— Aqui é a parte da casa que pertence á fidalga
e á nossa Victorina — disse Rita, com approvação
de Hermenegildo manifestada por um sorriso.
— Como tudo isto é bonito 1 — exclamou sincera-
mente Angela. — Uma princesa ficaria contente. . .
— A nossa princesa é vossa excelleacia — tornou
Rita.
— Princesas que as leve a breca! — interveio Fia-
lho n'um lerdo assomo de republicanismo — O que
eu quero em minha casa são pessoas amigas, que
não obrigam a tintiquetas» nem outras aquellas.
— Se me recebessem com cerimonias — accudiu
a filha do general — poucas horas estaria contente
n*este paraiso.
Os brilhantes do brasileiro iii
— Toca a saber o essencial — disse o brasileiro—
A senhora jantou ? São cinco horas,
— Não jantamos, nem temos vontade.
— Hão-de comer do que houver. Rita, carne as-
sada, fiambre, salame, e peixe frito p'ra mesa. O
café heide ir fazel-o eu. Aqui, quem quizer estar em
minha casa, hade comer e beber, passear e dormir.
Divertimentos não nos ha, a não ser alguma chu-
lata cá dos labrostes da terra. A gente aqui passa
três mezes na chácara, e depois vae em a cidade
passar oinverno, que eu tenciono lá abrir escriptorio
de consignações, e fazer dois ou três navios p'ra me
entreter, que graças a Deus não preciso, sou sol-
teiro, e os meus parentes, não fallando cá na Rita,
são os dentes, diz lá o ditado.
Hermenegildo era loquacissimo d'este feitio, e de
certo modo pittoresco na linguagem.
Angela engraçava com aquella rudesa indicativa
de bom peito de bruto. O sorriso d'ella não era
mordente, nem o lance d'olhos observador. A no-
vidade do typo, o plebeismo do dizer, a redondesa
da pessoa, a cara espirando alegria e uma saúde
oleosa, tudo isto que aceraria a satyra da mulher
d'um alfayate de Lisboa, produzia na fidalga bem
condicionada uma inoftensiva hilaridade, com a qual
o brasileiro se comprazia.
Dobaram-se dias bonançosos para Angela. Esses
seriam, por ventura, os mais quietos de sua vida,
se, a revezes, lhe não innublasse o espirito o in-
certo destino de Joanna e seu irmão.
Rita, sem ser rogada, mandara lançar inculcas
no Porto sobre descobrir se alli viviam os dois irmãos.
IJ2 Os brilhantes do brasileiro
Não colhera indicio algum. Apenas soubera que
Francisco José da Gosta começara a frequentar em
1839 o primeiro anno da escola medico cirúrgica, e
abandonara os estudos em meio do anno. Quanto
aJoanna, vcstigio nenhum levou os indagadores ao
sótão da Rua- Escura. Victorina estava sempre en-
contrando com judiciosas reflexões o cuidado que
dava a sua ama o destino da familia do mercieiro,
afim de a ir desatando de recordações prejudiciaes
a reconciliar- se com o general. N'este louvável de-
signio pedia a Rita, que, se descobrisse a paragem
de Joanna, se calasse com o segredo para affastar
novos dissabores, e a peor das calamidades, que
seria a fidalga casar com Francisco.
— Credo ! — exclamou a irmã de Hermenegildo,
dois mezes antes cosinheira da abbadessa. — Credo !
Anjo da guarda ! pois uma fidalga assim, filha d'um
general, e linda como os amores, havia de casar
com um pobretão ? ! Não me diga isso, sr.* Victo-
rina ! Esta senhora, se quizer casar, encontra ma-
rido que mede o dinheiro ás rasas, e tem quintas
e palácios, e quanto cobre a rosa do sol, e que se
pôde comprar com dinheiro. Vocemecê não me in-
tende ?
Victorina parecia não intender.
— Pois vossemecê não me intende?! — tornou
Rita aconchegando-se d'ella — Então eu lhe conto
o que se passa, e vossemecê vae ficar espantada.
Faz hoje três semanas que chegou a fidalga, não
faz?
— E' verdade.
— Pois n'este pouco tempo meu irmão ganhou
Os brilhantes do brasileiro jj3
uma tal sympathia á menina que não faz outra coi-
sa senão dizer-me que ella é muito bonita, que é
muito discreta, que é muito bem feita de corpo,
que c isto, que é aquillo, que é aquel'outro. Não taz
idéa, sr.* Victorina ! E olhe lá que eu caia em lhe
dizer os amores que ella teve com o tal Francisco !
N'essa não cae a Rita. . . Hontem era uma hora da
noite, e elle ainda estava no meu quarto a batalhar
p'ra que eu lhe dissesse se a fidalga ainda viria a gostar
d'elle. «O' mano, eu sei lá o que hade acontecer I»
dizia-lhe eu, e elle fez-me uma pena, que vossemecê
não faz idéa, quando disse muito triste : «Oxalá que
eu nunca visse esta creatura ! Nunca me senti apaixo-
nado cá do interior senão agora ! Estou d'esta eda-
de, e é a primeira vez que pegou em mim o amor
verdadeiro ! Sinto me outro homem cá por dentro.
E, se isto não muda de rumo, eu não hei de ir
longe... Tu verás que esta paixão dá comigo na
cova». Sabe vossemecê? peguei a esbaguar lagri-
mas como punhos. . .
Rita alimpou ao avental os olhos aguados, e pro-
seguiu sensibilisada :
— «O' meu querido Hermenegildo, disse-lhe eu,
tem juizo ! Tu não te deixes apaixonar por uma pes-
soa tão nobre! Verdade é que ella é pobre; mas
tem pae muito rico, sem outra filha. E a de mais:
ella terá vinte annos, se tiver; e tu já vaes nos qua-
renta e seis, por que eu sou mais velha que tu qua-
tro, e faço os cincoenta pelas cerejas.» E vae elle
levantou-se da cadeira, e sahiu pelo quarto fora
sem dizer palavra. Eu fiquei muito afíiicta, e fui-me
ter onde a elle, e comecei a dizer-lhe que não per-
114 ^5 brilhantes do brasileiro
desse a esperança, por que se tinham visto casos
mais milagrosos. Não lhe digo nada, sr * Victorina;
estive até á madrugada, e não puz olho, por que
a final meu irmão, de se affligir, começou a doer-
Ihe o fígado, e eu fui arranjar-lhe a cataplasma de
linhaça. Assim que o vi descançadinho, fui resar á
minha Senhora dos Remédios, e fiz-lhe uma pro-
messa que não digo, se ella, das duas uma, ou var-
resse da cabeça de meu irmão esta idéa, ou movesse
a fidalga a casar com elle.
Victorina ouviu sem tosquenejar a commovida
mulher. A impressão da confidencia não lhe era
irrisória nem mesmo de grandes estranhessas. A
criada, tanto ou quanto participante da luz do sé-
culo XIX, já estava á altura da idéa democrática e
nivelladora quanto a nascimentos, resalvada a pro-
funda desegualdade quanto a tfortunas». Pelo que,
a união do plebeu ricasso com a fidalga pobre não
se lhe afigurou absurda, e muito menos milagrosa y
como dizia a consternada Rita, na sua exposição.
Possuida, por tanto, d'estes sentimentos indiciati-
vos de illustração innata, Victorina respondeu d'este
modo consolativo :
— Sr.* Dona Rita...
— Não me chame Dona, Eu sou Rita de Barro-
sas, já lh'o disse um cento de vezes, e mais á sua
ama. Meu pae era lamanqueiro, torno a dizer-lhe.
Se um vestido de seda e um relógio d'oiro dá dom
a quem o não tem, em pouco está o dom, e não no
quero.
— Pois sim, seja como quizer. O que eu lhe digo
é que seu irmão não deve descorçoar. Minha ama
Os brilhantes do brasileiro Ii5
tem-me fallado d'elle com ar de amisade, e gosta
muito de ouvilo. Quem é amiga pôde ser o resto.
Deixe estar, sr.* Dona Rita. . .
— E ella a dar-lhe... — atalhou a outra — Rita,
Rita. ..
— Esquecia me. . . Deixe estar que eu heide son-
dar a minha ama.. .
— Por que olhe vocemecê — acudiu alegremente
a irmã do brasileiro — eu tenho muito medo que
meu irmão se apaixone por alguma d'estas senho-
ritas cá de Barrosas que andam a armar-lhe a re-
diosca com presentinhos de queques e ramos de
flores. O doutor das Lamellas já cá trouxe três
filhas de visita, umas espinifradas com uns grandes
pentes, a darem-me senhoria a mim, e por de traz
a escarnecerem de meu irmão. Pois quer vocemecê
saber? O doutor teve o descôco de dizer ao meu
Hermenegildo que as suas filhas eram todas muito
amigas d'elle, e que qualquer d'ellas se daria por
feliz ficando n'esta casa! salvo seja! Eu as arre-
nego! Longe vá o agouro! Meu irmão, que é finório
alli onde o vê, respondeu que estava já velhote para
casar, e que era muito doente do interior. O ho-
mem não tornou cá, nem as pelintronas das filhas,
que hão de pôr a cara onde a sr.^ D. Angela põe os
pés para serem fidalgas. E, como lhe eu ia contan-
do, meu irmão é muito doente do fígado, e diz elle
que não hade viver muito. Oxalá que se engane;
mas a mim bacoreja me que aquella moléstia de
dentro não se cura. Se elle morrer, eu já sei que
a mim me deixará alguma coisa para a minha de-
cência: mas a riquesa quasi toda vae para o Atha-
Ii6 Os brilhantes do brasileiro
nasio do Porto, que foi sócio d'elle, e são muito
amigos. Ora diga-me vocemecê: Não era melhor
que esta riquesa ficasse á sr.* D. Angelasinha? Fa-
zia-lhe mal ficar com este palácio, com esta quinta,
e com o dinheirão que o meu Hermenegildo tem
nos bancos, que pelos modos me disse o tal Atha-
nasio que era metade d'um milhão! Metade d'um
milhão, ó sr.^ Victorina! Vocemecê já viu riqueza
assim ?
— Com effeito! — disse a interlocutora com sin-
cero assombro — Metade d'um milhão! A fidalga,
ainda que ficasse herdeira do pae, não tinha tanto,
acho eu!
— Nem sombras d'isso! meio milhão acho que
n'este mundo só o tem as pessoas reaes. Quer vo-
cemecê saber outra ? Já desde que meu mano che-
gou, duas vezes os governos do Porto lhe escreve-
ram para elle ser barão. Vocemecê bem sabe que
barão é isto de ser grande e maioral do reino, e
fica-se logo fidalgo. Pois saberá que o meu irmão
não quiz até agora, por que lhe pediam cinco con-
tos pela fidalgaria, e elle ofFereceu metade. Esta-
mos a vêr se arranjará o negocio; mas, ponto é
querer a fidalga que elle seja barão, que isso manda
elle logo aos governos do Porto pagar os cinco
contos. Conte-lhe vocemecê tudo isto lá como coisa
sua. E olhe que, se o casamento se chega a fazer,
vocemecê também hade apanhar uma boa pechin-
cha. Eu cá de mim dou-lhe um cordão de vinte
moedas, e meu irmão é capaz de lhe comprar uma
casa pVá sua velhice.
— Velha estou eu, sr.* Ritinha — atalhou Victori-
Os brilhantes do brasileiro iiy
na — e, se Deus quizer, heide morrer na casa onde
viver a minha ama.
— Pois isto é um modo de fallar; que vocemecê
hade ficar sempre comnosco em quanto for viva.
Pouco depois, Angela escutava a exposição de
Rita fielmente reproduzida pela criada, tirante as
ridiculezas que a sagaz Victorina omittiu como des-
convenientes á gravidade do assumpto.
Não obstante a compostura da velha, Angela sor-
ria-se e duas vezes abafou os froixos da gargalha-
da. Finda a relação, a filha de D. Maria d' Antas
reconcentrou-se, apanhou as fontes nas mimosas
mãos e murmurou:
— Qual virá a ser o meu destino ?
Esta pergunta era o epilogo de mil confusas idéas
que se lhe embaralhavam na alma, umas sublimes,
outras baixas até ao vilissimo lodo que originaria-
mente foi costella do homem. Com a qual costella
bem podem dar-nos na cara as malfadadas a quem
frechamos de satyras, quando uns fumos iriados do
prestigio, que lhes doira a nossa poesia, se rarefa-
zem.
— Qual virá a ser o meu destino ?
Que interrogação !
E' a mulher sem parentes que a faz.
E' a mulher que conheceu a pobresa.
E o desamparo.
E o despreso dos seus.
E as injurias calumniosas, sem que Deus ou a so-
ciedade a vingassem e a illibassem.
E' a mulher que não vê aurora de melhor dia \
Ii8 Os brilhantes do brasileiro
Que um mez antes quasi esmolara o custo da
passagem d'um albergue de caridade para outro ;
Que se despenhara das canduras d*um primeiro
amor á mais rasa, á mais estranha e imprevista mi-
séria.
— Qual virá a ser o meu destino ?
Ha n'este interrogar-se uma abdicação, um alie-
nar direitos de dispor do que quer que seja aspira-
ções a felicidade.
Por que é tudo escuridade e amargara em sua
alma. Amargura, se se recorda \ escuridade, se olha
adiante.
A riquesa, que se lhe ofiferece, não é a que ella
desejava. O meio milhão d'este homem não servirá
a resgatar da pobresa a familia do homem assassi-
nado por sua tia. Más Victorina. . .
(O' costella do homem ! ó oiro que a baba da ser-
pente converteu em lamal. . .)
Mas Victorina repisará n^aquellas palavras de Ri-
ta : Ora diga-me vocemecê : Não era melhor que esta
riquesa ficasse d sr." D. Angelasinha ?
E Angela de Noronha, interrogando o silencio da
sua alma, poz os olhos lagrimosos em Victorina e
disse :
— Se tu pedisses a Deus que me levasse doeste
mundo!. . .
— Porque, minha senhora ? porque quer morrer ?
— Porque me julgam tão sem amparo que já me
aconselham o casar-me com este homem ... E, na
verdade, eu sei que sou muito, muito infeliz ! Não
tenho nada, não sei trabalhar, não tenho outras ami-
gas, senão tu, e esta mulher a quem devo benefi-
Os brilhantes do brasileiro iig
cios que me collocaram inferior a ella. . . Quem sou
eu, afinal ? Uma grande senhora que não pôde guar-
dar a independência de sua alma, á custa dos mais
rudes trabalhos. . . Até hoje, a minha puresa foi tão
somente manchada pela calumnia de minhas tias;
mas amanhã em que posição me collocará a Provi-
dencia ? Toda a gente terá direito de me considerar
ou perdida, ou no trance de me perder. .. E, de-
pois, Victorina ? Quando sahirmos d'aqui, onde ire-
mos ? Se, ao menos, meu pae me mandasse entre-
gar já as jóias de minha mãe... ainda teríamos
com que viver, e eu iria trabalhando nos borda-
dos . . .
— Os bordados. . . — murmurou Victorina.
— Sim. . .
— Os bordados, minha senhora... — tornou a
criada sorrindo amargamente — Vossa excellencia
sabe quanto eu recebia de cada bordado em que a
menina gastava as horas todas do dia e algumas da
noite ? Era conforme Uns regulavam a tostão por
dia e noite. Outros a seis vinténs. E mais diziam
que era por favor, por que tinham melhor e mais
barato. . .
Saltaram-lhe as lagrimas dos olhos.
— O' minha mãe, se tu me visses chorar!. . . —
exclamou a filha do general inclinando a face para
o seio arquejante.
XVI
Por causa do flgado
Escreveu Angela a João Pedro perguntando-lhe
se o pae respondera. Teve resposta negativa. Que
o fidalgo tivesse peorado suppunha o escudeiro por
ter lido n'uma gazeta de Lisboa que o bravo gene-
ral Noronha estava em Paris sofírendo, além de
antigos achaques, os graves incommodos de uma
ophtalmia, que o ameaçava de cegueira.
Não era já a herança que a alvoroçava. Gonten
tal-a-hia a entrega das jóias, como um soccorro im-
mediato, para poder, agradecida a hospitalidade do
brasileiro, procurar sua vida n'outras condições.
Mas até esta esperança se fechara á pobre senhora !
Na correntesa d'estes successos, aconteceu adoe-
cer de hepatite Hermenegildo Fialho. Bem pôde ser
que o amor contribuísse a sobreexcitar a inflamma-
ção chronica do fígado, entranha que se ressente
das perturbações moraes por esquisita sympathia.
Alguma rasão, pois, tinha a mortificada sr.* Rita
Os brilhantes do brasileiro 121
para attribuir a doença do irmão a pura paixão
d'alma.
A enfermidade aggravou se. Vieram as intermit-
tentes, a intumecencia da viscera, o fastio e a rápi-
da magresa, os suores nocturnos e o delirio, emfim
o estado em que a medicina capitula assustadora-
m*ente a doença.
Nos delirios, o brasileiro rosnava o nome de An-
gela, caso que fazia sempre repuchar chafarizes de
lagrimas dos olhos da irmã, ao passo que o rosto
de Angela se entristecia compassivamente.
Uma vez que o doente desagradou notavelmente
ao medico, Rita lançou-se de joelhos aos pés da hos-
peda, e clamou:
— Meu anjinho, faça um voto a Nossa Senhora
dos Remédios que hade casar com meu irmão, se
elle melhorar ! Faça, pelas chagas de Ghristo, e por
alma de sua mãesinhal
— Levante-se, sr.* Rita t — disse Angela, incli-
nando-se para erguel-a nos braços.
— Não me levanto, sem vossa excellencia pro-
metter a Nossa Senhora que hade casar com o meu
pobre Hermenegildo que morre de paixão pela se-
nhora.
— Jesus ! — balbuciou a attribulada menina.
— Então ? — instou a supplicante velha — Então,
minha senhora ! . . .
— Pois a sr.* Rita cuida que a minha promessa
salva seu irmão?! — argumentou Angela.
— Cuido, cuido, por que Nossa Senhora hade ou-
vir a promessa d'um anjo 1
— Pois... sim — gaguejou a violentada senhora.
122 Os brilhantes do brasileiro
— Casa com elle? — acudiu Rita, radiosa de es-
perança.
— Sim. . . caso. . .
Levantou-se Rita com exultaçao de mentecapta,
entrou no quarto do enfermo, e chamou-o tão es-
trondosa e vertiginosamente que o homem abriu os
olhos, as ventas, e a bocca, tudo a um tempo e me-
donhamente.
— Olha que a sr.* D. Angela fez a Nossa Senho-
ra dos Remédios a promessa de casar comtigo, se
tu melhorasses.
— Hum,,. — fez Hermenegildo, e quedou-se es-
tático a olhar para a jubilosa cara de Rita, e ella a
repetir-lhe até quarta vez a noticia.
E, ao mesmo tempo, Angela soluçava e estale-
java com os dentes vibrados por um frio nervoso.
E Victorina a fim de consolal-a e tirar-lhe a carga
da promessa, dizia-lhe :
— Não se afflija, menina, que o homem não es-
capa ! Quando vossa excellcncia casar com elle, dou
licença que me enforquem.
Voltou o medico segunda vez n'aquelle dia, e
achou o homem menos febril, e a lingua mais hú-
mida. No seguinte, a febre foi menor; e o suor da
noite quasi insensível. Ao outro dia, como o doente
já desemperrasse a lingua para dizer que a dor o
deixava respirar livremente, o medico, voltado para
Rita e Angela, declarou, com vaidade de ter res-
taurado um moribundo, que o doente estava livre
de perigo, e ia entrar em convalescença.
E, dentro em pouco, entrou a bolear-se, a arre-
dondar-se, a pelle a encher, as orelhas a enconchar-
Os brilhantes do brasileiro ia3
se com um escarlate de coralinas, o nariz a vestir-
se de tegumentos, o todo emíim do carão a luzir e
a estilar sorosidades de sangue novo que parecia
uma espumadeira de tomates.
E Angela via tudo aquillo com o falso contenta-
mento das viuvas do Malabar que assistem á dispo-
sição das achas para a fogueira que hade assal-as.
Hermenegildo esperava que a sua hospeda lhe
desse azo a fallar-se em casamento ; ella, porém,
esquivava os lanços preparados pouco engenhosa-
mente pela irmã do noivo.
Era fatal e indeclinável o cálix í
Uma vez, o brasileiro, esporeado pela mana, af-
foitou-se a perguntar a D. Angela se queria ser sua
esposa.
— Sim, senhor — balbuciou ella, rápida e laconi-
camente, como o suicida que fecha os olhos, e se
despenha, antes que a reflexão lhe pinte os horro-
res da queda.
Hermenegildo emparveceu mais que o commum
nos sujeitos da sua natureza. O sorriso que lhe en-
treabriu as queixadas parecia escancarar os alça-
pões d*aquelle peito carecido de ar, como se o ju-
bilo o afogasse.
A careta era feia ; mas amorosíssima. Havia alli
mescla de satyro cupidinoso e de amante soez. An-
gela não viu a fachada do coração que senhoreava.
Se n'aquelle instante o encarasse, bem pôde ser que
a Senhora dos Remédios fosse lograda.
Dado o dilacerante sim, a ideal amante de Fran-
cisco Costa, a maviosa scismadora das Esperanças^
entrou no seu quarto, e não pôde chorar. Sentia um
124 ^s brilhantes do brasileiro
peso de estupidez, uma sensação na cabeça, como
um capacete de lama, permitta-se a figura.
Victorina foi eminentíssima em insartar argumen
tos sobre argumentos convincentes de que Angela
havia de ser feliz, embora não amasse o marido, e
simplesmente o estimasse como homem que a le-
vantava com sua riquesa á independência, á consi-
deração publica, e ao futuro goso de se ver viuva;
«por que elle, dizia a criada, d'outro ataque vae-se
embora».
Numa tragedia d'esta ordem, como se vê, o có-
mico está sempre negaceando á gente por detraz
d'aquelle Fialho, o qual, apesar dos chacoteadores,
tinha ares de bom homem, e talvez desse de si um
marido regular, se se ajoujasse a uma fêmea da sua
espécie.
Por cortar demoras, não nos deteremos a des-
crever a bulha que a felicidade de Rita e do irmão
fazia na casa. Fialho sahiu logo para o Porto a pro-
ver-se dos aprestos para o noivado, e então com-
prou os 6:5ooíCí)Ooo réis de brilhantes, como consta
do primeiro capitulo d'esta chronica social, e cortes
de seda, e peças de veludo, e quanto lhe depara-
ram as casas francezas, e modistas escripturadas
que levou comsigo para a quinta.
No meio doesta azáfama, Angela estava como in-
sensível, e na cama, onde uma febre lenta a pros-
trara.
Victorina, exagerando o susto, já era de parecer
►que se desligasse a ama da sua palavra, e não ca-
sasse.
— Que me importa a mim?! — dizia Angela —
Os brilhantes do brasileiro J25
D'um ou d'outro modo heide acabar breve. O co-
ração já não o sinto. Não tenho saudades de nada.
Morro, sem faltar á minha palavra. Se Deus me não
der melhor vida depois, é que não ha céo.
Angela enganou-se. Ao fim de quinze dias estava
cansada de pensar na sua desgraça, e indiíFerente,
senão identificada. Estas refundições são vulgaris-
simas. E' minha opinião que as lagrimas deslaçam
e rompem os liames de certas crenças e esperan-
ças ; porém, como á vida se fazem mister outros,
opera-se uma renovação de vinculos que nos atam
a outras preoccupações. Nas Índoles feminis são
por via de regra taes renovações mais têmporas,
em rasão de operarem n'ellas as lagrimas em maior
copia. E, se me não engano, ha ahi coração de se-
nhora que pôde frutificar colheitas variadas cada
anno, duas, três e mais, consoante a rega de lagri-
mas. E uma aleivosia que o mundo ignaro lhes as-
saca de versatilidade não é mais que illusões que
se afogam e renovos que desabrocham assim que
as lagrimas se estancam.
Postas estas coisas como explicação de outras
relativas á filha do general Noronha, cumpre saber
que no dia 4 de novembro de 1841, pelas 9 horas
da manhã, contrahiram o sacramento do matrimo-
nio D. Angela de Noronha Barbosa com Hermene-
gildo Fialho.
Entre as testemunhas d'este consorcio, invejado
das damas e cavalheiros do concelho, estava aquelle
João Pedro, mordomo do general.
E* que elle tinha chegado na véspera a entregar
a D. Angela o cofre das jóias de D. Maria d' Antas,
120 Os brilhantes do brasileiro
e a mostrar uma carta, escripta desde Paris, em
que o general dizia: uSe souberes onde pára a se-
(ífthora que pernoitou n^essa casa, entrega-lhe um ca-
€ cifro de objectos de oiro e pedras que está no meu
t quarto, e cobra recibo, ^
João Pedro, informado da riquesa do noivo, an-
tes de o vêr, felicitou a filha de seu patrão; mas,
depois que o viu, coçou as farripas da calva, e dis-
se á puridade, a Victorina:
— Oh ! com dez milheiros de diabos ! . . .
— Então que é? — perguntou a criada.
— E' que, se a fidalga não fôr santa, aquelle ho-
mem hade ser. . .
E callou-se, porque adivinhou que eu tinha de
contar fidelissimamente estas passagens.
XVII
Historia dos brilhantes
Em janeiro de 1842, Hermenegildo Fialho passou
a residir no Porto em casa sua, mobilada pompo-
samente, na rua do Bispo.
Diga-se desde já, para anteparar estranhesas fu~
turas, que o brasileiro andava scismatico e a modo
de melancólico.
Não se descosia com ninguém, porque a irmã,
sua confidente, ficara a governar a quinta dos Chou-
pos. E*, todavia, fácil entrar nas cavernas d'aquelle
peito, sem embargo do enxundioso arnez.
Fialho conjectura que Angela o aborrece. Nem
um sorriso, nem uma caricia, nem uma palavra que
não seja resposta concisa e sêcca. Elle não ousa ar-
guil-a; mas, se mansamente se queixa, Angela res-
ponde com um franzir de testa e um silencio té-
trico.
Principia o arrependimento a desbastar-lhe as
opulências musculares, e o figado a dar rebates de
128 Os brilhantes do brasileiro
desordem intestinal. Recorre aos emolientes; mas
a esposa, como elle revelou ao compadre Athana-
sio, manda-lhe cingir as papas por um gallego.
Angela faz isto innocentemente. E, talvez, que^
matrimoniada com um archanjo, não pozesse mãos
em linhaça, se os archanjos podessem soffrer do fí-
gado.
Debaixo das telhas do próximo passam agonias
ridículas que não viu o dom Cleófas de Le Sage.
Victorina está sempre a procurar na cara do amo
signaes de morte. Se o vê mais amarello, ou mais
vermelho, com o nariz menos succoso, e os olhos
mais incovados, diz logo a Angela : « O homem não
tarda!» A phrase era illipticamente económica; o
não tardar era ir depressa para a sepultura.
Resolvido a viver e distrahir-se, Fialho abriu es-
criptorio na Reboleira e comprou navios. E distra-
hia-se. A bailes e theatros não ia, nem Angela os
desejava. Gomo é já notório, em substituição á mis-
sa, comprou oratório para uso da esposa. Herme-
negildo, em matéria de religião, era bestial.
Decorreram seis mezes. Angela foi mudando sa-
lutarmente para ambos. Estava afTeita. Conversava
com melhor sombra ; mas acariciava um gato para
sentir o praser nativo de suas aveludadas mãos. Her-
menegildo olhava para o lombo lusidio do bicho, e
espumava umas cóleras que engolia azedas como
vomito de digestão derrancada.
Na primavera d'este anno, o brasileiro foi á terra,
e só, para queixar-se á irmã n'estes termos:
— Ella não me tem casta de amor nenhum. Pas-
sam-se dias que não dá palavra, e noites que ador-
Os brilhantes do brasileiro i2g
mece a resar e lá fica. Este casamento foi o diabo í
Cabeçada assim nunca a deu homem de juizo ! E'
bonita, mas de que serve? E' como quem tem um
painel em casa. Se é fidalga, isso cá a mim que me
faz? Fidalga é a burra. Emfim, desde que me des-
enganei que não ha volta a dar-lhe, lancei cá os
meus cálculos, e já sei o que heide fazer.. . Nada
de me apaixonar. Mulheres que me queiram não
faltam. Eu me arranjarei como fazem todos.
A irmã deu-lhe bons conselhos, e recommendou-
Ihe paciência e juizo.
— Lembra-te, dizia ella, que a pobre menina fez
uma promessa para te salvar da morte, e casou
comtigo sem amor.
— Então não casasse.
— Eu disse-t'o, e tu disseste que o amor vinha
depois. Então espera que elle venha, meu filho.
— A'gora vem ! olha que ella está-se a fazer velha ;
e de aborrecida já nem parece a mesma. Está mais
amagraJa, e branca como a cal da parede.
— Coitadinha ! — atalhou Rita condoída.
— Coitadinho de mim !
— Mas tu estás bem gordo, Hermenegildo I
— Bem haja eu! podéra não ! Vou fazendo pela vida.
— Mas não a mortifiques, que ella é um anjo.
— Não me cantes lerias, Rita! Aquella mulher
tem lá no interior outra paixão antiga. E queira
Deus ou o diabo que ella me não pregue alguma,
que eu não sou para graças. A' primeira que me
fizer, ponho-me ao largo.
— Jesus! tu estás ahi a asnear, homem de Deus!
pois uma senhora tão boa, tão resadeira...
9
i3o Os brilhantes do brasileiro
— Ora contos, minha amiga; as que resam muito
lá sabem por que o fazem. Se ellas não teem pec-
cados, p'ra que resam ? Responde lá, se és capaz !
— Tu és hereje, Hermenegildo!
— Qual hereje! sou phelosephoy é o que eu sou.
E era.
Em quanto elle philosophava em linguagem cor-
rentia — mérito de que não se gabam muitos de seus
confrades — lances extraordinários passavam na vida
de Angela.
Estava ella á janella, em um domingo de manhã,
quando viu subir da Praça Nova uma mulher de
mantilha, que a fez estremecer vista de longe. Des-
ceu de corrida ao primeiro andar e abriu a janella
a tempo que a mulher passava defronte. Duvidou,
acreditou, hesitou, e emfim disse em voz alta á
criada que a seguira assustada:
— Será Joanna?!
A mulher, que passava, voltou o rosto rapida-
mente, deu d'olhos em Angela e estacou.
— E' ella, é ella!' — confirmou Victorina.
— Suba, sr.* Joanna! — disse a senhora agitada-
mente, correndo a recebel-a no paieo.
— O' minha senhora! — exclamou Joanna — O*
meu Deus! pois eu encontro aqui a sr.* D. Angela í
ainda torno a ver esta senhora !
Abraçaram-se enternecidas e subiram sem se de-
senlaçarem.
— Gomo ella está acabada I—disse Victorina ben-
zendo-se.
— Estou muito velha e muito doente. . . e vossa
excellencia ainda tão formosa, mas mais descoradi-
Os brilhantes do brasileiro jSi
nha ! . » . Eu vim de Vianna ha três mezes, pergun-
tei por vossa excellencia, e ninguém me soube di-
zer onde parava. E estava aqui! e eu sem o sa-
ber ! . . .
— Então tem tido muitas amarguras na sua vida ?
— perguntou Angela com os olhos afogados em la-
grimas muito fitos n'ella.
— Oh ! se tenho, minha senhora I Ha perto de
quatro annos a vivermos d'um trabalho pouco ren-
doso. . .
— A viverem. . . — atalhou Angela — então seu ir-
mão. . .
— Meu irmão está comigo, minha senhora. Nun-
ca nos desamparamos um ao outro, e Deus tem
sido misericordioso comnosco deixando-nos viver
juntos...
— Aquella morte de seu marido... — balbuciou
a sobrinha de D. Beatriz.
— Não me falle n'isso, minha senhora, que ainda
se me parte o coração, quando me lembro de o ver
cheio de vida e luctando com a desgraça para po-
der pagar á sr.* D. Beatriz, sem vender a casa ; e,
em poucos dias,- matou-o a paixão de se ver des-
honrado e . . .
— Sei tudo, sei tudo... — murmurou Angela aper-
tando-lhe as mãos — Perdoe me, sim? — continuou
ella com a voz tremente — Perdoe a quem foi a
causa de morrer seu marido. . .
— A causa, minha senhora, não foi vossa excel-
lencia; foi a má estrella que nos perseguia. Nin-
guém podia prever o que aconteceu. Tão culpada
foi a senhora, como eu, como o meu pobre Fran-
j32 Os brilhantes do brasileiro
cisco. Por causa d'elle também vossa excellcncia
padeceu muito, segundo lá ouvi dizer em Vianna a
uma criada que foi do convento. Affirmaram-me
que vossa excellencia chegara a sentir a precisão
de trabalhar. . . Quem diria!. . .
— E que tem isso? Peor seria se o meu trabalho
me não chegasse para o pão de cada dia. . . — refle-
ctiu Angela.
— Quando contei isto a meu irmão, parecia que
a luz dos olhos se lhe apagava nas lagrimas. . .
As duas senhoras referiram mutuamente a sua
historia, desde o momento em que se apartaram.
A leitora sensivel antes quer ignorar misérias que
alli se revelaram as duas amigas ; que farte triste-
sas são já sabidão pela piedade e sympathia.
Tinham decorrido três horas de pratica entre sor-
risos e lagrimas, quando Joanna se levantou e disse :
— Oeixe-me vossa excellencia ir fazer o jantar de
meu irmão.
— Espere . . . — atalhou Angela, e foi ao seu quarto.
Parou á entrada, e exclamou, como se houvesse
medo de entrar :
— Ah!
E, chamando Victorina, perguntou com afflicção :
— As jóias de minha mãe ficaram na quinta, não
ficaram ?
— Sim, minha senhora. Vossa excellencia disse-
me que as fechasse na commoda, por que eram coi-
sas antigas que já se não usavam ; até seu marido,
n*essa occasião, lembrou que o melhor era trocal-as
por enfeites modernos.
Os brilhantes do brasileiro i33
— E' verdade f . . . — recordou Angela com muita
amargura — Gomo hade ser isto ? Eu queria dal-as
a Joanna.
— Dal-as?... e se seu marido perguntasse por
ellas ?
— Respondia que as dei.
O tom severo d'esta resposta forçou a criada a
silencio.
Angela voltou á sala, apertou entre as suas as
mãos da viuva, e disse-lhe com vehemente solem-
nidade :
— A minha amiga vae jurar pela memoria de seu
marido que não dirá a seu irmão que me viu.
— Juro, minha senhora.
— E não lh'o dirá por que o vermo-nos compli-
caria o infortúnio de ambos.
— Não era preciso lembrar-m'o vosso excellencia.
— E promette-me aqui vir amanhã á mesma hora ?
— Sim, minha senhora.
— Então vá, e creia que tem aqui ao pé da mi-
nha alma de irmã a alma de seu marido. Eu heide
melhorar a sua sorte, se a senhora nunca esquecer
o seu juramento.
— Não esquecerei, sr.* D. Angela.
Sahiu Joanna ; e a esposa do brasileiro abriu um
estojo de velludo, que continha o adresse que o
marido lhe dera. Examinou as peças, procurando
uma, cujas pedras se desencravassem com menos
custo. Escolheu a pulseira, e d'ella com os bicos de
thesoura extrahiu um brilhante. Chamou Victorina,
e disse-lhe :
— Vae vender esta pedra a um ourives.
i34 Os brilhantes do brasileiro
— Vender?!... — objectou com espanto a criada.
— Sim, vender.
— Teremos novas desgraças, minha senhora?
— Não. Temos desgraças antigas a remediar. Faz
ó que te mando, Victorina, senão, vou eu.
A criada sentiu-se impellida por irresistível força.
Angela, quando mandava com império, fazia lem
brar á velha a soberba e inflexivel Maria d' Antas.
Sahiu Victorina, examinando, na rua das Flores,
as ourivesarias mais abastecidas. Entrou na loja dos
srs. Mourões, e vendeu o brilhante por 25oc5f)ooo
réis.
Voltou a tremer, medindo a gravidade do delicto
pela abundância de oiro e prata que lhe pesava de
certo modo na consciência. Entregou o dinheiro a
sua ama, e abalançou-se a fazer considerações timo-
ratas sobre o alcance de tal passo.
D. Angela rebateu os sustos de Victorina com o
seu ar de infinita alegria — raio de luz que muitos
annos havia não tinha tocado os luctos d*aquella
alma.
— As minhas jóias já elle me disse que valeriam
quatro ou cinco contos — ajuntou Angela para aliviar
dos escrúpulos a menticulosa criada — Quando elle
(elle era o marido) desse fé que eu dispozera d'estes
brilhantes, lá tem os de minha mãe para se resarcir.
— Mas o peior é se elle pergunta a quem vossa
excellencia deu o dinheiro... — contraviou a sisuda
velha.
— Se pergunta, responderei «dei-o». Verás que
sou pontual no que prometto, se chegar essa occa-
sião.
Os brilhantes do brasileiro i35
— Deus nos accuda por sua sagrada paixão e
morte ! . . . — esconjurou Victorina, e accomodou-se
para não agorentar a exultação da ama.
No dia seguinte, á hora aprasada, chegou a irmã
de Francisco Costa. Foi recíebida com grande con-
tentamento.
— A minha amiga — disse a filha do general com
a mesma gravidade do dia anterior — continua a
jurar pela memoria de seu marido que fará quanto
eu lhe disser, e não revelará a seu irmão palavra
do que se aqui passar. Jura ?
— Farei o que vossa excellencia disser, sendo
coisa que não possa acarretar-lhe desgostos.
— Não me ponha condições ; se m'as põem, tor-
na-me mais desgraçada do que eu era — disse An-
gela com transporte, perdendo por instantes a ale-
gria que lhe illuminava o rosto.
— Farei o que vossa excellencia mandar.
— Bem. Escute-me. Quero que a senhora mude
de situação, de casa, e de tudo. Quero que seu ir-
mão continue os seus estudos. Quero restituir-lhe
o que perdeu com a morte de seu marido . . .
— O' minha senhora, vossa excellencia. . .
— Deixe-me fallar. Quero que seu irmão nem em
sonhos possa conjecturar donde a minha amiga re-
cebe os recursos. Ajudeme a pensar; como hade
ser isto ? Como poderemos nós enganal-o ?
— Não sei, minha senhora . . . Meu irmão sabe que
eu nada tenho, e que os nossos parentes todos são
pobres. . .
— Eu pensei toda a noite n'isto. Inventei uma
mentira innocente. Veja se tem geito... Parece-me
i36 Os brilhantes do brasileiro
que sim... A minha querida amiga finja que uma
pessoa de Vianna, que não se declara, ficou deven-
do em consciência a seu marido certa quantia de
dinheiro, e quer restituil-a por que tem remorsos
de ter contribuido para a quebra e morte do sr.
José Maria. Comprehende ?
— Sim, minha senhora ; mas . . .
— Espere. Ouça o resto. Essa pessoa diz na carta
que irá remettendo, de tempo a tempo, a quantia
que deve, e declara que não é pequena a restitui-
ção, para que seu irmão possa sem receio de ser
interrompido por falta de meios, continuar o seu
curso. Que lhe parece ?
— Não me parece mal*, mas se meu irmão quer
entrar em averiguações. . .
— Na carta hade dizer a pessoa que das averi-
guações, se se fizerem, resulta a suspensão dos paga-
mentos porque o restituidor não se esconde de Deus,
mas quer esconder-se do mundo. Pensei em tudo.
— Mas quem hade escrever a carta ? — argumen-
tou Joanna.
— Olhem a grande diííiculdade ! Escrevo-a eu.
— Mas elle conhece a letra de vossa excellen-
lencia. . .
— Que novidade! Deixe-me acabar... escrevo-a
eu, e Victorina chama um rapaz da escola, e paga-
Ihe para que a copie ; e, depois, a carta finge-se tra-
zida por um sujeito desconhecido que a procura em
sua casa em quanto seu irmão está no escriptorio,
e lh*a entrega com este dinheiro.
E, dizendo, entregava a Joanna os 25oj5(ooo réis
cm uma saquinha.
Os brilhantes do brasileiro iSy
A irmã de Francisco hesitava em receber. An-
gela lançou-lhe a sacca ao regaço, e disse :
— Com esses modos não me deixa gosar todo o
contentamento com que Deus me está compensan-
do o martyrio de quatro annos ! Minha amiga, dei-
xe-me inteiro este goso, por quem é, por alma de
seu marido lhe rogo !
Lavada em lagrimas, Joanna inclinou-se a que-
rer beijar os pés da fidalga, que a estreitou com
transporte ao coração.
— Vá que são horas — disse Angela — guarde o
dinheiro onde seu mano o não veja. A'manhã torne
á mesma hora, que já heide cá ter a carta. Fico
muito alegre. Vou agradecer a Deus este raio de
sol. Não me acha hoje mais bonita ? mais nova ?
Olhe o que faz a felicidade ! . . . Ha quatro annos á
espera d'esta hora I . . . E' hoje a primeira vez que
vejo seu marido a sorrir para mim do outro mun-
do!.. . Não chore, que elle não quer. Vá, vá mi-
nha amiga. . .
Joanna sahiuenchugando as lagrimas, e entrou no
primeiro templo que encontrou aberto a pedir ao Se-
nhor que abençoasse a caridade da virtuosa Angela.
Sahiu-lhe bem logrado o plano á consolada se-
nhora.
Francisco José da Costa leu a carta como assom-
brado d'um caso de restituição em tempos de tanta
philosophia alumiadora dos espiritos — quando para
castigo de ladrões já não havia inferno, nem para
gloria de arrependidos céo. Contou o dinheiro, e
disse á irmã :
j38 Os brilhantes do brasileiro
— Agora, minha pobre Joanna, cessa de trabalhar.
Vae vivendo do que receberes, que eu para mim
cá me arranjarei com os três tostões da escriva-
ninha.
— Isso acabou, Francisco. Deixas-te de ser ama-
nuense de tabellião.
— Estás doida com a tua felicidade dos 25oâ^ooo
réis ! . . .
— Olha, Francisco, — tornou ella — se este di-
nheiro e o que vier te não servir, para mim é inútil.
Ou tu continuas os teus estudos, ou eu continuo
a minha costura, esperando que um dia te resolvas
a empregar o dinheiro. Escolhe. Jurote que não le-
vantarei cinco réis d'este, e do que vier, sem que
tu estejas formado. O que peço é que nie alu-
gues melhor casa e que a mobiles com mais Hm-
pesa. Peço-t'o muito por ti, e pouquíssimo por mim.
Estamos em março ; vê se consegues ainda este an-
no continuar a aula que interrompeste em fevereiro
ha quatro annos. Formate, meu querido irmão, e
serás depois o meu amparo. Então descançarei con-
fiada somente aos teus cuidados.
A lei não permittia abrir matricula extemporanea-
mente. Todavia, Francisco passou o restante do anno
recordando matérias esquecidas desde as mais ru-
dimentares das aulas preparatórias. Melhorou de
casa, comprou livros, sentiu-se renascer, abendi-
çoou muitas vezes a Providencia que suggerira no
coração de quem quer que fosse a virtude de re-
por um roubo — virtude difflcilima, digo eu, que en-
cheria o céo de santos, se os ladrões, uma bella ma-
Os brilhantes do brasileiro i3g
nhá, se combinassem para expulsar de lá os bem-
aventurados por virtudes fáceis. Roubar e restituir
depois, dizia elle, inculca uma transformação mo-
ral de tal magnitude que não se faz mister provar
com outro phenomeno a divindade da religião que
operou tal maravilha.
No primeiro capitulo d'este livro vem contado o
proseguimento da venda dos brilhantes até com-
pletar-se a formatura de Francisco Gosta, concluí-
da em 1846. A illusão do estudante nunca soffreu
quebra. A restituição orçava por i:65o?5iooo réis,
quando o cirurgião-medico, desgostoso de se vêr
sem clinica, bem que se distinguisse em prémios e
habilidade operatória, deliberou aceitar a proposta
d'um armador para ir ao Rio de Janeiro como ci-
rurgião de d'uma galera. O proponente era Herme-
negildo Fialho, sujeito que Francisco nem de nome
conhecia. Aceitou sob partido que ficaria, no Rio, se
lhe approuvesse.
Joanna, na véspera de embarcar-se o irmão, pe-
diu de joelhos a D. Angela que lhe deixasse decla-
rar a quem deviam a sua felicidade. A esposa do
brasileiro, redarguio que lhe daria máo pago, se a
denunciasse sem precisão nem utilidade, indo humi-
lhar um homem que não podia agradecer, sem des-
consolação, o beneficio da mulher que o amou.
Pelo que respeita ao viver intimo do brasileiro e
esposa, no correr doestes cinco annos, é de notar
que melhorou sobre maneira. Angela conformara-se,
ou as alegrias da beneficência vislumbravam-lhe no
rosto, mais aíFavel para o marido. Elle, por sua
parte, cumprindo o programma exposto equivoca-
1^0 Os brilhantes do brasileiro
mente á irmã n'aquella phrase eu me arranjarei^
realisou-o exuberantemente mobilando em S. Roque
da Lameira e na Cruz da Regateira duas vivendas
alegres, gaiolas d' amor, em que tinha as duas aves
colhidas a visgo de oiro nas florestas da sua Bar-
rosas, segundo elle confessara, justificando os mo-
tivos a seu hospedeiro compadre Athanasio José da
Silva.
E visto que chegamos ao ponto em que deixamos
o brasileiro roncando, ligue-se a historia, depois de
havermos afFastado da immaculada esposa as pre-
sumpções aleivosas.
XVIII
A infamada
Estava Angela escrevendo a um dos três amigos
de seu marido, rogando que a não considerassem
esposa infiel, nem diffamassem seu nome, querendo
forçal-a a entrar n'um convento, á imitação das mu-
lheres delinquentes. Promettia ella defender-se, se
seu marido a quizesse escutar, a sós, bastando-lhe
de sua innocencia o testemunho de Deus, cuja pro-
videncia, em tão apertado lance, lhe dava coragem
para encarar de rosto qualquer desgraça, menos a
de entrar no convento com a nódoa de adultera.
A carta ia ser fechada, quando se annunciou
Athanasio, com os seus amigos Pantaleão e Joa-
quim António.
O marido da Ruiva declarou que o amigo Her-
menegildo teimava em que sua mulher entrasse no
convento que lhe fosse escolhido por elles represen-
tantes de suas ordens ; e que, no caso de a senhora
se negar a obedecer a tão justo mandado, fizesse
142 Os brilhantes do brasileiro
de conta que não tinha marido, nem casa, nem for-
tuna, porque todos os teres e haveres de seu ho-
mem estavam hypothecados, vendidos e alienados,
como se provaria em juizo com documentos da
maior validade
Escutou-os Angela, e disse serenamente :
— Mandam-me por tanto sahir?
— Sim, se a senhora não quizer ir para convento.
— Não vou.
— Então, muito nos custa dizer-lhe que. ..
— Despeje a casa? — concluiu Angela.
— Sim. . ., se a senhora. . . — repetiu Athanasio
— Bem sabe que a honra d'um homem. . . Seu ma-
rido tem de dar contas á sociedade. . .
— E a Deus — ajuntou Angela.
— Isso de Deus... — resmuneou Joaquim José
António.
— Não ha ? — perguntou ella.
— Não sei se ha, nem se não ha. O que sei é que
elle não se mette cá n'estas coisas.
— Se a senhora está innocente — interveio Pan-
taleão — prove-o. Diga a quem deu i:65oírooo réis.
— A um pobre.
— Mas quem era o pobre ? Saibamos isso. . . Era
pobre honrado^
— Era.
— Como se chama ?
— Ainda que lhes diga o nome d'elle, os senho-
res não conhecem os pobres honrados ; conhecem
somente os infames ricos.
— Tenha prudência na lingua, minha senhora —
rebateu Athanasio.
Os brilhantes do brasileiro Z4S
— Desçam as escadas, que quero sahir, seus bil-
tres! — exclamou a filha de D. Maria d' Antas — Se
os gallegos da casa me obedecessem, haviam de fa-
zel-os saltar pelas janellas ; mas a casa já não é mi-
nha, e infame eu seja quando pedir um ceitil do
que ella encerra. Aqui ficam as jóias de minha mãe,
que valem quatro ou cinco contos de réis. O seu
amigo Hermenegildo que se pague do que me deu,
e, se alguns vinténs sobejarem, que compre uma
corda e que se enforque.
— Irra ! . , . que mulher ! — dizia Joaquim a Pan-
taleão, limpando o suor da testa em janeiro.
— Tem diabo no corpo! — regougou o outro.
Voltaram-lhe as costas com arremesso, e sahiram
vociferando palavras insultantes.
Depoz eiles sahiram Angela e Victorina, deixando
as portas abertas e a casa entregue aos criados,
que choravam em altos clamores.
— Vaes tão triste ? ! — perguntou Angela á criada.
— E vossa excellencia não, minha infeliz menina?
— Não! pois não vês?! O que eu não deixei
n'aquella casa foi o ouro da consciência. . .
— Sahir sem nada!... Que leva vossa excellen-
cia ahi n'esse dispensável?. . .
— E' o livro dos Sonhos do Francisco — respon-
deu ella sorrindo — Não tenho mais nada que me
recorde a minha alegre mocidade senão isto e tu !
As coisas que mais amo vão comigo.
Victorina chorou de agradecida, e participou in-
voluntariamente da alegria da senhora.
Entraram na rua do Moinho de Vento e procu-
raram um numero de casa. Subiram, e acharam-se
144 ^^ brilhantes do brasileiro
na alegre e aceiada saleta de Joanna Costa, que se
levantou a receber a fidalga com transporte e es-
panto.
— Venho pedir-lhe um canto da sua casinha í —
disse Angela risonhamente — Dê-me o quarto de
seu irmão para mim e para a minha Victorina.
— Pois que é minha senhora? que é isto?! —
exclamou Joanna.
— E' que fui expulsa: não tenho casa, nem tfor-
tuna». Veja como se cahe depressa, minha amigai
apesar d'isso, quando a queda não é vergonhosa, a
gente parece que sente as azas dos anjos a ampa-
ral-a.
Referiu Angela o successo dos brilhantes, da in-
timação para responder á authoridade, da mensa-
gem dos amigos do marido, etc. Se Joanna a inter-
rompia com o choro, a serena hospeda revelava
desgosto, e queixava-se do máo uso que ella fazia
das lagrimas.
Finda a relação, a filha do general foi tomar posse
do quarto de Francisco, quedou largo tempo a exa-
minar as mais insignificantes coisas, boliu nos li-
vros, nas gavetas, nos papeis escriptos, sorrindo a
tudo.
— O meu livrinho das Esperanças ? — perguntou
ella.
— Levouo. Costumava estar n'este sitio — res-
pondeu Joanna indigitando um logar vasio entre
dois livros.
— Pois irá para o logar d'elle o livro dos So-
nhos.
E collocou o manuscripto, examinando os dois
Os brilhantes do brasileiro 145
livros lateraes. Eram também manuscriptos, e am-
bos com o mesmo titulo: Angela.
Joanna disse, sorrindo:
— Eu nunca lhe contei que elle tinha esses li-
vros...
— Não.
— De propósito para que vossa excellencia os
não quizesse ver. . . Escreveu os nos primeiros qua-
tro annos da nossa pobresa. Passava as noites n'is-
to, depois de gastar os dias no escriptorio. Lia-me
ás vezes alguma pagina, e abraçava me se eu cho-
rava. Mas não se intristeça, minha senhora ! Já mu-
dou de semblante !
— E* felicidade ! não me lamente, minha ami-
ga!.. . Como eu quero a estes dois livros ! . . . E
era capaz de me deixar morrer sem que eu os
visse ?
— De certo ! Deus me livrasse de eu ir inquietar
vossa excellencia ! . . . Já depois que meu irmão sa-
hiu, estive aqui um dia muito doente, e pensava já
em os rasgar, se peorasse; que não fosse alguém
ler o que elle dizia de vossa excellencia. . .
— Pensemos n'outra coisa, minha amiga — tor-
nou Angela com os olhos rasos de gososas lagri-
mas — Temos em que trabalhar ?
— Não precisamos; que meu irmão deixou -me
metade dos trezentos mil réis que foi ganhar. Ape-
nas gastei duas moedas doeste dinheiro. Abra vossa
excellencia essa gaveta, que lá está o resto.
— Mas é necessário trabalhar, minha irmã. A
ociosidade é o tédio, é a doença, é o desespero.
Olhe que eu, quando me chamavam a brasileira do
10
146 Os brilhantes do brasileiro
meio milhão, em cada dia, costurava cinco horas.
E foi bom conservar os costumes adquiridos na po-
bresa do convento. A pobresa voltou; mas d'esta
vez encontra-me prevenida, e de mais a mais dis-
posta a desafial-a para que me incommode.
— E como o prazer lhe salta nos olhos ! — dizia
Joanna a contemplal-a, e a saborear o seu quinhão
d'aquella communicavel alegria.
— Não, que a minha irmã não imagina quanto
me sinto bem ! Parece que renasci ! O' Victorina,
vae ver como está isso lá de cosinha. Tenho von-
tade de jantar. Vamos jantar logo, Joanninha ?. . .
E, se seu irmão nos apparecesse agora ? Se elle me
encontrasse de posse do seu quarto e dos seus li-
vros, e a escrever as minhas novas Esperanças. . .
Esperanças! — sorriu ella accentuando a palavra —
Agora é que as esperanças de amanhã não hãode
inquietar o bem de hoje 1 Até agora o que eu es-
perava era isto . . . esta paz^ esta doçura de viver,
sem parentes, sem ninguém, senão com as pessoas
que sacrifiquei, e me querem bem, apesar de tudo,
não é verdade ?
— Mas se seu marido a vem buscar, minha se-
hora !
— Buscar-me ! eu morri, ou elle morreu. . ., não
sei bem quem foi; mas o certo é que nos não ve-
remos mais. . .
A'quella mesma hora, Hermenegildo jantava na
cevadeira de Athanasio. Escarmentado pela ceia da
véspera, não comeu empadão d'ôstras; mas fez-se
em lagosta e salmão. Depois de jantar, reuniu os
Os brilhantes do brasileiro J4j
amigos, e completou as instrucções a seguir sobre
a segura arrecadação da sua «fortuna», alienação
fraudulenta de quintas, casas e navios, tudo incon-
tinente para antecipar-se á tentativa de divorcio com
a separação do casal, a requerimento de sua mu-
lher. Ao anoitecer, metteu-se em carruagem, e foi
para S. Roque da Lameira, ou para a Cruz daRe-
gateira: não liquidamos com certesa em qual das
paragens pernoitou. O sabido é que uma das duas
frescassas moças de Barrosas o seguiu para o Por-
to, no dia seguinte por noite, e tomou as rédeas do
governo da casa do brasileiro, e achou bonitas as
cortinas do leito nupcial de Angela, quando pela
manhã um raio de sol, atravez das rendas, aureo-
lava a cabeça de Hermenegildo, contornada no
braço trigueiro d'ella.
E, quinze dias depois, o brasileiro, chorado e la-
mentado dos amigos, embarcava em um dos seus
navios, aproando ás praias de Santa Cruz, onde, di-
zia elle, ia esconder a sua vergonha, associando á
sua angustia a franduna rapagôa, Rosa Catraia, que
se lhe encostava ao coração, enjoada com o balanço
da galera !
A colónia de brasileiros portuenses longo tempo
chorou a sorte dura de Fialho. Alli, na Praça-nova
e no Jardim de S. Lazaro, se apinhavam os mago-
tes d'aquelle gentio a escoucear na honra de An-
gela. Em quanto uns diziam que ella passara a
abarregar-se com o incógnito amante, outros asse-
veravam ler exactas informações de que a tal fidalga
de Cascos-de- rolhas cedo poria em almoeda a sua
bellesa. E os homens honestos do Porto jungima-
148 Os brilhantes do brasileiro
se na maledicência com a vara de javardos que re-
toiçavam e forçavam na infâmia uns dos outros. E
sobre aquella gente chovia, e chove Deus toda casta
dej prosperidades ! E a providencia ter-lhe-ha dado
quanto tem e pôde no dia em que enviar sobre ella
uma nova chuva. . . de albardas.
XIX
Amor próprio
Recebeu Joanna a segunda carja de seu irmão. A
prosperidade aíFagavao no Rio de Janeiro. Feliz
n'uma operação de catarata, e louvado nos periódi-
cos, fez soar o seu nome nas capitães das provín-
cias, d'onde concorriam os infermos a consultal-o.
As remunerações eram liberalissimas, por maneira
que, segundo a parcimonia de sua ambição, poderia,
dizia elle, retirar- se com sobejos recursos para vi-
ver em Portugal sem clinica. Não transparecia da
carta scintilla de contentamento, senão antes muitas
e tristes saudades da irmã e do seu gabinete de me-
ditação. O periodo ultimo da carta resava assim :
«Li ha dias no Jornal do Commercio, que tinha
«chegado ao Rio o portuguez Hermenegildo Fialho,
«que é ou era o dono da barca erti que vim. Nunca
«o tinha visto ; mas intendi que devia procuralo,
«por que era d'elle o primeiro dinheiro que ganhei
«pela sciencia, e o com que te estás sustentando.
i5o Os brilhantes do brasileiro
«Tinha-se hospedado em casa do seu corresponden-
«te. Sem eu nada lhe perguntar, me disse que dei-
«xára Portugal para sempre, por causa de sérios
«desgostos que lhe dera a mulher. Ouvi-o em silen-
«cio, e tive pena do homem que me pareceu cons-
«ternado, posto que nédio e pouco azado para mo-
«ver á piedade. Mas a minha compaixão trocou-se
«em riso quando hontem o vi em Petrópolis com
«uma espaduada mulher que denunciava pertencer
«á raça forte das nossas mulheres do Minho. Eu
«ia-me desviando d'elle, pensando que o embaraça-
«va ; mas elle mesmo me chamou para me offerecer
«de almoçar com tal instancia que não pude safar-
«me. Não me atrevia a perguntar quem era a nossa
«commensal. Gomo leste o D. Quichote imaginaras
«que eu, comparando os personagens do romance
«com os do almoço, me figurei que Sancho tinha
«roubado Maritornes ao cavalleiro da triste figura.
«Realmente, Hermenegildo, como Sancho, excedeu
«a imaginativa de Cervantes.
«Em meio do almoço, o marido exilado da pa-
«tria e da esposa que o deshonrou, me disse que
«aquella mulher era o seu aconchego, e a consola-
«ção das suas maguas. Isto me fez um certo ingu-
«Iho, e fiquei depois a pensar na desmoralisação
«d'aquelles cincoenta annos. Talvez qiie a mulher
«cuide lá que o seu esposo anda por cá muito ator-
«mentado ! Gontei-te este caso por achar n'elle, não
«direi sal, mas podridão dos costumes contempora-
«neos, etc.»
Leu Angela a carta, interrompendo-se com impul-
sos de riso no derradeiro periodo.
Os brilhantes do brasileiro i5i
— E, se elle soubesse que eu era a esposa de
Sancho !. .. — exclamou ella casquinando uma argen-
tina risada — Que piedosas lagrimas não verteria o
nosso Francisco, minha irmã ! E, se não chorasse,
pôde ser que eu lhe fizesse também ingulho ! . . .
A despeito do riso, Angela doêra-se, e em secreto
sentiu Ímpetos de chorar. Não lhe pungia a ridí-
cula libertinagem do marido. Que lhe fazia isso a
ella ? O nojo não tinha já onde coubesse. A magua
era toda de amor-proprio ; era prever que Francisco
Costa, um dia, ao saber que tão grutesco homem
era o marido da mulher única do seu amor, senti-
ria despintar-se-lhe da fantasia o colorido ideal com
que a etherisava nos dois livros chamados Angela.
E, como esta magua era de espécie ruim de re-
velar-se, o callal-a foi um penetrar-se mais dos es-
pinhos de sua perdoável vaidade, e entristecer-se
a extremos de dar que soffrer á amiga e a Victorina.
Perguntava ella uma vez a Joanna :
— Seu irmão, quando soube que eu casara no
Minho, como o soube ?
— Por que um homem de Ponte lhe disse que a
filha do sr. general Noronha tinha casado muito ri-
ca, e o soubera do mordomo de seu pae. . .
— Eu vi aqui no livro d'elle, — interrompeu An-
gela— uma allusão ao meu casamento. Diz elle as-
sim. . . (E abriu o livro, onde tinha a lauda dobrada,
e leu :) Que pena terás de ti própria, Angela, quan-
do não sentires o calor da tua alma ftas formas tão
bellas, tão vestidas de celestial lu:{, conspurcadas
no sevo da brutal cupide:^ do argentarioL .. Sabe,
minha amiga, o sentido d'estas palavras?
j52 Os brilhantes do brasileiro
— Sei, minha senhora. E' por que o mordomo
de seu pae tinha visto, não sei onde, seu marido, e
dissera ao outro que nunca vira coisa mais feia.
— E seu irmão despresou-me por isso ?
— Leia vossa excellencia a continuação do livro
e verá que elle não a despresou : amou-a sempre
com a mesma elevação espiritual do tempo em que
elle dizia, e eu mal o percebia: Como homem acal-
ma adoro Angela^ illumino-a d lu^ que radia das
minhas crenças em ^eus. Quantas vezes cu lhe di-
zia : — Porque não amas outra ? — E elle respondia-
me: «Não se aviltam certas almas quando mesmo
queiram envilecer-se. . . »
— Isto está aqui escripto — apontou Angela, e
continuou lendo : Entre ti e Deus poderá existir ou-
tro elo, minha querida amiga; mas eu não o conhe-
ço. Se um dia o conhecer, então esquece?^- te hei, O
homem, que te chama sua, é apenas a lama que se
apegou ao brilhante cahido jio tremedal. Eu serei
sempre, na tua memoria, o aro de ferro onde real^
caria o teu brilho. A sociedade enxovalhou te, im-
pelliu'te a golpes da miséria d degradação dos cor-
pos escravos do ouro; mas eu sei que a tua alma se
pae alçando mais para a sua origem purificada por
agonias superiores ds minhas, A mim resta-me a in-
dependência para chorar; e tu não tejis sequer esse
desafogo, minha pobre Angela! Eu sou mais feli^y
e não queria sel-o . . .
Estas leituras e os commcntos de Joanna des-
pontaram as puas do amor-proprio. A satisfação
renasceu.
Os brilhantes do brasileiro i53
N'este tempo, noticiaram as gazetas portuenses
que o general Noronha, voltara de novo a Paris, e
recolhera a Portugal sem esperanças de cura, sendo
um dos seus flagelladores padecimentos uma quasi
cegueira, que lhe tornava horrorosa a existência no
seu solitário palacete de Ponte.
Angela sentiu-se transida de compaixão de seu
pae, que ella tinha conhecido onze annos antes
ainda vigoroso posto que encanecido. Escreveu-lhe.
De sua vida nada lhe contava. Offerecia-lhe p seu
braço para amparo, os seus olhos para ver por
elles, o seu coração de filha para urna das lagrimas
espremidas pela saudade e memorias dos seus aíFe-
ctos de moço feliz, com todas as alegrias do mundo
a cortejal-o. O general ouviu ler a carta ao seu
mordomo, e disse:
— Cuidei que era morta... Morta está de certo...
E não respondeu.
Aquella carta redobrou-lhe o tormento da memo-
ria ao ancião. Maria d' Antas relampagueava-lhe a
miúdo diante dos olhos d'alma; e elle circumvagava
os do rosto para affastar a imagem formidável com
a diversão d'outras; mas. . . não via ! Apenas tinha
olhos para chorar.
— Por que não chama vossa excellencia para si
sua filha? — dizia-lhe um dia o mordomo, com a li-
berdade de quarenta annos de servo.
— E quem te disse que ella é minha filha?
O mordomo callava-se.
— Quem te disse que ella era minha filha?— in-
sistia o general esbugalhando os olhos cinzentos e
nubelosos.
i54 Os brilhantes do brasileiro
— Pensei, senhor...
— Parece-se comigo?
— Não senhor, é o rosto de sua mãe.
— Muito parecido? Já me não recordo de An-
gela...
— Tal qual. Quando aqui esteve, ha sete annos,
era como a fidalga d' Antas quando. . . morreu.
— Vae-te. . . deixa-me. . .—rugia o cego, gesticu-
lando vertiginosamente.
XX
o doente e o doutor
Em fins de 1848 prefazia dois annos e meio que
Francisco José da Gosta demorava no Rio, gosando
os proventos de seus muito trabalho e créditos. As
remessas de dinheiro feitas á irmã denunciavam o
propósito de voltar proximamente á pátria. Uma
instante recommendação fazia elle: era a compra
da casinha de Vianna que Francisco ainda via lu-
zente e doirada das illusões de sua mocidade. TaU
vei que ali vá acabar os meus dias — escrevia elle —
Tenho posses para mais; no entanto as minhas es-
peranças não vão mais longe ; e as tuas^ pobre Joan-
na^ são ver-me resignado na tristeza.
Era, pois, em novembro de 1848.
O doutor Costa, como no Rio o honorificavam,
foi chamado para visitar um enfermo já seu conhe-
cido e de muita consideração.
Era Hermenegildo Fialho de Barrosas — o roliço
devasso que elle não tornara a ver desde o almoço
de Petrópolis.
i56 Os brilhantes do brasileiro
Encontrou-o doente do fígado ; desconfiou da en-
fermidade n'aquelle clima, e no afogo do verão.
O acerto do tratamento, desfez os mais graves
symptomas ; receava, não obstante o facultativo que
o doente recahisse por demasias de gulodice em
que a enfermeira se mostrava complacente amiga,
e lambaz quinhoeira.
Hermenegildo não dispensava duas visitas diá-
rias, pagando-as com generosidade, porque, dizia
elle :
— Sou muito rico, conto mais de duzentos con-
tos, e não tenho herdeiros. Tinha uma irmã, que já
morreu ha três mezes, com paixão de me ver sa-
hir de Portugal para nunca mais. Não poupe o meu
dinheiro, sr. Costa ; e de cada vez que vier conte
com uma nota de cem mil réis. O que eu quero é
saúde para gastar o que tenho; que já não sou ca-
paz d'isso.
— Então vossa senhoria não teve filhos de sua
senhora ? — perguntou o doutor.
— Nada, não tive, nem tenho de ninguém. Não
sou de casta.
— Mas sua senhora, se não houve divorcio nem
escriptura especial, deve partilhar da sua herança,
penso cu.
— .Isso é cá uma historia que eu contarei ao meu
amigo doutor Gosta. Minha mulher... minha ou lá
do diabo de quem é, não hade receber uma pataca,
se eu for adiante d'ella. Quando me apartei, desfiz-
me de tudo ; isto é, dispuz a minha fortuna de geito
e com taes artes que ella não acha coisa a que dei-
te as unhas.
Os brilhantes do brasileiro j5y
— E tem ella recursos de que viva, depois que
vossa senhoria a deixou ?
— Não sei, nem quero saber. Dizem que o pae
é rico ; mas elle faz tanto caso d'ella como eu.
— Desculpe-me fazer-lhe uma pergunta :
— Pergunte o que quizer •, que eu já não me im-
porto fallar n'isto. Deitei o coração ao largo, e, co-
mo o outro que diz, leve o diabo paixões e mais
quem com ellas medra. Gosto do cavaco. Que que-
ria o sr. doutor saber ?
— Se teve rasÕes para privar inteiramente de re-
cursos sua senhora. A's vezes acontece um homem,
na sua posição de atraiçoado pela esposa, cavar
mais fundos abysmos á sua honra, atirando a cul-
pada ao meio da sociedade, como quem diz: «ahi
vae uma mulher que eu podia salvar da extrema
miséria. . . Levem-n'a á ultima paragem do vicio !»
— Não que eu quiz salval-a — acudiu o doente —
mas ella não quiz. Dava-lhe que comer n'um con-
vento, e a doida sahiu pela porta fora, descompon-
do os meus amigos.
— E foi viver com o amante, ou esse mesmo a
abandonou ?
— Isso não sei. Eu o amante não lh'o conheci, nem
sei quem fosse.
— Não sabe ? ! então com que provas se julgou
trahido ?'. . . Desculpe. . .
— As provas foi ella gastar dinheiro grosso sem
dizer no que : disse que o dera, e acabou-se. Pois
a quem dava ella o dinheiro ?
— Era velha sua mulher ?
— Nada : era uma rapariga bonita, bonita d'uma
i58 Os brilhantes do brasileiro
vez. Não tinha de seu; apaixonei-me pelo palmo da
cara, e casei. Vossa senhoria, que é do Porto, nun-
ca ouviu nomear um general chamado Noronha ?
— Noronha ? í — exclamou Francisco José da Cos-
ta, cravando os olhos pávidos no brasileiro.
— Sim, um general Noronha que vivia em Ponte
do Lima. . . Minha mulher era filha d'elle. . .
— Como se chama essa senhora ? — interrompeu
o facultativo respirando difficilmente.
— Angela.
Francisco Costa, espaço de três minutos, ficou
n'um espasmo e torpor de pensamento e acção. Aos
olhos do brasileiro aquelle ar espantado significava
estar o doutor recordando-se de ter conhecido o ge-
neral ou a filha.
— Talvez que o sr. doutor visse alguma vez mi-
nha mulher no Porto. . . — proseguio Hermenegil-
do— eu morava na rua do Bispo, n'uma casa de
azulejo de quatro andares... Vossa senhoria está
incommodado I — disse o doente, notando extraor-
dinária mudança no rosto do medico — Parece que
está a infiar ! . . .
— Não, senhor. Estou bom... estava a ouvil-o,
e a lembrar-me. . . que não me é estranho o nome
do general e da filha. . . D'onde era sua senhca ?
— De Vianna, cuido eu.
— Mas eu tinha ouvido contar que uma filha do
general Noronha casara na provincia do Minho...
— Foi comigo ; eu estava então na minha quinta
dos Choupos. Lá é que foi dar a tal senhora por-
que era amiga de minha irmã, que tinha estado no
mesmo convento com ella, e eu fiz a grande bur-
Os brilhantes do brasileiro i5g
ricada de casar, sem pedir informações a ninguém.
— E depois mudaram para o Porto ? em que an-
no ?
— Em 1840.
— E foi no Porto que o sr. Fialho teve rasÕes
para suspeitar da lealdade de sua senhora ?
— Sim, senhor.
— Mas já me disse que não conhecia o amante,
nem tinha a certesa de que ella o tivesse...
— Lá conhecel-o, não conheci ; mas a quem dava
ella o dinheiro? A minha casa não ia homem de
suspeita. Ella não se visitava com fôlego vivo. Mu-
lheres d'estas de mexericos não me punham lá o
pé das escadas acima, a não ser a costureira de lon-
ge a longe. Não sei ; o que sei é que descobri que
ella vendia os brilhantes d'uma pulseira que lhe dei,
e distribuia o dinheiro.
— Quantia grande ?
— Que eu saiba i:65o55iooo réis. Não era pelo di-
nheiro, que isto cá a mim não me fazia mossa; a
minha questão era saber a quem deu ella este ca-
pital. Isso é que nem Deus nem o diabo foram ca-
pazes de lhe tirar do bucho.
Deteve se Francisco a pensar n'aquella quantia
de dinheiro confrontando-a com outra que recebera
durante o tempo da sua formatura. O homem tinha
momentos de cuidar-se allucinado ou adormecido.
A's vezes, a anciã com que perguntava e o alvoroço
com que ouvia as respostas, inclinavam-no sobre a
cara do enfermo, que tinha rasão de se espantar da
torva inquietação do doutor.
— Queira dizer-me. . . — voltou Francisco e sus-
i6o Os brilhantes do brasileiro
teve-se embaraçado com a torrente de perguntas
que lhe sossobravam o espirito.
— O quê? — perguntou Hermenegildo, que pare-
cia folgar n'estas confidencias com o seu medico.
— Já me disse que a sua casa ia apenas uma cos-
tureira. . .
— E' verdade. . .
— 'E essa costureira . . .
Susteve-se outra vez o interrogador, receando de-
masiar-se em averiguações que deviam parecer des-
necessárias ao marido de Angela.
— Da costureira não desconfiava eu, nem me im-
portava que ella lá fosse; mas olhe que não deixei
de indagar da vida d'ella.
— E soube alguma coisa ?
— Soube que era uma viuva honrada e que vivia
com um irmão. Chamava-se ella Joanna, e por si-
gnal que não era má fatia! — accrescentou elle pis-
cando o olho direito e tregeitando uma careta de
sybarita.
O facultativo callava-se a intervallos grandes. Dir-
se-hia que o nojo crescendo, subindo, impolando-se
do peito acima lhe impedia a falia.
De súbito, perguntou com a fronte avincada :
— E para onde foi a sr.* D. Angela ?
— Não sei: os meus amigos ainda a viram sahir
com a criada pela rua acima, tomar para o largo do
Laranjal, e não souberam mais nada. Eu, passadas
duas semanas, fiz-me de vela para aqui.
— Mas não pôde o sr. Fialho conjecturar onde
ella iria ter ?
— Quem sabe lá ? I
Os brilhantes do brasileiro 16 1
— Ella sahiu sem dinheiro ?
— Acho que sim. Não me faltou nada de casa.
Tinha lá umas jóias, que eram da mãe, e deixou-as.
— Então sahiu em circumstancias de pedir es-
mola ?
— Esmola ? . . . acho que não . . .
— Por que acha que não?... Uma senhora po-
bre, educada como fidalga, não exercitada em qual-
quer trabalho, de repente privada de meios, e indi-
gente, que faria ?
— Não sei. . . lá se avenha. . .
— Supponha o sr. Fialho que D. Angela de No-
ronha, em vez de trabalhar, porque não sabia, e em
vez de mendigar, porque não podia, começou a ven-
der-se porque era bonita ! . . . Se assim aconte-
cesse. . .
Demorou-se, instantes, suíFocado Francisco, e re-
petiu :
— Se assim acontecesse. . . ^
— O senhor parece que está a lagrimejar ? I
— Estou, não ha duvida. . . por que me compa-
deço d'essa pobre senhora. . .
— Compadece ?. . . Então acha que é bonito uma
mulher deshonrar um homem de bem ?
— Quem é o homem de bem ?
— Sou eu . . .
— O sr. Fialho ? I
— Então vossa senhoria duvida ? !
— Não duvido. Tenho • a certesa de que o se-
nhor é . . .
A cadeira de Francisco Costa tremia em vibra-
ções. Ao brasileiro augmentou-se-lhe o espanto,
102 Os brilhantes do brasileiro
quando viu o doutor erguer-se de salto e lançar
mão do chapéo.
— Vae-se embora, doutor ? ! . . . O senhor não vae
bom l . . . Que é lá isso ? venha cá !
— Lembrei-me que tenho doentes, e a hora de
os visitar já passou, mas volto logo — respondeu o
medico, examinando o relógio, sem ver a hora.
— Nada... vossa senhoria sabe alguma coisa de
minha mulher. . . Aqui ha historia. . .
— Sei! — disse Francisco Costa, encarandoo de
lado quando se retirava — Sei que D. Angela, até
ao momento em que o senhor a expulsou de casa,
foi pura e honrada esposa.
— Venha cá ! como sabe isso ? ! — bradou Fialho
sentando-se no leito.
O medico tinha sabido.
— Aqui ha mandinga, por mais que me digam !
monologava o brasileiro, apalpando ao mesmo tem-
po o fígado congestionado — Quem diabo disse a este
sujeito que a minha mulher estava honrada ? E' o
primeiro homem que me diz isto 1 . . . Quero saber
este negocio como é ! A' tarde vou mandai o cha-
mar. Se elle poder provar que Angela estava in-
nocente, mando-a procurar, e dou lhe uma boa me-
sada, e a quinta dos Choupos. Mas onde estará ella
a esta hora ! . . .
Meditou uma curta pausa, e acrescentou :
— Ora bolas! qual pura nem qual cabaça !.. .
Se ella estivesse innocente, ia pela porta fora ?!...
Hermenegildo sentia-se bem disposto para jantar;
mas a gallinha injoava-o já. Pediu a Rosa Catraia
que lhe levasse do seu jantar. Comeu uma farta ga-
Os brilhantes do brasileiro i63
mellada de carne secca com feijão preto, bebeu á
proporção vinho de Bordéus, adoçou os bócios com
uma tigella de maracujá, e estendeu-se no flácido
colchão para sestear.
Pouco depois rugia, apanhando os refegos do es-
tômago que latejava, e contorcendo se sobre o fí-
gado. Era uma cólica.
Sahiram os criados a procurar o doutor Gosta.
Encontraram- no, caminho já da casa de Hermene-
gildo Fialho.
— Estou a morrer, se me não accode ! — excla-
mou o doente escabujando nos braços de Rosa Ca-
traia.
O doutor receitou, ouvida a exposição da enfer-
meira. Um vomitório enérgico arrancou das caver-
nas d'aquella sentina a morte involta em ondas de
feijão preto.
Estava desafrontado, mas ardentemente febril.
O doutor examinou attento se as faculdades in-
tellectivas do doente estavam de leve alteradas pe-
lo accesso febril. Aprasivelmente reconheceu a sa-
nidade do espirito do homem, que lhe dizia com
voz roufenha :
— Sempre vossa senhoria é um grande cirurgião!
Palavra de honra, que eu estava a espichar d'esta !
Francisco Costa disse á concubina que sahisse do
quarto, e sentou-se á cabeceira do doente.
— Parece-lhe que estou peor, doutor? — disse as-
sustado o brasileiro, traduzindo funestamente o as-
peito severo e pensativo de Francisco.
— Não, senhor. Está melhor. Poderá o sr. Her-
menegildo ler um papel que eu aqui tenho ?
164 Os brilhantes do brasileiro
-— Lêr um papel ? ! que papel é esse ? Posso lêr
perfeitamente.
— Leia.
Fialho recebeu uma meia folha de papel sellado,
que continha o seguinte :
Declaro ew abaixo assignado Hermenegildo Fia-
lho Barrosas, negociante que fui no Porto, e actual-
mente morador no Rio de Janeiro, que recebi do ci*
rurgião Francisco José da Costa, residente na mes-
ma cidade, a quantia de um conto, seiscentos e cin-
coenta mil réis, fortes, que minha mulher 7). Angela
de Noronha tinha emprestado a Joanna Costa, irmã
do dito cirurgião, e costureira residente no Porto^
afim de com esta quantia, recebida em diversas par-
celtas, o referido cirurgião poder continuar e com-
pletar a sua habilitação para curar, E, como isto
é verdade, pedi ao dito Francisco José da Costa que
este fizesse para eu assignar na presença de três
testemunhas que são . . .
Aqui terminava a leitura.
Hermenegildo sentara-se espantado no leito, ao
passo que Francisco tirava d'uma carteira um mas-
so de notas, e lhe dizia serenamente :
— Torne a lêr, se quizer, sr. Fialho ; mas não me
faça perguntas ; por que tudo que tenho a respon-
der-lhe está ahi. Eu sou o irmão da viuva honrada
que ia a sua casa. Fui um moço pobre que a sr.*
D. Angela conheceu bom e digno de ser estimado
na mocidade de ambos. Recebi d'essa virtuosa se-
nhora a esmola da minha formatura, ignorando a
quem a devia. Agora posso pagal-a \ e a vossa se-
nhoria, que diz ter sido roubado por sua esposa, é
Os brilhantes do brasileiro i65
a quem de direito me cumpre pagar. Falta a indi-
cação das testemunhas. Permitta-me que eu chame
três dos seus visinhos aos quaes o sr. Fialho lerá
esta quitação, e perante os quaes me fará a mercê
de assignar, contada a quantia que deixo para ser
examinada.
— Mas explique-me isto! — bradava o enfermo.
— Está explicado, senhor !
— Então minha mulher estava innocente ? por que
o não disse ella ? por que não contou ella a histo-
ria que o doutor me contou agora ?
— Não sei. Confiaria pouco na sua generosidade,
senhor. Seria surprehendida de modo que não po-
desse justificar-se. Emfim, não sei, nem posso de-
morar-me. Vou chamar as testemunhas.
— Mas eu não quero este dinheiro! — clamou
Hermenegildo.
— Rasgue as notas depois de ter assignado o re-
cibo.
E desceu precipitadamente as escadas, subindo-as
logo com as três testemunhas.
Fialho não pôde lêr a quitação, de inquieta e af-
flicta que se lhe espojava a alma, como inojada do
corpo. Gosta pediu a uma das testemunhas que lesse
e a outra que contasse as notas. Depois, chegou a
penna ao doente que assignou com a mão convulsa.
As testemunhas sahiram.
— Se vê que eu morro — tartamudeou Hermene-
gildo — diga-m'o, que quero fazer testamento, e dei-
xar alguma coisa a minha mulher, se ella ainda for
viva.
i66 Os brilhantes do brasileiro
— Não sei se morre, sr. Fialho. Angela de Noro-
nha, se vive, não acceitará a sua herança. . .
— Por quê ? então não hade acceitar ? . . .
— Angela de Noronha, se viver, terá metade do
meu pão. O que D. Angela acceitaria de seu mari-
do está aqui. . . E' este papel que a salvará da in-
fâmia que o senhor lhe associou á pobresa, para que
o mundo nem misericórdia houvesse d'ella. Se a in-
feliz tiver cahido á ultima deshonra, sr. Fialho, em
tal caso eu irei ainda procural-a de abysmo em abys-
mo, e dizer-lhe que fiz o que pude em desafifronta
do seu nome. Adeus.
Francisco Costa sahiu enchugando as lagrimas.
A cara de Hermenegildo apenas ressumava o
suor mal enchuto das agonias da cólica, sobre a
amarellidão nauseabunda da icterícia.
XXÍ
Morre Hermenegildo
— Esta é de cabo de esquadrai — dizia elle, ho-
ras depois, aos amigos que o confortavam — E quem
deu direito a minha mulher de emprestar sem mi-
nha ordem i:65oí5í)0oo réis ao irmão da costureira?
Que me importa a mim que élle fosse boa pessoa
ou que fosse um pandilha sem beira nem leira?
— Você tem rasão — dizialhe um primo carnal
de Athanasio — Lá pr'o caso de sua mulher andar
mal, andou; e, se era honrada, não o parecia. Por
exemplo, eu vou em casa da mulher ci'uni sujeito,
e peço-lhe dinheiro. Ella m*o empresta, e se escon-
de do marido ; que heide dizer eu ? Sim, tem rasão
você de não dar a orelha, sr. Fialho.
Estas clausulas pareceram irrespondiveis ao doen-
te. E, de feito, a natureza tinha esclarecido esta fa-
mília dos Athanasios com grandes lumes de rasão
natural.
Por feição que Hermenegildo ratificou não só os
j68 Os brilhantes do brasileiro
seus anteriores juízos sobre os irregulares costu-
mes de Angela ; mas também introu-se da descon-
fiança de ter apanhado, quando menos o esperava,
o amante d'ella. Quer-nos parecer que aquella per-
versíssima alma raciocinasse actuada por influencias
de fígado e outras entranhas que principiavam a
engorgitar-se.
O restante do dia passouo pouco febril, e por
isso mesmo com certa energia de espirito que des-
tampava em esfusiadas de protervias contra a es-
posa, sem resalvar a probidade do cirurgião.
De noite exasperaram-se-lhe as dores hepáticas,
as afflicções do estômago, a dyspnea, e o queimar
de febre. Ao romper do dia, pediu a brados que
lhe chamassem o doutor Gosta.
Informou-se Francisco com o portador sobre o
estado do doente, e despediu-o.
D'ahi a pouco, outro notável medico enviado por
Francisco Costa, desculpando o collega, offerecia
os seus serviços.
A doença progrediu sem intermittencias de re-
pouso nos cinco dias seguintes.
Hermenegildo pegou a dar gritos que o doutor
o mandara envenenar na tisana da quina. Os médi-
cos, chamados um de pós outro, iam cedendo o
passo ao ultimo, indignados da aleivosia com que
o estúpido enfermo calumniava o illustre caracter
de Francisco Costa e o do seu substituto.
A doença entrou no decimo quarto dia, com mor-
taes symptomas. Aquella massa reagia com phre-
nesi ao esphacellar da morte. O gemer d'um doente
vulgar era em Hermenegildo um rugir ferocíssimo.
Os brilhantes do brasileiro i6g
Rosa Catraia ganhou-lhe medo, e fugia da beira do
leito receiosa de que o legado do moribundo fosse
algum d'aquelles murros que fendiam o espaldar
do leito. Recolhida em sua dor, a choruda alvéola
das ribeiras de Barrosas começou a cobrir com as
azas os brilhantes e notas que se lhe depararam na
sua irrequieta angustia. N'estes trances foi-lhe gran-
de auxiliar um criado da casa, parente em quarto
gráo do patrão, rapazola de espáduas anchas, que
promettia rehabilitar os créditos de Rosa por meio
d'um decente matrimonio, logo que seu patrão e
primo «desse a casca» phrase lyrica e pittoresca da
Catraia.
Assim, pois, que o ultimo assistente declarou
perdidas as esperanças de cura, o primo de Atha-
nasio começou de arrebandar os livros e papeis do
moribundo — cuidado que lhe tinha sido sobre modo
recommendado do Porto, logo que Hermenegildo
adoecesse gravemente. Notou o arrecadador dos li-
vros commerciaes que os haveres do moribundo,
superiores a duas centenas de contos, estavam em
poder de Pantaleão, de Joaquim António, e de seu
primo Athanasio José, repartidos em avultadas som-
mas, das quaes Plalho tinha cobrado as declarações
encontradas, e lavradas com sufíicientes solemnida-
des legaes. Este quarto ladrão que descobria os
três do Porto considerou- se o melhor co-herdeiro
da herança porque desde logo computou a percen-
tagem a auferir.
Um conhecido do agonisante, levado de escrú-
pulos, entrou-lhe ao quarto com o prior da fregue-
zia, homem de respeitáveis cans, e, na serenidade
/jo Os brilhantes do brasileiro
límpida do rosto, um como mensageiro e núncio
da misericórdia divina.
Hermenegildo encarou n'elle com assombro, e
regougou a trancos de voz cavernosa:
— Vá-se embora, que eu não morro d'esta vez.
— Assim o permittirá Deus— respondeu o sacer-
dote com grave compostura — mas os benefícios dos
sacramentos não utilisam somente aos que vão á
presença do Senhor.
— Não me conte historias — tartamudou o brasi-
leiro, roiando-se de modo que lhe virou as costas.
— Meu irmão — tornou o sacerdote de Jesus —
veja se tem na sua alma offensas a perdoar, ou
ódios de que peça perdão. Quando Deus for ser-
vido chamal-o a contas, a sua alma não poderá
voltar as costas á face do supremo juiz.
— Não me matem! — rugiu Hermenegildo, bara-
fustando.
O padre quedou-se a contemplar de braços cru-
zados e o coração em Deus aquelle espectáculo,
supplicando graças para rebeldia tão estranha na
suprema hora.
A graça divina esquivou se. Contra a benigna
theologia de bonissimos casuistas, vivo persuadido
que Lúcifer estimaria que certas almas, á ultima
hora, limpas pela contricção, se guindassem á glo-
ria, afim de lhe não sujarem o inferno.
O sacerdote retirou-se, quando viu que a sua
presença sobre-affligia o doente.
Era meia noite. D'esta hora até ás cinco da ma-
nhã Hermenegildo pediu agua já nos demorados
paroxismos, e ninguém se abeirou do seu leito.
Os brilhantes do brasileiro iji
Cinco horas vasquejou sósinho, e, aos primeiros
assomos do dia, rendeu. . . a alma.
Rosa, accordada pelo futuro marido, perguntou
se o patrão tinha acabado.
— Acho que sim, que já não ouço nada — disse
o criado, e foi chamar o primo de Athanasio para
tomar conta de algumas arrobas de carne em pu-
trefacção, onde estivera uma alma «creada á ima-
gem e semelhança de Deus.»
A tolerância divina permitte semelhantes blasfé-
mias.
XXH
Felicidade snprema
Em abril de i85o, Angela e JoannE^ sentadas no
quintalinho de sua casa, debaixo d'uma amendoeira
florida, ao intardecer, descançavam do trabalho do
bastidor de que tiravam bons lucros em bordados
de ouro.
Joanna, embellesada na formosura da sua amiga,
dizia- lhe:
— Como vossa excellencia, n^esta pobresa, ganhou
o que tinha perdido na opulência da sua casa ! E'
bem certo que a felicidade está em mui pouco ! Eu
a temer que a sr.* D. Angela invelhecesse n'estas
estreitesas da nossa casa, e não se habituasse a
isto ; e quiz Deus que, em dez mezes, eu a não
visse triste senão quando veio a primeira carta do
meu Francisco. . .
— Pois olhe, minha amiga, eu estava agora tris-
te. ..
— Por quê ? ! Vi-a callada ; mas cuidei que não
era tristesa. . .
Os brilhantes do brasileiro iy3
— Era...
— E é segredo ?
— Não, minha amiga . . . Segredos quando eu não
posso distinguir as nossas almas uma da outra. . .
Eu lhe conto... Estava a dizer comigo : o meu futu-
ro qual será ? Tenho vinte e nove annos. Se me re-
cordo do que passei, imagino que a vida já é longa
e deveria estar por pouco ; mas, diante de mim, ve-
jo os annos demorados d'aqui até á velhice, até aos
sessenta annos da nossa Victorina que espera ainda
viver até os oitenta. Muito se vive quando se soffre !...
e o que mais espanta é que nem a desesperação in-
funda um sincero desejo de morrer... Aqui estou eu
a lastimar-me, a perguntar o que hade ser de mim,
a ver a precisão de se acabar esta socegada vida que
tenho; e, apesar do escuro das minhas nenhumas
esperanças, desejo viver. . . para quê?
— Deus lh'o irá dizendo, minha se.nhora. Se eu
dissesse á minha amiga que esperasse resignada, se-
ria uma indiscreta conselheira. Quem pôde dar lições
mais sublimes de paciência que a sr.* D. Angela ?
— Paciência, sim; não me hade abandonar esta
providencia dos infelizes... — disse Angela, concen-
trando-se outra vez com desacostumada melan
colia.
— Então que é isso ? — disse meigamente Joanna
tocando-lhe nas mãos que ella inclavinhara amparan-
do a fronte.
— E seu irmão ? — disse Angela como se a per-
gunta sahisse de um dialogo mental.
— Meu irmão? o quê, minha amiga?
— Não o heide vêr mais ?
I'j4 Os brilhantes do brasileiro
— Por que não, sr.* D. Angela? pois que rasão
ha para que o não veja ?
— Quando a felicidade do coração se tornou im-
possivel . . .
— Impossível, não. Vossa excellencia quiz ser n'ou-
tro tempo esposa de meu irmão. Quem sabe se um
dia poderá mais livremente dispor da sua vontade 1...
Seu marido tem bastante edade. . .
— Eu era n'esse tempo a mulher com o prestigio
que se desfez... Esse homem, que me prendeu ao
remorso e vergonha de me deixar vencer da com-
paixão e dos baixos pensamentos de ser rica, egua-
lou-me a qualquer mulher vulgar... Se eu desmere-
ci aos meus próprios olhos, authorisei todo o mun-
do a considerar-me aviltada. . .
— Não diga isso, minha senhora... — atalhou
Joanna, tomando-lhe as mãos caridosamente — Pois
não vê n^essas sinceras confissões de meu irmão
como elle a amava ?. . .
— Amava a saudade ; não era a mulher; amava o
passado e o que lá se perdeu. A' luz que então me
via não poderá vêr-me jamais. Eu heide ser sempre
a esposa ou a viuva d'um homem que me lançou
de si com despreso... E, depois, a gratidão das al-
mas nobres, como a de Francisco, pôde leval-o a
dobrar-me o joelho com admiração ; mas com amor
nunca. Eu sei isto, adivinho isto. Se eu vendesse a
casinha única onde me abrigasse para lhe melhorar
a sorte d'elle, essa dedicação sublime dupUcaria o
meu direito a ser amada ; mas eu, quando bem pen-
so no que fiz, duvido que me louvem os estranhos,
e sinto esfriar a veheraencia de gratidão n'aquelle
Os brilhantes do brasileiro iy5
mesmo por amor de quem me pareceu louvável o
acto que pratiquei. Mas eu não queria que me agra-
decesse ; queria até que elle ignorasse sempre, para
eu não ficar desdourada. Vê por que tantas vezes
lhe tenho pedido que não me descubra ? E a minha
amiga sempre a querer, sempre a instar que eu a
deixe contar-lhe tudo. Oh 1 não o faça, por piedade
lhe peço que não lh'o diga ! Se elle vier um dia a
Portugal, basta que lhe faça saber que eu não fui má
esposa... que fui calumniada ; mas que não ha no
mundo quem possa provar que eu meditei um ins-
tante em justificar um crime com os exemplos de
meu marido. Assim posso ser amada... e eu queria
sêl-o, queria, minha amiga, porque dos dezeseis aos
vinte e nove annos, vão milhares de dias e noites
em que nunca esqueci seu irmão. Houve um tempo
em que o julguei mal, porque Deus lhe dera a vir-
tude que esmaga o coração, porque o meu desatino
queria ser excedido pela paixão do homem que me
obrigava á voluntária pobresa, ás injurias de meus
parentes, ao perdimento de um grande património
e da herança de um nome nobre. Que me importa-
va isso ? Mas seu irmão, minha amiga, tinha rique-
sas superiores : a santificação da virtude, uma coi-
sa que se adora de joelhos depois que se tem sido
desgraçada, e se lidou seis annos com um homem
de condição vil.
N'este momento, Victorina assomou n'uma janel-
la, dizendo que estava um homem perguntando pela
dona da casa.
— Será carta do Brasil ? — perguntou Joanna.
— Não é, — disse baixinho Victorina — é uma pes-
i^^G Os brilhantes do brasileiro
soa asseada com barbas grandes. — E voltando-se
subitamente soltou um grito, e disse para dentro :
— O senhor entra pela casa assim, sem esperar
resposta ?
O sujeito sorriu-se á indignação da velha, que não
reconheceu, acercou-se da janella, debruçou-se para o
quintal, e cravou espantados olhos nas duas senhoras.
— E' elle! é meu irmão! — exclamou Joanna.
~ Oh minha querida senhora, é elle ! . . .
E correu para casa; mas Angela ficara immovel a
olhar para Francisco, e elle immovel apoiado no
peitoril da janella, com os olhos fixos em Angela.
A irmã abraçava-o, e elle beijando-a na fronte,
murmurou :
— Aquella é Angela, não é ? !
— Sim, meu filho, pois não é ella o mesmo an-
jo?! Vamos buscal-a, depressa, que está sem cor...
E desceram rapidamente, e chegaram já quando a
esmaecida senhora caminhava a tardos passos para
casa.
Costa offereceu-lhe a mão convulsa. Angela enca-
rou-o muito amoravel, apertou-lhe a mão, e disse
com voz magoada :
— E' a primeira vez. . .
E carregaram-se-lhe de lagrimas os olhos.
Depois, abraçou-se em Joanna, apoiando-lhe a fa-
ce no hombro.
Francisco permaneceu silencioso, abafado, n'um
modo de existir, que seria o preludio da demência,
se durasse muito, ou a congestão se não desafogas-
se no pranto involuntário.
— Dá-lhe o braço, Francisco... — disse Joanna —
Os brilhantes do brasileiro ijj
Elle parece que não accredita vêl-a aqui, minha
filha — continuou ella, sorrindo.
— E desde quando ? — perguntou elle, tomando o
braço de Angela.
— Desde quando está aqui? — verificou a irmã,
não percebendo bem a pergunta.
— Desde que não tenho casa — respondeu a hospe-
da sorrindo — desde que precisei da caridade da mi-
nha amiga de infância, e da sua beneficência, sr.
Gosta.
Occorreu Victorina a dar uns tons de festa á che-
gada de Francisco, pasmando-se n'elle, nas grandes
barbas, e na espantosa mudança que fizera, e no
medo que ella tivera de que fosse um salteador,
quando o viu romper por alli dentro.
Entraram para a saleta do trabalho, onde esta-
vam armados dois bastidores.
— Aqui tens a nossa officina — apontou a riden-
tissima Joanna — Temos feito progressos e lucros
admiráveis : bordamos a ouro. A sr.* D. Angela,
em dez mezes, ganhou quarenta e duas moedas.
— Está vossa excellencia aqui ha dez mezes ? —
perguntou Gosta á hospeda.
— Penso que sim — confirmou Angela.
Francisco, confrontando as datas, concluiu que
tendo chegado ao Rio Hermenegildo oito mezes an-
tes, Angela se acolhera a sua irmã logo que sahiu
de casa. Exultou, luzia-lhe nos olhos o muito sol
que se lhe abrira na alma.
E a ponto vem dizer-se que o confidente ultimo
do brasileiro, desde que ao longe premeditou a re-
dempção de Angela, conjecturara que teria de pro-
12
1^8 Os brilhantes do brasileiro
cural-a na ladeira onde vulgarmente pobresa e for-
mosura impellem a mulher, nascida sem a aureola
santificante : — aureola de que já hoje ninguém vê
resplendor, nem os romancistas propriamente se
exercitam n'esse género de inventiva, temerosos do
descrédito de phantasticos e inverosímeis.
Do muito martelar n'esta hypothese péssima, bem
que trivialmente realisada no máximo numero de
lances análogos, causou-se que o lapso da desampa-
rada senhora para os braços d'outro homem, ama-
do ou aborrecido, era a esperança infernal que preoc-
cupava o auctor dos Sonhos, aquelle olympico vi-
dente agora demudado em pessimista, com as asas
da sua poesia mortas, e o espirito prostrado nas
baixesas vulgares d'este mundo. Figurou-se-lhe, por
desventura, que uma mulher, que aspirara o am-
biente de Hermenegildo Fialho, devia ter impeço-
nhado o coração, apagada a flamma celestial do es-
pirito, e desbotadas as cores prismáticas por onde
via o bom, o bello, o santo da creação, antes de
tocar a hediondez de tal marido. Duas angustias,
pois, a um tempo o navalhavam ; se a encontraria
amante d'outrem, e para si perdida ; se victima da
necessidade na vulgar degradação de escrava, e
perdida também para elle.
O encontral-a, por tanto, em companhia de sua
irmã causara aquelle intorpecimento de espirito e pa-
lavra que parecia irmanar-se com a indifferença, e
até com a surpresa desagradável. Depois, porém,
que se afez ao ar da felicidade, e os seus olhos po-
deram supportar a luz inesperada, Francisco trans-
figurou-se, as lagrimas venceram a represa, os de-
Os brilhantes do brasileiro ijg
zoito annos refloriram ; e, de súbito, Angela, que
não intendia o frio silencio d'elle, sentiu-se-lhe aper-
tada nos braços, e beijada nas faces que ardiam dos
beijos, das lagrimas e do pudor.
— Eu vinha procurar-te, Angela ! — balbuciou
Francisco — mas Deus não quiz que eu imaginasse
a possibilidade de te encontrar ao lado da minha
santa irmã. Eu tinha soffrido muito, e a recompensa
devia ser esta. . .
Angela abaixou, o rosto, e pensou confusamente
na estranbesa d'este trance.
Gosta, voltando em si, compenetrou-se do pejo
de Angela, e disse :
— Eu beijei a tua face, Angela, por que não ha
consideração que te obrigue a corar. Teu marido
morreu.
— Morreu ? ! — conclamaram as duas senhoras, e
cm ambas o ar da physionomia não revelava senti-
mento que pedisse lucto immediato. Os olhos de
Angela não tinham sombras de funéreos ; o sorriso
de Joanna iriava as cores azues e escarlates d'um
vestido de gala. E, se n'este conflicto pairasse idéa
triste, bastaria um destempero de Victorina para
destruir o effeito lúgubre da noticia. Quando Fran-
cisco proferiu teu marido morreuy a criada, que es-
tava na cosinha, correu á saleta exclamando :
— Ainda bem I ainda bem !
E chorava de alegria, como nunca ninguém cho-
rou por um defuncto, excepto os herdeiros, paren-
tes em quarto gráo.
Cumpria relatar o caso infando. Costa, ommit-
tindo os factos essenciaes, contou que conversara
1^0 Os brilhantes do brasileiro
com Hermenegildo nos primeiros dias da doença,
sobre coisas particulares da sua vida; mas, como
outros doentes fora do Rio o desviassem do enfer-
mo, não sabia dizer da morte senão o principal :
isto é, que morrera.
Instado a referir o dialogo que tivera, contou que
o brasileiro apenas se queixava e dava como prova
da deslealdade de Angela, a venda d'uns brilhantes,
e a pertinácia em não declarar o destino dado a
r.65oj?ooo réis.
Foi. . . — clamou Joanna, e suspendeu-se, quando
encontrou os olhos de Angela que pareciam recri-
minal-a com profundíssima dor.
— Foi, . . o que ? — pergunteu Francisco José
da Costa, fingindo-se embaçado pelos olhares mú-
tuos das duas.
— Nada. . . — dissimulou Joanna — Queria eu di-
zer que foi uma falsidade.
— Falsidade ! . . . não foi. . . o homem não men-
tia ; nem tu, Angela, permittirás que a nossa Joan-
na desminta teu defunto marido — objectou elle,
sorrindo ás inquietas visagens da viuva — E conti-
nuou : — Como heide eu entrar n'um segredo que
teu marido não penetrou com toda a sua policia
administrativa e espionagem de amigos ! Não ouso,
minha amiga, pedir te a confidencia. . . Teu marido
queria morrer convencido que o seu ouro andava
por mãos de quem lhe disputara e vencera a alma
da esposa. Parece que o homem não se dispensava
d*esta ignorância para poder allegal-a nas contas
dadas ao juiz que via as tuas lagrimas, minha santa
amiga. Eu, porém, não consenti que elle se preva-
Os brilhantes do brasileiro i8i
lecesse da sua ignorância, e jurei pela minha honra,
que tu deras de esmola i:65oáiooo réis. Mas o que
tu davas de esmola, nas mãos do beneficiado, cha-
mava-se roubo em relação a teu marido que era se-
nhor do objecto esmolado. Fui roubado — poderia
elle dizer ao juiz supremo — Minha mulher estaria
innocente quanto aos deveres de esposa; mas^ co-
mo parte do meu ser mercantil^ defraudou-me em
i:65õitt>ooo réis — quantia que elle tinha gravado
no cérebro com lettras de betume ardente. Ora,
suppondo mesmo que tinhas sido roubada, por
quem quer que fosse, e illudida em tua ardente
caridade, Angela, restava-lhe a elle a^possibilidade
de uma restituição que, afinal, dilucidasse o myste-
rio da tua innocencia. Com o propósito de lhe crear
esperanças de ainda ser embolsado, contei lhe eu,
Joanna, a historia d'aquellle dinheiro, que te foi res-
tituido, quando tu nem o esperavas, nem tinhas re-
moto conhecimento do roubo. Na minha historia ha-
via a singular coincidência de ser a restituição do
teu roubo egual á quantia de que o meu doente se
queixava. Notável semelhança; i:65o}Jooo réis!
dando-se, de mais a mais, a estranha coisa de ser
elle roubado ao mesmo tempo que tu eras indemni-
sada, minha irmã ! E, não pára aqui a triste coin--
cidencia ! os brilhantes eram vendidos por quantias
eguaes áquellas que tu ias recebendo, e na mesma
occasião, do tal sujeito de Vianna, honrada pessoa
que eu nunca cessarei de proclamar, apesar do in-
cógnito I . . . Por que estás tu a sorrir, Joanna ? E
tu, Angela, que ar é esse de assombro e alvoro-
ço ?.. . Não querem ouvir o melhor da passagem ?
i82 Os brilhantes do brasileiro
Um dia, estava teu marido a contar, provavelmente,
as dúzias de contos que lhe alvoejavam com azas
de ouro á volta do leito, onde havia de morrer só-
sinho, blasphemo e abrasado de sede, sem amigo ou
indifterente que lhe apagasse nos beiços o brazido
da morte ; um dia, vinha eu dizendo, aproximouse
d'elle um homem, e disse: «Venho restituir-lhe
1 :65oí?ooo mil réis que lhe foram roubados por sua
esposa para me dar a mim, que era pobre. E eu com
o seu dinheiro fiz a minha posição de menos pobre.
A restituição é um dever que complica dois gran-
des resultados : um é o sr. Hermenegildo morrer
com a certesa que deixa, além de duzentos e tan-
tos contos, mais esta quantia aos seus amigos ; a
outra é ir vossa senhoria por onde quer que vá com
a certesa de que teve a ventura de casar com uma
senhora que podia roubal-o e trahil-o ; mas que se
limitou apenas a prival-o, por espaço d'alguns an-
nos, da deleitosa posse d'estas notas. Porém, como
o sr. Fialho infamou sua esposa, convém que a de-
clare illibada, não só do desvio do ouro, mas tam-
bém da dignidade conjugal. Para que se faz mister
que leia e assigne este recibo.» E teu marido, mi-
nha amiga, leu, recebeu o dinheiro e assignou isto
que tu vaes ler, se té não custa.
E a viuva e Joanna leram mentalmente a quita-
ção que o leitor conhece.
Quando terminou a leitura, Francisco ajoelhado
aos pés de Angela, beijavalhe as mãos, excla-
mando, coberto de lagrimas :
— Eu te agradeço, filha da minha alma ! Bemdita
Os brilhantes do brasileiro i83
sejas tu, escolhida de Deus para mensageira de sua
misericórdia !
E Angela, baixando a face até aos lábios d'elle,
murmurou :
— Meu santo e nobre coração ! . . .
XXIII
Os bomens honestos
Seis mezes depois, Athanasio José da Silva, Pan-
taleão Mendes Guimarães, e Joaquim António Ber-
nardo, reunidos na famigerada bodega do Maneta
do Reimão, onde em certos dias iam sevar-se na
pescada e cebolas, bodo peculiar d'aquella taver-
na, praticavam do seguinte theor :
— Acertámos ou não?... — dizia Athanasio —
Viram vocês como afinal tudo se descobriu ? Não,
que certos lorpas inda diziam que o adultério da tal
sr.* Angela não estava provado. . . Ahi a tem ago-
ra casada com o sujeito. .. E nem deixou passar
um anno sobre a morte do marido, percebem vo-
cês ?
— Pois isso estava claro physica e moralmente
fallando — obtemperou Joaquim António — O ma-
riola era um estudante de cirurgia, segundo ouvi
contar. Olha se o Hermenegildo não tem as coisas
seguras, que lá se regalava agora o troca-tintas com
* Os brilhantes do brasileiro i85
bem bom d'elle 1 E dizia aqui o nosso Pantaleão,
quando veio a noticia da morte do nosso amigo,
que se procurasse a viuva, e se lhe desse alguns
contos de réisl Parece-me que o marido se levan-
taria da cova, se tal fizéssemos !
— E' que eu — explicou o marido de Francisca
Ruiva, ainda cuidava que ella teria feito a sua as-
neira, e que se tivesse arrependido ; mas á vista do
que acontece, nem um dardo ! (E descendo a voz,
continuou :) O' amigo Athanasio, aqui entre nós,
seu primo do Rio é que a fez limpa ! Sem trabalho
nenhum, nem risco, nem nota de ladroagem, pilhou
os seus quarenta contos fortes. . . Apre que é la-
drão, e perdoe você por ser seu parente. . .
— Que queriam vocês ? — desculpou-se Athana-
sio — eu incumbi meu primo do negocio porque não
via pessoa mais hábil, percebem vocês ? Cuidava
eu que elle entregaria os titulos accommodando-se
com uma pexincha de meia dúzia de contos : mas
vocês bem viram a carta d'elle. Ou me dão quarenta
coutos, ou entrego os titulos á viuva ou herdeiros'de
Fialho. Que fazer ? ou dar os quarenta ou perder
duzentos. Vocês concordaram, e eu paguei.
— E os outros seis contos que você deu ao ma-
rido da Rosa Catraia ? — perguntou Pantaleão.
— Não que esse, como era criado do quarto de
Hermenegildo e sabia lêr, tinha visto os titulos
quando andava á cata das notas e mais a bêbada
da moça, percebem vocês ? e depois viu que el-
les desapparcceram, e começou a dar á lingua ; de
maneiras que não houve remédio senão meu primo
fazer cambalacho com elle, e mandal-o para mim
j86 Os brilhantes do brasileiro
com uma carta, que vocês viram, e também con-
cordaram em que se pagasse.
— Querem vocês saber uma ? adivinham quem
hontem esteve no baile da Assembléa ? A tal Rosa
Catraia ! — disse Joaquim António.
— Ora que novidade você me dá !— accudiu Atha-
nasio — Fui eu quem lhe arranjei a carta de con-
vite.
— E estava rica a valer ! — accrescentou o ma-
rido da maiata. — E boa mulher ! ? O maroto do
Fialho tinha gosto ! Quantas lhe conheci eram to-
das de sola e vira I
— Pelo que vejo a Rosa soube-se arranjar bem !,..
— Observou Pantaleão.
— Ora ! . . . — conveio Athanasio — Eu dou-lhe
trinta contos fortes pelo que ella apanhou. Só os
brilhantes de Angela valiam mais de cinco contos.
— E ella 1á os tinha no baile que eu bem lh'os
conheci... — confirmou o mesario da santa casa.
— Também é escândalo de mais ! — ceusurou
Pantaleão — apresentar-se em publico com os en-
feites da mulher do amo. A minha vontade era es-
palhar isso. . .
— Caia n'essa você — contradisse Athanasio — e
depois queixe-se, se o marido contar que viu na car-
teira do Fialho um titulo seu de divida de cincoen-
ta e dois contos. . . percebe você ?
— Falle baixo, diabo ! — accudiu o ladrão pun-
donoroso — você não sabe que anda ahi gente pelo
quintal ?
Chegaram as travessas da pescada entre rimas
de cebolas e ovos. Abriram-se os buchos, e fecha-
Os brilhantes do brasileiro rSy
ram-se as consciências d' estes membros do tribu*
nal de honra onde Angela foi condemnada á infâ-
mia e á pobresa.
Fartos até ao arroto, de coletes desabotoados, sahi-
ram os três accionistas mais grados dos bancos
portuenses a beber o ar balsâmico do jardim de São
Lazaro. Nada, absolutamente nada, estremava aquel-
les três da classe dos homens de bem, porque a
lei, que mandava abrir com ferro quente um ferrete
na testa dos ladrões, foi derrogada em 7 de feve-
reiro de i523.
XXIV
A opinião pnblica
A opinião dos tres capitalistas dignamente acata-
dos no anterior capitulo frisava com a opinião ge-
ral da sociedade portuense sobre o casamento de
Angela com o cirurgião Gosta. As segundas núpcias
tinham evidenciado o crime das primeiras. A infâ-
mia de Angela era indelével, e já pôde ser que mais
repulsiva, desde que ella aífrontou a moral, pas-
sando em frente dos amigos de Fialho pelo braço
do amante que causara a morte do honrado brasi-
letrOy dizia a maiata, e Francisca Ruiva, e outras
Ruivas, que me estão pedindo chronica. E hãode
tel-a. A cortezia não se exercita somente com as
senhoras honestas.
Francisco José da Costa leu a opinião publica no
volver d'olhos dos magotes que se arrebanhavam
nas praças, e no petulante encarar das mães que se-
gredavam ás filhas a desmoralisaçáo da mulher de
Fialho. O cirurgião era alvo da injuria, cuspida nas
Os brilhantes do brasileiro / i8g
costas, por seus próprios collegas. Era simples o li-
bello infamatorio : accusavam-no de se ter formado
á custa dos brilhantes de um brasileiro, roubados
por sua mulher.
Angela encontrou um dia n'uma algibeira de ca-
saco uma recente carta anonyma em que um amigo
aconselhava a seu marido que sahisse do Porto, se
precisava de viver pela arte. E ajuntava ao conselho a
causa promotora de tão amigável aviso ; £" odioso
na sociedade o homem que se habilitou para entrar
n''ella com o dinheiro d* uma senhora casada. E se
essa senhora roubou, deshonrou e matou o marido,,,
mil ve^es horrendissimo !
Angela da Costa leu e chorou. Depois arguiu- se
de fraca, e desmerecedora dos bens com que Deus
lhe apremiara a sua paciência nas injurias.
Guardou a carta, e assim que o marido recolheu,
foi para elle risonha, e disse em tom de queixume :
— Por que me não mostraste logo esta carta,
meu filho ?
— Ah ! — acudiu Francisco — tinha tenção de
mostrar- t^a; mas esqueceu-me a carta e o intento.
E' o que foi. Mas olha, Angela, este esquecimento
não argue insensibilidade, nem uma coisa impro-
priamente chamada cynismo. Sabes o que é ? con-
formidade, tolerância, e quasi uma desculpa á opi-
nião publica.
— Desculpa ! . . .— interrompeu Angela.
— Sim, filha. Por ventura, tu já te justificaste ? e
eu já me justifiquei ? Não. A sociedade sabia que uma
mulher casada vendeu uns brilhantes; que o marido
d'essa mulher a expulsou; que esse marido morreu;
igo Os brilhantes do brasileiro
que um homem, seis mezes depois, apparece casa-
do com a viuva do roubado, do assassinado a punha-
ladas de deshonra... Que queres, Angela? quem
ousará defender-nos ?
— Mas faz tu publica essa paga assignada por...
— Deus me livre, minha louca. A quitação foi es-
cripta e assignada para que soubesses que não devias
nada a teu marido, e que a roubada em tuas jóias
tinhas sido tu. Satisfações á sociedade ? São justas,
quando ella não condemna antes de ouvir os réos,
quando não escarra nas faces das victimas antes de
examinar os vincos por onde passaram as lagrimas.
A nossa causa de moral publica está perdida ; não
obstante a rehabilitação davam-t'a os juizes, se hou-
vesses herdado os duzentos contos de Fialho. Os
que me denigrem o caracter, se eu a esta hora fos-
se o marido da viuva com duzentos contos, cha-
mando-me «tratante feliz», sentar-se-hiam lisongea-
dos nos coxins das minhas cadeiras, e pediriam aos
meus lacaios, com urbanidade, o favor de me entre-
garem os seus bilhetes de visita. Mas, filha, esta so-
ledade que mora á volta de nós é o cordão com que
a mão da Providencia abalisa a felicidade de duas
almas que não podem corar uma da outra. Quando
eu desejar mais do que tenho, quando invejar feli-
cidades que não sei imaginar, Angela, heide pedir-
te perdão de ter sido o mais vil dos teus inimigos.
Apertou-o Angela com arrebatamento nos braços,
e murmurou :
— Se tu quizesses. . .
— O quê, minha filha ?
— Viver n'uma aldeia, entre umas serras, sósi-
Os brilhantes do brasileiro igi
nhos com a nossa Joanna, esquecidos, e tão ama-
dos ...
— Sim, quero, minha providencia... Adivinhaste
a minha aspiração de não sei quantos annos...
— Eu sei, meu amor. Li-a nos teus livros, e que
fantasias eu creava para completar as tuas !... Se eu
tivesse filhos, e lhes podesse incutir a certesa de que
todo o seu futuro e mundo era o espaço contido nos
horisontes das nossas montanhas...
— E não sabes tu, Angela? —volveu jubilosa-
mente Francisco — não sabes que eu careço de ser
cirurgião ? que todas as portas se me fecham aqui ?
Não cuidavas que eu viesse quasi pobre do Brasil ?
Vim, minha filha, vim. Contava com muito se lá
permanecesse, mas a minha riquesa eras tUc Apenas
tenho a subsistência segura de dois annos n'esta
mediania em que tu fazes milagres de abundância.
Mas o futuro . . .
— Pois então para onde iremos, Francisco ? Te-
nho pressa ; quero ir amanhã, hoje, já. . .
— Olha, n'uma terra, que chamam Barroso, não
ha facultativos. O sitio é triste, é montanhoso, as
casas são colmadas, os alimentos grosseiros, os frios
do inverno glaciaes, e os ardores do estio queimam
as urzes e seccam as fontes. Queres ir para Bar-
roso?
— E tu ? irias tu contente para ahi ?
— Vou.
— Vamos, filho — exclamou ella enthusiastica-
mente !
— Assim que a doença ou a tristesa te ameaçar,
passaremos a sitios mais amenos, iremos de aldeia
ig2 Os brilhantes do brasileiro
em aldeia, até que uma casinha entre duas arvores
te convide a viver e morrer n*ella.
Dias depois, Francisco Gosta, o grande operador
que honrara as escolas da sua pátria no Brasil, ac-
ceitava o partido de um concelho chamado Boticas,
em terras de Barroso.
Victorina acompanhou a ditosa familia. Ao visi-
nharem da terra tão selvaticamente pintada por Fran-
cisco na imaginativa da esposa, a rústica espectati-
va demudou-se em alegres várzeas, terras colmadas
de arvoredos, regatos que vertiam murmurosos por
entre outeirinhos tapisados de boninas. A casa des-
tinada ao cirurgião de partido era telhada, e olha-
va sobre uns almargeaes por três janellinhas de por-
tas envidraçadas. A horta suppria mais substancial-
mente a falta de jardim, e em vez de musgos e tre-
padeiras floridas, verdejavam as couves gallegas e
trepavam florentes os feijões carrapatos — espectá-
culo bucólico de que muito se deliciava Victorina,
recordando a casinha rural de seus pães.
Angela exclamava com as mãos postas :
— Isto é tão lindo ! Se haverá uma alma triste
n'este povoado ! Que miserável e escuro d*aqui se
me figura o que deixamos ! . . .
Joanna cuidou em alindar a casa com a modes-
tíssima mobília em que o município se mostrara ge-
neroso para grangear a estima do facultativo.
Ao outro dia, a esposa do boticário com sua cu-
nhada esposa do regedor, e as authoridades de Mon-
te Alegre com suas famílias, visitaram o cirurgião
que alli era graduado em doutor.
De tudo isto entreluzia á scísmadora Angela um
ta
Os brilhantes do brasileiro igS
viver antigo, santa singelesa de costumes e dulcifi-
cação de almas que para alli viessem acerbadas do
viver das cidades.
Aquelle silencio de terra e céo era-lhe o ambien-
te lúcido das suas esperanças. Não ousara imagi-
nal-as tão accordes com a sua Índole, vendo-se li-
gada ao esposo querido que reflectia a felicidade de
todos sobre dourando a sua.
Começou o doutor a curar, e a voz publica a pre-
goar milagres. Achaques inveterados, aleijões, ne-
vralgias, que tinham resistido aos exorcismos, espi-
nhelas cahidas e nunca levantadas, todas as castas
de enfermidades sem cura encontraram remédio ou
alivio.
O assombro, porém, excedeu todo encarecimen-
to quando o doutor chamou um cego mendigo, e
depois de operal-o e tratal-o em sua casa, o man-
dou trabalhar com vista no seu antigo oíficio de pe-
dreiro.
Rodeavam-no as multidões de parentes e amigos
perguntando todos a um tempo se os conhecia.
Convencidos de que o cego de vinte annos vol-
tara a ver os filhos que deixara no berço, o doutor
avultou-lhes como ente milagroso, alli mandado pela
Senhora da Saúde, adorada com muita fé na sua
egreja.
Alargou-se a área da clinica do facultativo a seis
e mais léguas em redor, por caminhos precipitosos
á orlíi de despenhadeiros.
Mas o inverno chegou.
Os pegões do vento outomnal abateram quando
as neves de novembro começaram a coroar os espi-
i3
ig4. Os brilhantes do brasileiro
nhaços das serras, e a sobrepor as suas camadas
indurecidas pelo giar das noites, sobre as veredas
de cabras que ligavam uma aldeia a outra. Sem im-
pedimento dos rogos de sua familia, Francisco Cos-
ta ia sempre que era chamado. E, quando transpu-
nha as raias do concelho, a visitar doentes em noite
tempestuosa, por os mesmos caminhos já famigera-
dos na vida de fr. Bartholomeu dos Martyres, e re-
cebia duzentos e quarenta réis, de recompensa,
Francisco depunha no regaço da esposa o seu bem
suado ou bem tiritado obulo, e dizia a sorrir:
— E* o dinheiro de dois operários : tanto labutou
o lavrador para o tirar da terra, como eu para lh'o
arrancar do cantinho da arca. Se eu lhe pedisse
mais, o doente preferia a morte.
O que muito suppria na sua receita era a arte
operatória, exercitada longe, mormente as opera-
ções de catarata que já tinham levado seu nome ao
território hespanhol.
Então aconteceu, duas vezes, no primeiro anno,
Francisco Costa enthesourar na caixa económica de
sua mulher uma dúzia de peças, com esta recom
mendação dita em gracejo:
— Vae guardando o património do nosso primei-
ro filho.
Angela estremeceu da felicidade, que já lhe es-
tremecia no seio com adiantados signaes de mater-
nidade.
— E o nosso filho que será n'este mundo'? que
destino lhe hasde dar? — perguntou a filha do ge-
neral Noronha.
— Visto que não é provável ser elle o vigessimo
Os brilhantes do brasileiro igS
senhor do Paço de Gondar — respondeu a rir Fran-
cisco Gosta — será artista.
— Artista !
— Artífice, é mais portuguez. Terá uma profissão
que lhe abaste á sua subsistência e á de uma famí-
lia creada com pouquíssimas necessidades. Não ap-
prenderá a ler, para crer; não saberá nada da scien-
cia humana para intender bem o Padre Nosso, que
é a sciencia divina baixada até ao homem ; dormirá
o somno pesado do operário para não sonhar as
chimeras que me fizeram a mim o motor dos teus
longos infortúnios, meu pobre anjo !
— Mas hoje^ filho ! . . . — atalhou ella — Não es-
tou eu esquecida de tudo ! . . . A compensação não
é tão superior ao que padeci? Se Deus me der fi-
lhas, a felicidade que eu peço para ellas é esta mi-
nha . . .
— Mas padeceste muito, Angela. . . E as tuas fi-
lhas poderão ser felizes como tu sem terem pade-
cido...— E concluiu acariciando-a : — é preciso
que ellas não saibam ler Sonhos nem escrever Es-
peranças . . .
XXV
o cego
Os olhos do general Noronha cegaram inteira-
mente. Os especialistas de Paris tinham capitulado
de catarata negra a próxima cegueira, muito simi-
Ihante nos symptomas a gotta serena.
Declinava para os setenta annos o inconsolável
cego. Queria voltar a Paris, esperançado na opera-
ção; mas escasseavam-lhe forças. A velhice d'este
homem disciplinado por pesares de toda a espécie
desde o terrivel só até ao excruciar do remorso,
causava a um tempo compaixão e medo. A cache-
xia lenta myrrara-o até lhe seccar a pelle sobre a
aridez dos ossos ; e os glóbulos dos olhos guinavam
pardacentos nas orbitas descarnadas á procura d'um
raio de luz.
Os parentes e amigos que elle havia repellido não
o procuravam nos derradeiros annos, por que sa-
biam que o testamento estava feito. Os legatários,
Os brilhantes do brasileiro igy
entregues á safara da lavoura, nem sequer averigua-
vam se o senhor do Paço de Gondar era morto ou
vivo. Ninguém por tanto o visitava. O velho chei-
rava a cadáver, e o lastimar-se xl'um cego exas-
perado afugentaria até a commiseração dos herdei-
ros.
O mordomo, João Pedro é que, dia e noite, lhe
dava o braço ou vigiava o anciado dormitar. Cho-
rava, quando o via de súbito parar, voltados para
o céo os olhos, e clamar: «Meu Deus, meu Deus,
dae-me a minha vista, ou matae-me !»
— E, em uma d'essas apostrophes á Providencia
divina, que lhe visitara alfim a escuríssima ceguei-
ra d'alma e corpo, João Pedro disse :
— Fidalgo, vossa excellencia, se quer que Deus
o escute, siga a lei christã ; tenha pena de sua fi-
lha, perdôe-lhe pelo divino amor de Deus. Pôde ser
que depois a misericórdia de Jesus Christo se com-
padeça de vossa excellencia.
— E quem te disse a ti que ella era minha fi-
lha ? — repetiu o cego a pergunta feita um anno
antes.
— Disse-m'o vossa excellencia, quando ella o vi-
sitava ; muitas vezes me escreveu lá para o Paço :
«Manda-me boa fructa que tenho cá minha filha.»
Hade perdoar-me, fidalgo ; mas vossa excellencia só
deixou de lhe chamar filha depois que ella quiz ca-
sar com um homem mechanico. . .
— E se preverteu. . . — atalhou rancoroso o ce-
go.
— Mentiram-lhe, fidalgo ; ella não praticou acção
má, senão a de querer ser esposa d*um pobre.
igS Os brilhantes do brasileiro
— Não sabes nada, pedaço d'asno. Tenho ali uma
carta de minha irmã Beatriz.
— Bem sei, meu senhor.
— Sabes ? quem t'o disse.
— A sr.» D. Angela.
— Quem lh*a mostrou ?
— Viu-a ella, quando escreveu a vossa excellencia
uma carta sobre a sua escrivaninha. Essa carta diz
que os criados da senhora sua irmã, a quem Deus
perdoe, tinham arrancado a fidalga dos braços do
tal filho do sacristão. Era uma mentira de clamar
vingança aos anjos. Sua excellentissima filha, quan-
do desesperada procurara o tal homem, não o en-
controu, tinha saido para o Porto.
— Quem t'o contou ?
— Victorina, que saiu de Gondar com a sr.* D.
Angela, quando tinha dois annos ; o próprio capel-
lão, e todos os criados da sr.* D. Beatriz, que lá
está onde as contas são apertadas.
— Por que não disseste isso até hoje?
— Por que vossa excellencia se desesperava as-
sim que eu começava a fallar na sr.* D. Angela, e
depois . . . depois . . .
— Depois o quê ? , . . Não respondes ? !
— Vossa excellencia começava a dizer que via a
mãe da menina, e a sacudir os braços que me fa-
zia terror.
— Está bom ! está bom ! — murmurava gutural-
mente o velho, procurando com as mãos tremulas
a bocca do criado.
E recahia na concentrada prostração que durava
horas e dias.
Os brilhantes do brasileiro jgg
Uma vez, o general acordou de sobresalto, por
noite íóra, chamou João Pedro com afflicção, e dis-
se-lhe :
— Quem anda na casa ?
— Ninguém, senhor. . . Serão os ratos que os ha
n'ella de tamanho de leitões.
— Não mangues comigo, João !
— O' fidalgo I eu mangar com vossa excellen-
cia ! . . .
— Ahi anda gente... os passos e a voz são de
Angela ! . . .
— Deus permittisse que fosse ella ! . . . O senhor
general estava agora sonhando, e ás vezes fallava
em sua filha.
— Fallava ?
— Sim, meu senhor.
— Então era sonho. . .
— E, se ella lhe apparecesse. . . se vossa excel-
lencia a visse de repente. . .
— Não vês que estou cego. . . Cego, meu Deus !
— Pois sim ; mas se vossa excellencia lhe ouvisse
a voz, e lhe deixasse beijar as mãos. . .
— Tu quando a viste ?
— Eu, senhor ? Vi-a ha oito annos, quando vos-
sa excellencia estava em França, e me mandou en-
tregar-lhe o cofre dos enfeites.
— E estava aonde ?
— Perto da villa de Barrosas, e casou no dia em
que lá cheguei. . . Eu já contei a vossa excellencia
isto. . .
— Mas ella escreveu-me ha coisa de anno e meio.
— Onde estava então ?
200 Os brilhantes do brasileiro
— No Porto.
— E nunca mais soubeste d'ella nada ?
— Não, fidalgo. . . Isto é. . . — tartamudeou o
mordomo — quero dizer. . .
— Soubeste, ou não ?
— Ella a mim nunca me escreveu *, mas, cá em
Ponte, ouvi dizer que o marido a deixara e fora para
o Brasil.
— Por quê ?
— Não sei. . . — respondeu prompto João Pedro
como quem esperava a pergunta, e tencionava es-
conder os boatos desairosos para a filha de seu
amo.
— Não sabes? alguma nova deshonra !... Quem
te contou isso ? Quero saber. . .
— Não me recordo a quem o ouvi. . . Parece-me
que foi a um padre que já morreu.
— E que é feito d'ella ? sabes ?
— Não sei, meu senhor.
— Quero que saibas... Vae saber isso ao Por-
to. . . Indaga por lá.
— E quem hade ficar á beira de vossa excellen-
cia?
— Um criado qualquer. Vae já hoje, assim que
amanhecer... Sonhei que a via... Ver, meu Deus,
ver!... Sonhei que a via... E o meu coração estava
alegre... Procura-m'a, procura m'a, João!
Seis dias depois, o mordomo voltava triste do
Porto. As inculcas lançadas informaram-no de que
Angela, coberta de opprobrio e justo despreso de
todo mundo, se casara com um cirurgião, por amor
Os brilhantes do brasileiro 20 r
de quem o marido morrera apaixonado; e ninguém
sabia dizer, na visinhança da casa onde ella habita-
ra, o destino que levaram com certesa ; havia, no
entanto, quem affirmasse que tinham ido para o
Brasil.
Das informações colhidas, João Pedro disse sim-
plesmente que a sr.* D. Angela, viuva do primeiro
marido, casara segunda vez, e sahira ou para o Bra-
sil ou para onde se não sabia.
E o mordomo, vendo contrahir-se de angustia o
rosto cavado de seu amo, chorou de compaixão
d'elle, e de pesar de não ter encontrado Angela.
— Agora, não se afflija, fidalgo... — disse com a
voz quebrada o extremoso servo.
— Deus — soluçou o ancião — despertou-me o de-
sejo de a ter comigo para me redobrar o martyrio !...
Seja feita a vossa vontade. Senhor!. . .
XXVI
A Providencia
Pernoitou em Ponte do Lima, no anno de i853,
um cavalheiro de Chaves, de apellido Pisarro, em
casa de parentes que também o eram do general
Simão de Noronha.
Dizia-se, á mesa da ceia, que o general aceitara
o titulo de conde de Gondar, na ultima velhice, cego,
sem descendência, sem sociedade, sem o minimo
prazer da vida, sequestrado de toda a convivência,
e, segundo se contava, tão desvairado de rasão que
deixava três enormes casaps de bens livres aos irmãos
da mulher da Ínfima ralé com quem casara na pri-
meira mocidade.
— E está cego o tio conde de Gondar? — pergun-
tou o fidalgo de Chaves —Cego sem'remedio ?
— Se tivesse remédio, tel-o-ia achado em Paris
onde já foi duas vezes.
— Na minha província e perto de mim — tornou
Os brilhantes do brasileiro 203
o flaviense— ha um cirurgião da moderna escola que
tem feito prodígios em operações de olhos. Se eu
soubesse que o conde consentia ser examinado,
obrigava-me a trazer-lhe o doutor Gosta, como lá se
chama, sem favor, ao admirável facultativo.
— Quem lh'o hade perguntar ? Ha mais de dez
annos que não recebe nem visita alguém.
— Não importa : heide eu ir procural-o.
Foi ; annunciou-se, e teve entrada, por que o con-
de lembrou-se de ter conhecido nas primeiras luctas
da liberdade, um general, tio do cavalheiro annun-
ciado.
Disse o visitante o propósito que o levava. Con-
tou as maravilhas do doutor Costa e oíFereceu-se a
conduzil-o a Ponte.
— Será inútil ; mas que venha. Irá a minha liteira
buscal-o. Se eu podesse ir. . .
— E por que não vae, senhor conde ? — aprovei-
tou o parente, applaudindo o desejo — O exercicio
deve ser-lhe útil. São dois dias e meio de jornada.
Se elle se resolve a operal-o, vossa excellencia vae
residir em Chaves na minha casa, ou em Mont' Ale-
gre, onde ha boas commodidades ; por que, se vos-
sa excellencia quizesse ser operado em Ponte, seria
isso mais diíficil ao doutor que tem uma grande cli-
nica, e não poderia assistir, como convém, ao cura-
tivo e convalescença da operação.
Reanimouse o cego. A esperança galvanisou-lhe
as articulações emperradas pela immobilidade. Aper-
tou nos braços com reconhecimento a dedicação do
parente, e pactuou sahir no dia seguinte.
204 ^s brilhantes do brasileiro
Folgando de palestrar, succederam variados os
assumptos. Fallou da emigração, das esperanças
d'aquelles dias, das batalhas do Porto, da bravura
dos paisanos, das proesas do libertador, e terminou
dizendo com um remoqueador sorriso de elevada
critica :
— Sabe vossa excellencia o que venceu a guerra?
Não foi a idéa da pátria, nem o ódio do despotis-
mo, nem o amor á liberdade. Foi D. Pedro ter fe-
chado o Brasil no caso de lhe cá espedaçarem o es-
tandarte aventureiro, e foi cada homem do Mindello
defender a vida própria da forca ou do desterro, e
foi cada cidadão da cidade eterna ser obrigado a de-
fender a esposa e os filhos. Uma vez perguntava
D. Pedro no Porto, a um velho, que sahia armado
e trôpego, a um toque de rebate : tTambem tu, meu
velho?! e o velho respondeu: aTambem eu, meu
diabo ! Por causa de vossa magestade estou eu aqui
a defender os meus netos.» Esta resposta é a his-
toria do triumpho prodigioso de D. Pedro.
Estendeu o conde a sua diatribe politica, desem-
bestando, contra generaes e estadistas, acerados dar-
dos, dignos do artigo de fundo da imprensa politi-
ca portugueza. Todavia, um ponto lhe esqueceu im'
portantissimo : e era explicar a sua condescendên-
cia no aceitar e pagar um titulo lembrado a el-rei
pelo então ministro da guerra, camarada do bravo
Simão de Noronha. Convinha lhe exemplificar o des-
preso das mercês em conformidade com o seu des-
dém da liberdade que boa ou má elle ajudara gran-
demente o implantar. Perdôe-lhe, porém, o máo hu-
mor civico em desconto das amarguras da velhice.
I
Os brilhantes do brasileiro 2o5
e da roaz concentração em que a cegueira o pozera,
insulado de toda a sociabilidade.
— E' pena — lastimou o cavalheiro — que vossa
excellencia, em annos tão carecidos dos afíagos da
família, se veja sósinho, e forçado a escutar-se in-
cessantemente em suas tristezas. . .
— Efteitos da péssima mocidade — disse laconi-
camente o velho.
— E não lhe restam parentes estimados que su-
bstituíssem a falta de filhos ?. . .
— Não, senhor.
A concisão das respostas reduzia a silencio o in-
terlocutor.
— Quer então vossa excellencia que partamos
amanhã para as Boticas ?
— Se eu não tiver peorado d'esta frouxidão que
difficilmente me deixa ir d'uma cadeira para outra,
muito me obsequiara vossa excellencia acompanhan-
do-me. Se o doutor intender que é praticável a ope-
ração, eu mandarei ir o meu escudeiro e mais
criados.
— Vossa excellencia tem os meus criados e a
mim com elles.
— Obrigadissimo a sua bondade : deixe-me abra-
çal-o, que ha muitos annos não senti alguém nos
meus braços. Parece-me que ainda é novo. . .
— Não, senhor. Tenho quarenta annos.
— Eu já era decrépito n'essa edade. Aos vinte e
seis annos imbranqueceram-me os cabellos, e aos
trinta cahiram-me. Quando voltei a Portugal, de-
pois d'um exílio de treze annos, os meus criados
perguntaram-me quem eu procurava.
2o6 Os brilhantes do brasileiro
— E já então não encontrou pessoa alguma de
família ?
— Que eu presasse... não. Tinha irmãs, que
nunca estimei, nem me estimaram. Tinha uma fi-
lha...
— Morreu ?
— Morreu.
O conde de Gondar apertou as mãos do homem,
que presava, porque sabia que lhe via as lagrimas ;
e murmurou :
— Vê ? estes olhos não tem luz, tem o sangue do
coração. Olhe que eu sou o mais castigado e des-
graçado homem que nasceu debaixo do sol. A se-
pultura repelle-me ha cincoenta annos, porque eu
morri então. Morri então, senhor. . .
E estreitava convulsamente ao seio as duas mãos
do cavalheiro.
— Está bom. .. — proseguiu elle com satisfação
— estou melhor.'., desafoguei... Sinto-metão bemf...
Quem podéra chorar uma hora em cada doze de
torturas. . .
— Já vê vossa excellencia quanto lhe seria con-
soladora uma familia. . . Foi fatal o perdimento de
sua filha.
— E vossa excellencia sabe que a perdi ?
— Sei por ter tido a honra de o ouvir, ha pouco
dizer, ao senhor conde.
— Ahl fui eu?. .
— Sim ; disse me vossa excellencia que sua filha
tinha morrido.
— Viva ou morta. . . morreu. Nunca ouviu fallar
d'ella ?
Os brilhantes do brasileiro 20j
— Não, senhor.
— Esqueceram-na todos ! Ninguém aqui em Pon-
te.. . nem os Abreus lhe fallaram d'ella ?
— Não, senhor conde.
— E' por que ella empobreceu. . . é porque eu a
repelli . . . Despresaram-na todos, e não curaram de
saber se eu tinha rasão, ou se ella tinha infâmias
para ser despresada. . . E por isso morreu !
O flaviense não formava da intellectualidade do
conde um juizo satisfatório para uma certidão de
sanidade. Não acabava de intender se a filha do
conde era viva ou morta ; nem ousava protrahir in-
dagações irritantes da torvação menta! do velho.
Calou se, aproveitou o ensejo opportuno de des-
pedir-se, e foi indagar o mysterio de tal filha.
Os informadores disseram-lhe concordemente que
em verdade o conde tivera na sua mocidade uma
filha natural de uma celebre fidalga do seu tempo ;
mas que essa menina se havia perdido em liberti-
nagens como sua mãe.
O cavalheiro intendeu então o que era morrer^ e
condoeu-se profundamente do pae da perdida.
XXVII
Yem rompendo a luz
Francisco José da Costa foi chamado urgente-
mente para visitar um senhor conde hospedado em
Monte Alegre.
— Conde de quê ? — perguntou Angela curiosa
de saber que titular subia as montanhas de Barroso
em busca de seu marido.
— Conde de Gondar, — disse o enviado.
— De Gondar?! — observou Angela ao marido
— Cuidei que só havia o Paço de Gondar de meu
pae !
Ora Francisco não lia gazetas, nem sabia que o
general Noronha passasse a titular. Não ponderou
por isso a observação da esposa, nem inquiriu a
procedência do conde.
Chegou á casa nobre de Monte Alegre.
Levaram-no á presença d'um ancião cego, de as-
pecto cadavérico e tocantemente amargurado.
Os brilhantes do brasileiro 20g
Costa examinou-o em breve espaço, e pergun-
tou:
— Senhor conde, ha que tempo começou o seu
padecimento d'olhos ?
— Ha nove annos. Estava eu em Paris a tratàr-
me de nevralgias de cabeça.
— E quando cegou completamente ?
— Ha dois annos, tendo voltado a Paris para con-
sultar de novo os especialistas.
— Disseram a vossa excellencia que era catarata
negra a cegueira í
— Justamente ; mas era intempestiva a operação.
Depois cá em Portugal dois facultativos que con-
sultei não votaram pela operação: um d'elles pen-
dia a crer que a minha cegueira fosse paralysia.
— E' catarata negra — disse Francisco Gosta.
— Pôde operar-se ? — perguntou o conde agitado.
— Pôde, senhor conde.
— Vossa senhoria tem esperanças ?
— As que pôde ter-se em operatória.
— E espera dar-me vista ?
— Espero, creio que vossa excellencia verá.
— Feliz hora em que este amigo que está a meu
lado me levou a Ponte do Lima a noticia de vossa
senhoria ! — exclamou o conde.
— O senhor conde de Gondar — disse o cava-
lheiro de Ghaves ao operador — é o bem conheci-
do general Simão de Noronha.
Gosta fitou o semblante do cego, e baixou machi-
nalmente a cabeça.
O apresentante proseguio ;
— Eu tinha visto dois prodígios de vossa senho-
14
2IO Os brilhantes do brasileiro
ria, e assim que soube dos padecimentos de sua
excellencia animei-me a solicitar a sua vinda com
grande confiança na pericia do senhor doutor.
— Agradeço a vossa excellencia a confiança im-
merecida com que honra o pouco que sei e valho.
Onde quer ser operado o senhor conde ?
— Se fosse possivel, na terra onde vossa senho-
ria reside — respondeu o cego.
— Nas Boticas não creio que haja casa capaz —
observou Pisarro.
— Ha — contradisse o cirurgião.
— Sim ? — accudiu o conde.
— E* a minha — tornou Costa — Se vossa excel-
lencia quizer. . .
— Quero, meu Deus, quero ; nem posso querer
outra coisa, e desde já lhe aperto as mãos com o
mais sentido reconhecimento — disse o velho com
alegria.
— Não pôde hospedar-se melhor — confirmou o
parente.
— A casa é de aldeia — tornou Costa sorrindo —
mas, em quanto o senhor "conde for cego, dispensa
o luxo dos prnatos ; e, depois que tiver vista, irá
para sua casa. O essencial é que vossa excellencia
tenha um leito, um cirurgião a ponto, e pessoas que
o sirvam. Isso lhe ofFereço.
— Não ouso dizer a vossa senhoria que remunera-
rei o que é remunerável — disse o conde — ; mas o
maior numero dos seus favores não se retribue a
dinheiro.
— O dinheiro n'estas aldeias, senhor conde —
volveu Francisco — não é extremamente appeteci-
Os brilhantes do brasiieir^o 211
vel, por que faltam cá, ainda bem^ as tentações que
o encarecem.
— Não sei — reflectiu o general — como um fa-
cultativo de tanto merecimento se aclimatou em
Barroso !
— A procura d'uma subsistência parca, bastan-
tissima á felicidade domestica.
— Então é aqui feliz ?
— Mais do que dizem que se pôde ser n'este
mundo.
— E' o primeiro homem que me responde isto !
— maravilhou-se o general volvendo a cabeça para
o lado onde sentia gente — Nunca foi infeliz ?
— Fui apenas infeliz trinta e um annos.
— E quantos tem ? !
— Trinta e três, senhor conde.
— Então a sua felicidade é recentíssima ! Encon-
trou-a aqui ?
— A perfeita, a inexcedivel encontrei-a em Bar-
roso.
— Tem familia ?
— Mulher, um filho e uma irmã.
— São as delicias da sua vida ! . . . não são ?
— Certamente... — respondeu Costa, espantado do
tom dulcíssimo com que abemolara aquellas pala-
vras a selvagem índole do pae de Angela, e do
amante de Maria d' Antas.
— Eu também fui casado — tornou o cego — e
amei extremosamente minha mulher, que morreu
de dor instantaneamente quando me viu ferido de
morte em batalha. Comprehendo esse sublime e sa-
grado amor de marido. . .
212 Os brilhantes do brasileiro
— E de pae?... Não tem vossa excellencia a boa
fortuna de ter filhos?. . .
— Não. . . não tive. . . — balbuciou seccamente o
conde, e declinou a direcção da pratica, pergun-
tando :
— Quando quer vossa senhoria que eu vá para a
sua hospedeira casa?
— A*manhã, querendo vossa excellencia. Hoje
mando dar algumas ordens ao aposento que o se-
nhor conde vae honrar.
— O' senhor doutor ! . . . beijo-lhe as mãos. E po-
derei mandar chamar um escudeiro que me trata
ha muitos annos?
— Pois não! Esperarei vossa excellencia, a me-
nos que me não dê ordem de o acompanhar desde
aqui . . .
— Não, senhor — atalhou o fidalgo flaviense — eu
acompanharei o meu amigo.
— Recebo as ordens de vossas excellencias —
disse Francisco José da Costa, e sahiu.
— Este homem pareceu-mc extraordinário ! —
considerou o conde — Tem uns. ares altivos, não
tem?
— E mais vossa excellencia não lhe viu a gravi-
dade imponente do rosto! As maneiras são de boa
sociedade, e o olhar tem uma penetração de águia.
Eu estava a gostar de o ouvir.
— Também eu ! Muito lhe devo, meu amigo ! De
mais a mais deu-me um operador sympathico, com
uma familia que me hade aligeirar as horas ! Muita
lhe devo!. ..
i
Os brilhantes do brasileiro 2j3
Entrou com tranquilla apparencia o cirurgião em
casa.
— Que tinha o conde? perguntou. Angela.
— E' cego, filha.
— Oh coitado! E cura-se?
— Cura.
— Deus o permitta. Vaes operal-o?
— Vem elle aqui operar-se.
— A's Boticas?
— A nossa casa.
— O conde vem para aqui!... ai que casa
esta ! . . .
— Não te disse que elle é cego, menina ?
— E que quarto lhe dás ?
— O nosso.
— Então seja o meu, disse Joanna.
— O nosso é melhor — tornou Francisco — Cedes
o teu quarto ao conde, Angela ?
— Pois sim, meu amor. Elle que homem é?
— Tem setenta annos.
— Tão velhinho 1 e vaes operal-o ?
— Vou.
— D'onde é elle?
— Veiu de Ponte do Lima.
— De Ponte do Lima ? De que familia ?
— Dos Noronhas Barbosas.
— Então é meu parente.
— E'; é muito teu parente; é teu pae.
— Meu pae ? !. . . Estás brincando, Francisco ?
— O cego conde de Gondar que vem para tua
casa é teu pae, Angela ; é o general Simão de No-
ronha.
214 ^5 brilhantes do brasileiro
— E elle sabe?... — exclamou Angela oíFegante
— Elle sabe. . .
— Para onde vem? não, nem quero que saiba
depois que estiver cá. Desde que elle entrar, tu
perdes o teu nome, e chamas-te... como hasde
chamar-te? Maria. Se sentires expansões de filha,
hasde reprimil-as. Pede-t'o o teu plebeu, o filho do
sacristão honradíssimo que amou seus filhos com
ternura, e se apartou d'elles promettendo-lhes vi-
gial-os do céo. O conde de Gondar aqui dentro é
um doente que se trata. De commum entre nós ha
apenas operado e operador. Tu és a esposa d'um,
e a filha repulsa e abandonada do outro. Que te
diz o coração, Angela ?
— Que elle é meu pae. .. e mais desgraçado que
eu. . .
— Pois compadece-te, ama-o, mas não me impe-
ças o restituir-lhe a vista. Quando elle te vir, hade
ser tarde; mas podes vêl-o e fallar-lhe com tanto
que immediatamente á operação, e mudados os
apositos, elle te não veja.
— Mas, logo que me veja, é provável que me re-
conheça. . .
— Se assim for, a tua dignidade te aconselhará.
Sobre tudo, é preciso que attendas aos créditos do
cirurgião. Se sobrevierem febres em resultado de
commoções violentas, perderei o prazer de mostrar
ao conde de Gondar uma família feliz sem brasão
no portal nem ouro nas arcas. Quando o conde
souber em casa de quem está, desejo muito que a
senhora de casa se faça tão somente conhecer por
filha de D. Maria d' Antas.
Os brilhantes do brasileiro 21 5
D'onde se prova que as singulares utopias no
amor dos dezoito annos similhavam muito em Fran-
cisco Costa, aos trinta e três annos, umas singula-
res utopias de dignidade humana.
XXVIII
GonMenclas do cego
Batia alvoroçado o coração de Angela quando ao
longe tilintava a guisalhada da liteira, em que en-
trava nas Boticas o conde de Gondar. Joanna e Vi-
ctorina, pasmadas da casualidade, faziam considera-
ções muito religiosas sobre o caso.
Francisco sahira á extrema da aldeia para guiar
o liteireiro. O cego, sabendo que o doutor o viera
esperar, mandou parar o vehiculo, para apertar a
mão do «segundo creador da sua luz» dizia elle.
Caminhou Gosta de par com a portinhola, e to-
mou o velho nos braços, quando a liteira parou ao
portão do quinteiro.
Angela e as outras espreitavam das janellas. Vi-
ctorina berizia-se, murmurando :
— Ai ! como elle está acabadinho ! Quem viu este
senhor ha quarenta annos !
Angela retrahiu-se da janella para limpar as la-
grimas.
Os brilhantes do brasileiro 21 j
Subiu o conde pelo braço de Francisco os pou-
cos degráos que levavam do quinteiro á saleta des-
tinada.
A melhor alfaia de assento era uma priguiceira
almofadada a toda a pressa por Angela e Joanna com
um colchãosinho de lã e chita escarlate, e dois tra-
vesseiros com suas fronhas de folhos engommados.
— Queira vossa excellencia sentar se, e reclinar-
se, senhor conde — disse o facultativo — Convir-
Ihe-ia melhor uma poltrona ; mas não a tenho.
— Isto é magnifico ! —disse o general encostan-
do-se confortavelmente — Que ar de frescura tem
esta casa ! Parece que a felicidade tem um aroma
particular, primo Pisarro !— ajuntava o general vol-
tado para onde se lhe figurava estar o fidalgo de
Chaves — Onde vossa excellencia me trouxe !... Gomo
isto me hade parecer o céo, quando eu poder vêr
a casa é os bem-aventurados que vivem n'ella!. ..
Ainda me não deu a honra de me apresentar a sua
senhora, a seu filhinho e a sua irmã, senhor Costa.
— Eu chamo-os : são os criados de vossa excel-
lencia que eu apresento. Maria e Joanna, venham
offerecer os seus serviços ao senhor conde.
Entraram as duas senhoras, e Victorina com um
menino de anno e meio no colo.
O conde fez menção de levantar-se, quando sen-
tiu frémito de vestidos.
— Não se levante vossa excellencia — susteve
Francisco — Aqui estão minha mulher e minha
irmã.
O cego estendeu as mãos, e tomou as das senho-
ras.
2l8 Os brilhantes do brasileiro
— A da esquerda qual é ? — perguntou elle.
— E' minha mulher.
— Parece-me, notou o conde, que a presença de
um ancião cego a commove sensivelmente, minha
senhora !. . . Vossa excellencia tem a sua mão tre-
mula e ardente... Se tem compaixão desta velhice
em trevas, deixe estar que seu marido lhe hade dar
a satisfação de me abrir outra vez o mundo diante
d'estes olhos.
— Deus o permitta... — balbuciou Angela.
— Pouco heide viver — tornou o conde — ; mas
eu queria ainda ver o sol, um dia que fosse, o céo
que não vejo ha dois annos, contados noite por noi-
te, porque eu nunca mais distingui o dia das tre-
vas. Vossas excellencias serão testemunhas da mi-
nha doida alegria. . . Ouço a voz d'um menino que
chama sua mãe... E' o seu filhinho, minha senhora ?
— E', sim, senhor conde.
— Deixe-me beijal-o, se elle me não tiver medo.
A creancinha foi facilmente aos braços do velho,
deixou-se beijar, c ficou a olhai- o no rosto com in-
fantil fixidez.
— Eis aqui a florinha que desabrocha sobre uma
sepultura... —disse o velho — Que mavioso grupo,
não é? Foi em França, não sei em qual palácio de
Carlos X, que eu vi assim uma pintura, e uma le-
genda que dizia: Aurora que alumia um tumulo.,.
Ora vá, vá, anjo, que deve estar admiradinho de se
ver entre as tristes ruínas d'uns setenta annos!...
Aqui o tem, senhora D. Maria. . .
Angela bem queria esconder o seu pranto do fi-
dalgo de Chaves que a contemplava como espanta-
Os brilhantes do brasileiro 21 g
do de tamanha sensibilidade ; mas a commoçao ven-
cia o infundado receio de denunciar-se.
— Senhor conde, disse Pisarro, rasão tinha vos-
sa exceli encia para suppor que a senhora D. Maria
estava compadecida. Ella ahi está com o rosto co-
berto de lagrimas.
— Obrigado á sua compaixão, obrigado mil ve-
zes,- minha senhora ! — agradeceu o cego com a voz
tremente.
— Maria, disse Francisco, dá ordem a que venha
um caldo para o senhor conde.
— Eu não tenho vontade ; mas o meu dever é
obediência ao medico — condescendeu o conde.
— E vossa excellencia jantará um pouquinho mais
tarde — continuou Gosta, dirigindo-se ao parente do
conde.
— Eu vou retirar-me porque me esperam em
Monte Alegre, e almocei para jantar á noite. Voltarei
aqui, se me dá licença, de três em três dias.
— Sempre que vossa excellencia queira honrar-
me. Depois de amanhã hade ser operado o senhor
conde. Mandei chamar um ajudante a Chaves, e só
então aqui estará.
Retirou-se o flaviense, felicitando o primo pela
ventura de ter achado o seio de tão carinhosa fa-
mília.
— Quando aqui estiver três dias, cuidarei que é
a minha — disse o cego tomando o caldo das mãos
de Angela, emquanto Joanna lhe aconchegava as
almofadas para encosto dos braços.
E, no correr d'este lance, Victorina com as mãos
postas, e os beiços chegados ás pontas dos dedos,
220 Os brilhantes do brasileiro
€ a cabeça um pouco inclinada, não desfitava os
olhos absortos da cabeça de Simão de Noronha.
Estava ella comparando o gentil capitão de ca-
vallaria, o mancebo dos olhos negros e tez morena,
o fragueiro caçador que ensinava cavallos a galgar
penedias, cmfim, o galhardo amante de D. Maria
d'Antas. E, quando a idéa da veíha tropeçava n'este
nome, como n'um tumulo, queria ella ver, á beira
do ancião, o espectro terribilissimo d'uma mulher
estrangulada.
Ao outro dia, o cirurgião foi vêr os seus infermos
no circuito de algumas léguas, recommendando á
esposa :
— Sê o que deves ser, minha filha. Sopeza o co-
ração, se o sentires mais pusillanime do que eu de-
sejo.
— Conta commigo, Francisco. Elle não me vê
chorar.
As duas senhoras sentaramse em frente do ca-
napé, costurando nas faixas e pannos necessários
para o curativo. Antoninho agatanhava á priguicei-
ra, e passeava amparando se á beira do estofo ou
aos joelhos do cego, que nunca o deixava passar
sem um beijo. A creança ria ás guinadas, quando
vingava illudir o velho, que se fingia zangado com
o engano.
Quem seis dias antes tivesse visto no palacete
de Ponte o solitário cego, de fronte abatida para o
peito, braços pendidos, ou agitados a espancar as
trevas interiores em busca de um lampejo que lhe
deixasse entrever a vida d'além tumulo I Quem ago-
Os brilhantes do brasileiro 221
ra o visse na casinha das Boticas, a brincar com um
menino, a rir das creancices que não via, a folgar
que Joanna lhe descrevesse as cabanas da aldeia,
os trajos das barrozans, a sua maneira de dizer, as
bagatellas com que pessoas alegres costumam ali-
geirar as horas ! . . .
Esta incongruente transfiguração quem na ope-
rou ? A esperença da luz ? o contacto da familia fe-
liz ? a influencia mysteriosa do que ha ahi sem no-
me e sem idéa nos actos da Providencia ?
Tudo isto e o mais que possa occorrer ás almas
intelligentes de espiritualismo, não nos dá a causa
de tão capital mudança.
Eu ousaria explicar tudo em pouco. A palavra
Deus abrange o incógnito de céo e terra, o incom-
prehensivel da alma, e o insondável liame de coisas
que a rasão natural, de pouco alcance mas inflexi-
velmente orgulhosa, capitula de paradoxos. Deus.
Por que não?
Se Simão de Noronha delinquira, o açoute da jus-
tiça não lhe estalava desde o instante da ira, nas
fibras do corpo ? Não se lhe apagou primeiro lá den-
tro a lâmpada da fé ? Não lhe tirou Deus o amor
paternal para o privar da ternura da filha? Não lhe
fez odiosa a sociedade para o infernar bem dentro
de si mesmo ?
Pois se é racional reconhecer a Providencia na
expiação de tão longo praso, será absurdo reconhe-
cer-lhe a misericórdia n'aquelle diluculo de contenta-
mentos, apoz quarenta annos de noite, de ira, de
tédio, de atheismo, de remorso, e de inferno ?
222 Os brilhantes do brasileiro
Alegremente, pois, dizia o conde :
— A senhora D. Maria falia muito pouco. A se-
nhora D. Joanna é mais conversadora.
— Eu fallo pouco, senhor conde?. . . Tenho um
génio melancólico. . . — disse Angela.
— Ainda lhe não disse, minha senhora, que o seu
metal de voz desperta-me recordações tristes ; e
não obstante, consolome de a ouvir. Conheci o tim-
bre da sua voz não vulgar em duas pessoas. . .
Angela e Joanna entre-olhavam-se suspensas dos
tardos dizeres do conde. Elle, porém, recolheu-se,
abateu o rosto cabido e como subitamente macerado.
— Está tão triste, senhor conde ! — disse Joan-
na— Não queremos vêl-o assim!... Não pense
no passado. Lembre-se só de que vae recuperar a
sua vista. . .
— Para ver sepulturas, e ver também onde hei-
de abrir a minha. . .
— Para ver as pessoas que lhe desejam muitos
annos de alegria, e uma é minha irmã... Maria,
outra sou eu, e meu mano... Aqui tem já vossa
excellencia três pessoas que lhe querem muito...
— E eu sei quanto pôde a commiseração em suas
excellentes almas, minhas senhoras... Os incom-
modos que eu tenho já dado para me não faltar ne-
nhuma d'estas niquices de velho, e de cego... A
pobre Victorina toda a noite, assim que eu gemia,
estava ao meu lado. . Penso que era ella ; que d'uma
ou duas vezes quem me fallou foi a senhora D. Ma-
ria, não foi ?
— Fui, senhor conde. Eu estava ainda a pé nas
minhas resas, e mais minha irmã.
Os brilhantes do brasileiro 223
— Peçam a Deus por mim, virtuosas senhoras.
— Pedimos, pedimos, senhor conde — disse Joanna.
— O doutor por lá anda a moirejar na vida de
cabana em cabana. .. — disse o conde.
— E' verdade. Tem dias que sae ao romper d'al-
va e recolhe alta noite — respondeu Angela.
— Que voz a sua minha senhora ! — repisou o
cego bamboando a cabeça — faz-me sentir espanto-
sas hallucinaçoes í. . .
— Mas eu queria que a minha voz o não morti-
ficasse, senhor conde. ..
— Não me mortifica ; enche-me o coração de. . .
— Saudades ? — perguntou Joanna com susto, em
quanto Angela lhe fazia signal para não insistir em
taes indagações.
— Saudades... e agonias sem nome... Heide dizer
verdade a vossas excellencias... Na minha mocidade
amei uma dama, cuja voz era a da sr.*D. Maria; e
tive uma filha, que também assim fallava... Agonias
e saudades... é o que me resta de ambas. .. Está
bom... — suspendeu-se o conde sacudindo a cabeça —
Está bom !. . . Ora que nem aqui me deixam estas fu-
nestas memorias !... Eu estava a dizer que dei mui-
to incommodo esta noite... A'manhã deve ahi chegar
o meu escudeiro, um criado que tem quarenta e tan-
tos annos de casa, que me tem aturado muito, e
que ficará ao pé da minha cama para vossas ex-
cellencias e a sua criada poderem dormir descan-
çadas.
Angela, olhando para Joanna, abriu a bocca em
atitude de susto, quando ouviu dizer que vinha o
escudeiro. João Pedro reconhecel-a-ia logo, e com
224- Os brilhantes do brasileiro
qualquer palavra de espanto perturbaria o animo do
pae.
— Seu marido é natural do Porto? Sr.* D. Ma-
ria ? — perguntou o cego, apoz longa pausa.
— Sim, senhor — titubeou Angela.
— E vossa excellencia também ?
— Sim, senhor.
— Queria-lhes fazer uma pergunta ; mas bem co-
nheço que é ociosa...
— Que era, senhor conde? — insistiu Joanna.
— Se tiveram alguma vez noticia de existir no
Porto um brasileiro de Barrosas, de quem me não
lembra o nome, casado com uma senhora chamada
Angela, que depois enviuvou, e casou segunda vez...
Angela fez á cunhada um signal negativo.
— Nada, não conhecemos, nem ouvimos fallar...
— Logo vi. Vão lá saber em terra tamanha...
— Mas, se se pedissem informações... — lembrou
Joanna.
— Já as mandei procurar...
— E não soube nada ?
— Soube o que disse, minhas senhoras : que An-
gela enviuvara, casara segunda vez, e sahira não se
sabia para onde.
— Vossa excellencia mandou ha muito saber? —
perguntou Joanna.
— Ha três mezes o meu escudeiro; por lá andou
cinco dias.
— E essa senhora... — balbuciou Angela.
— Seria parenta do senhor conde ? — interveio
Joanna.
— Era uma infeliz, filha d*um homem, que tinha
Os brilhantes do brasileiro 225
sido bom, e infortúnios grandes desvairaram e pre-
verteram. Afinal, esse homem como se tinha sepul-
tado vivo, perdeu nas trevas, onde se abysmou, al-
ma, coração, honra e tudo. Deus, que o precipita-
ra, levantou-o um dia, não sei se para lhe acrescen-
tar o supplicio, renascendo lhe o coração e sentimen-
tos de amor a sua filha. Procurou-a então; mas...
tarde.
Escutaramno silenciosas e estupefactas as duas
senhoras.
A conversação foi interrompida pela entrada do
cirurgião, porém, o conde, azado o ensejo, prose-
guiu:
— Sr. Costa, eu quero dever lhe uma grande
fineza !
— Mande-me vossa excellencia.
— Estas senhoras já me ouviram com muita pa-
ciência e compaixão fallar d'uma filha que tive...
Francisco olhou com assombro para ambas.
Simão de Noronha continuou :
— Heide pedir-lhe que empenhe as suas amisades
e relações no Porto para descobrir-se o destino de
uma senhora, de nome Angela, casada que foi com
um brasileiro, já fallecido, e casada depois com não
sei quem. O meu escudeiro que chega talvez ama-
nhã pôde dizer a vossa senhoria o nome do brasilei-
ro, com o qual a indagação nos levaria a descobrir
a paragem de minha filha.
— Promptamente escreverei a pessoas que hãode
conseguir o que for possivel — disse Francisco sen-
sivelmente perturbado — Tenha vossa excellencia
esperanças; mas que não venham alvorotar-lhe o
i5
220 Os brilhantes do brasileiro
espirito. Precisamos de toda a sua placidez nervosa,
e de completa inacção de espirito. Depois que vossa
excellencia estiver no goso da sua vista, buscaremos
tudo que possa impressional-o alegremente. Se sua
filha existir, ella será também comigo portadora de
luz: eu, a dos olhos ; ella, a da alma.
u
XXIX
Luz!
Estão prestes o operador e o ajudante.
Angela, baldado o esforço que empregou para as-
sistir, affastou-se pallida e tremula, para o seu ora-
tório.
Joanna e Victorina assistiam para coadjuvar o
operador.
O conde treme.
— General ! — disse Francisco Costa — Quem se
enrostou com os esquadrões de cavallaria de Cha-
ves imperturbável, não desmaia diante d'uma lami-
nasinha de aço.
— Tremo de medo; mas não é medo do golpe.
Se depois de me rasgar as névoas, doutor, eu não
vejo mais que trevas !
— Será ver o que ninguém viu, senhor conde. Ver
trevas, é vista dupla, que eu não prometto dar a
vossa excellencia. Basta que veja a luz — replicou
jocosamente o operador — Não obstante, eu encon-
228 Os brilhantes do brasileiro
trei essa imagem em Milton, que tinha a authori-
dade de cego.
O operador escolheu o methodo da extracção.
Atravessada com o kératotomo a córnea trans-
parente, o humor crystallino, cuja opacidade impe-
dia a impressão dos raios visuaes, depois de compri-
mido o globo brandamente, destacou-se, e sahiu no
gancho de Wenzel.
Terminada a operação, o conde viu a mão do
operador, tomou-a nas suas e beijou- a.
— Vi 1 meu Deus ! Vejo o seu rosto, sr. Costa —
exclamou Simão de Noronha — Aqui estão duas
senhoras, não estão ? . . .
— E' minha irmã e Viciorina.
— E sua senhora ?
— Está preparando compressas.
— Eu queria vêl-a. . .
— Noutra occasião. Vamos já collocar os appo-
sitos.
— Já ? ! Mais quantos dias cego !
— Quarenta e oito horas em que vossa excellen-
cia, pensando nos cegos irremediáveis, cuidará que
as horas são instantes.
Conduzido para o leito o operado, em quarto
quasi de todo escuro, assentaram-lhe chumaços mo-
lhados sobre os olhos cingidos de ligaduras.
Terminado o curativo, Angela voltou, apertou a
mão do pae, e disse-lhe estremecidamente :
— Parabéns para vossa excellencia e para nós,
senhor conde !
— Não tive a fortuna de vêl-a, sr.* D. Maria !. . .
— queixou-se o velho.
Os brilhantes do brasileiro 22g
— Estava lá dentro. . r
— E não esteve aqui em quanto me operaram ?
Não a senti. . .
— Estava pedindo a Deus por vossa excellencia.
— E' um anjo, minha querida senhora! Esta ca-
sa... toda ella é um sanctuario. . . Olhe que vi
seu marido. Já o conheço. Tem um bello aspecto !
E' trigueiro e muito barbado, não é ?
— E', sim, senhor conde.
— Sua cunhada não a divisei bem; mas pareceu-
me branca e magra, não é ?
— E' sem duvida.
— A criada conheci que era velha; mas estava
encuberta pela sr.* D. Joanna. . .
— As velhinhas escondem-se — occorreu a jovial
Victorina — E' o que faltava apparecer uma velha
carcomida logo de pancada a um senhor que não
via creatura viva ha dois annos !
— Pois quero e desejo vêl-a, e muitas vezes,
sr.* Victorina. Tem-me tratado com muito amor.
Já tive outra criada com o seu nome. Onde isso
vac ! Ha bons trinta e dois annos que a não vejol...
— Já deve ser da minha edade então... — obser-
vou a velha, tregeitando para as damas.
— Sim, se vocemecê anda pelos setenta. . .
— Setenta! Deus nos acuda!... Pois eu tenho
lá setenta annos!
— Então quantos tem vocemecê ?
— Fiz sessenta e nove ha seis mezes.
— Ah! então recolho o meu juizo ! — casquinou
o conde — Está vocemecê muito nova, sr.* Victori-
na. Cuidado com as iliusões da mocidade, menina!
23o Os brilhantes do brasileiro
Riam as senhoras, e Victorina continuou a pro-
vocar as jocosidades do conde, que eram ouvidas
com admiração, mormente pela filha que, nos raros
dias de convivência com seu pae, o não vira sorrir
uma vez só.
Quando, ao cahir da tarde, se annunciou a che-
gada de João Pedro, sahiu a encontral-o no quin-
teiro Angela.
O velho embasbacou, e encostou-se á mula, de
que desmontara, por que as pernas lhe faltavam.
A filha do conde de Gondar em poucas palavras
illucidou-o sobre o que lhe convinha fazer para que
a cura de seu pae não fosse perturbada por alvo-
roços de espirito ou nevralgias que lhe irritassem
os olhos.
Logo que o ensejo se apropositou, Francisco Cos-
ta, estando já precavido o escudeiro, volveu a fal-
lar ao conde no seu intento de procurar Angela.
— Ahi está João Pedro que dirá a vossa senhoria
o nome do homem com quem minha filha foi ca-
sada.
O escudeiro custava-lhe a conter em posição si-
suda as mandibulas abertas pelo riso, quando res-
pondeu, voltado para Angela :
— Chamava-se Hemorragilde.
Abafaram todos o froixo da gargalhada, tirante o
conde que murmurou :
— Vejam que nome! Parece gothico; mas ainda
parece mais nome de moléstia... Hemorragilde!...
■— Se o senhor conde permittir — diss^e o cirur-
Os brilhantes do brasileiro 2S1
gião — vae João Pedro ao Porto com cartas minhas,
visto que o dispensamos aqui, e pôde lá fazer bons
serviços ao nosso intento.
— Pois que vá onde vossa senhoria ordenar —
annuiu o conde.
— E, segundo as noticias que nos for communi-
cando, vossa excellencia ordenará o que hade fazer-
se. Conjecturemos que elle encontra a sr.* D. An-
gela. Que manda o senhor conde que elle diga a
sua fílha ?
— Que immediatamente venha para minha com-
panhia— deliberou sem detença o general — que não
espere novas ordens ; que se recolha á minha casa
de Ponte, e espere por mim... e por todos nós...
por que vossa senhoria e estas senhoras iriam co-
migo, não é verdade ? iriam ser testemunhas da fe-
licidade que me começou no seio caritativo e amo-
roso d'esta familia...
— E, se sua filha, senhor conde, quizesse vir aqui
mesmo encontrai o, não seria isso antecipar-lhe a ella
o jubilo de lhe beijar as mãos ?. . .
— Sim...; mas eu queria poder vêl-a... Se ella
viesse em quanto dura esta escuridão, seria grande
e dolorosa a minha anciã. . .
— Concordo, e aconselho até, que ella venha depois
que vossa excellencia estiver convalecido — obtem-
perou Francisco.
— Mas o doutor parece que dá a vinda como pos-
sível ! — admirou o conde.
— Pois não é possível?! Afigura-se-me até pro-
vável... O impedimento único seria ter ella morrido.
Se existe, heide descobrila mediante as diligencias
232 Os brilhantes do brasileiro
dos meus amigos. Encontrada ella, tem vossa excel-
lencia a sua filha nos braços.
— E, se ella m'os repellisse!... — conjecturou o ve-
lho, quebrado do vigor com que estivera dialogando.
— Seria incrivel !... — objectou o marido de Angela.
— Eu também a repelli... — contraveio o conde.
— Tão justificados seriam os motivos...
— As calumnias, e mais que tudo... a terrivel doen-
ça da minha alma... a peçonha que m'a queimava...
a desesperada tristeza que me ia levando á demên-
cia, e me deixou o peor... que foi a vida, a consciên-
cia dos meus crimes encadeados uns n'outros, como
os fuzis do grilhão que amarra o criminoso ao ce-
po... Ahi vem o meu demónio... — disse reconcen-
trado o conde . . .
— Mal vamos assim! — acudiu o facultativo, to-
mando-lhe o pulso — Senhor conde, domine-se, ar-
ranque-se d^essas intermittentes, pelo menos em
quanto não estiver inteiramente restaurado.
— Senhor conde I — rogou ternissimamente Ange-
la— peço-lhe pelo divino amor de Deus que não se
afflija. . . Diz-me o coração que sua filha o ama, e
lhe dará annos de muita alegria e socêgo d'alma.
Verá que não me engana o presentimento... O seu
mordomo vae amanhã para o Porto. D'aqui a oito
dias pôde muito bem acontecer que sua filha aqui
esteja, a pedir-lhe perdão, se cahiu n^algum erro...
— Não cahiu: — exclamou o velho — precipitaram-
na; fui eu, foram todos os que deviam amparal-a
com o seio, com o coração, se ella pendesse a
cahir. . .
— Pois bem, senhor conde; melhor assim: não
05 brilhantes do brasileiro 233
terá vossa excellencia difficuldade em perdoar-lhe,
nem ella ousará accusar seu pae nem seus paren-
tes.
— Se ella estivesse no seu coração como está na
sua voz, minha senhora I — murmurou o velho, es-
tendendo-lhe a mão para lh'a apertar em impulsos
de reconhecimento. . .
João Pedro foi para casa d'um lavrador da fre-
guezia, levado pelo doutor sob qualquer pretexto,
e ahi esperou as ordens, contentissimo de ter parte
no feliz desfecho que promettia o enredo da recon-
ciliação entre a fidalga e seu pae.
Em quanto corria o tempo necessário a dissimu-
lar a ida do mordomo e vinda da resposta, exami-
nou Francisco os olhos do conde, e exultou. A ci-
catrisação era excellente. A photophobia era quasi
nulla. O velho já via atravez de lentes escuras gra-
duadas as miudezas dos objectos, bem que a insis-
tência lhe desse vagados e ligeiras dores. Ainda as-
sim, Francisco ordenou que continuasse a escurida-
de no quarto.
Entretanto, lamentava o conde que D. Maria esti'
vesse na cama soíFrendo uma impertinente enxaque-
ca, ao tempo que elle tirara o apposito; e que as tre-
vas do quarto fossem tantas que elle não podia des-
tacar-lhe as feições, por que via tudo a vulto.
Passados os dias convenientes á simulada inda-
gação. Costa, fingindo alvoroço, disse ao conde :
— Alviçaras ! — Aqui está carta de João Pedro
para vossa excellencia.
234 Os brilhantes do brasileiro
— Alviçaras ! — disse o conde — Pois quem sabe
o que ahi vem ?
— Se elle não encontrasse boas novas, é natural
que voltasse logo, ou escrevesse mais tarde.
— Leia, leia então, meu amigo.
A carta dizia que a sr.^ D. Angela, no dia imme-
diato, sahia para as Boticas, com seu marido e fi-
lho. Acrescentava que a fidalga vivia muito pobre,
e casada com um plebeu.
— Ella será rica, e elle nobre... — murmurou o
senhor do paço de Gondar.
— Todavia, observou o filho do sacristão — mais
grato seria a vossa excellencia que ella houvesse
casado com um homem de geração histórica.
— Todas as gerações são históricas, sr. Costa —
acudiu o conde — A geração da plebe franceza da
minha mocidade é a mais histórica de quantas hou-
ve. Está enganado, doutor, comigo, pelo menos. Eu
casei com uma pastora dos rebanhos dos meus ca-
seiros. Ghamava-se Josefa Salgueira. Amei-a como
se ella descesse d'um throno para me receber. Ao
mesmo tempo que a pastora morria de dor por me
ver ferido, a imperatriz da Rússia era uma devassa,
e a rainha de Portugal era. . . a esposa do sr. D.
João VI. . . Vamos ao caso: vem minha filha ? Dê-
me agora os parabéns, e deixe-me apertar-lhe a mão
de prophetisa, sr." D. Maria. . .
— Vae ver a sua filha. . . — balbuciou Angela —
Que transportes de santa alegria vae ter a ditosa
senhora I . . .
— Que tem de mais a mais um filho para brin
car com o Antoninho. . . — acrescentou o general
Os brilhantes do brasileiro 235
com pueril contentamento, rindo com extranho ges-
to — O' doutor, n'esse dia dá-me luz em abundân-
cia ? Entra o sol n'este quarto ?
— Sim, senhor conde. N'esse dia, luz á descri-
pção !
XXX
Finalmente
E o dia chegou.
Angela, de manhã, pediu vénia ao conde para ir
esperar a Monte Alegre sua filha.
— E' grande honra que ambos recebemos — agra-
deceu o velho — mas, minha senhora, peça a seu
marido que me tire dos olhos estes veosinhos es-
curos, e consinta que me entre uma resiea de sol
á chegada de Angela.
— Eu vou recommendar o seu justo pedido, se-
nhor conde — disse Angela, e simulou sair de casa.
Francisco substituio os vidros por outros mais
claros nos olhos do convalescente e mandou abrir
as janellas da saleta, por feição que o interior da
alcova recebesse bastante luz.
O rosto do velho banhara-se de consolação, ven-
do distinctamente Joanna, e o menino que lhe brin-
cava com os óculos, pondo-os no próprio nariz e
chamando-se papão.
Os brilhantes do brasileiro 23 j
— Venho ajudalo a vestir, senhor conde — disse
o facultativo — Pôde vossa excellencia passar da
cama para a priguiceira, se lhe apraz.
— Se eu podesse. . . Mas as pernas, doutor?
— As pernas hão de ser medicadas com bifes e
vinho do Porto. Queremos exercicio, apetite, e bom
estômago. Toca a levantar, meu general.
Ergueu-se trôpego e amparado a Francisco. De-
pois de vestido, olhava para o sobrado, e chorava
de alegria, dizendo :
— Já vejo o chão que piso... Sahi da sepul-
tura . . .
— Ora, senhor conde — tornou o marido de An-
gela, depois que o reclinou no canapé — Vossa ex-
cellencia deve preparar-se para ver sua filha, como
pae, mas também como homem. Se receia grande
abalo, predisponha-se para rebater as expansões no-
civas á sua compleição debilitada.
— Não hada haver duvida. Já estou preparado...
Sinto o coração; mas coração de setenta annos.
Annunciou-se a chegada de Angela :
O conde sentou-se com esforçado ímpeto.
— Então ! — acalmou Francisco — Não quero gran-
des movimentos, senhor conde ! . . .
— Oh doutor ! Não me deixa ser ao menos pae l
sorriu o velho.
Angela entrou vestida como enr» casa, apenas co-
berta d'uma capa de panno preto. Acercou-se do
pae, ajoelhou, e abraçouo pela cintura. O conde in-
clinou a face para a cabeça d'ella, e murmurou:
— Deixa-me ver a tua face, minha filha.
Angela encarou-o entre risonha e lagrimosa. O
238 Os brilhantes do brasileiro
velho contemplou-a com a fixidez d'uma vista dé-
bil, beijou-a na fronte, e disse :
— Bem vinda sejas!... E's a minha pobre Ange-
la !.. . Perdoa á tua fatalidade e á minha. . . levan-
taste, e senta te aqui ao meu lado.
Joanna, Victorina, e João Pedro choravam solu-
çantes.
— Por que chora esta gente ? — perguntou o ge-
neral.
— A satisfação de ver Deus n'este lance — disse
Fi^ncisco.
— Então alegrem-se ! — tornou o conde — Angela,
que é de teu marido e de teu filho ?
— Meu marido está aqui. . . — e apontou Fran-
cisco.
— Onde ? Quem ? teu marido ! . . . quem é?
— Eu, senhor conde — disse Gosta, inclinandose
a beijar-lhe a mão. — Antoninho, vem cá...
A creancinha correu aos braços do pae, que o
levantou aos lábios do avô.
— Deixem me pensar n'isto que é um sonho, meu
Deus! — volveu o general — Tu, Angela... és a
esposa. . . de Francisco Costa. . .
— Sou, meu pae . . .
— Estou portanto em casa de minha filha. . . do
meu genro... E's o anjo que me velavas de noi-
te... és, minha Angela ? Aqui me trouxe Deus, a
restaurar a luz da minha alma, e a descerrar as tre-
vas dos meus olhos para vos vêr, meus filhos !
— Senhor conde — disse o cirurgião muito com-
movido — Eu queria evitar-lhe lagrimas; mas não
sei se me enganaria^ por que também comigo me
Os brilhantes do brasileiro 23g
enganei. O que mais me commove é pensar eu que
vossa excellencia tardou tanto em procurar o puro
e santo coração de Angela. Eu oíFereço a vida de
meu filho a Deus que me castigue o temerário ju-
ramento : juro por Deus que não ha uma nódoa na
alma de sua filha, senhor conde. Eu, marido d'ella,
defendo a, perante seu pae, por que ninguém mais
se erguerá contra o mundo que a calumnía. Eu,
operário pobre, cirurgião n'estas pobres montanhas,
não encareço as virtudes da filha do fidalgo abasta-
do: exalto a, porque é ella a companheira da mi-
nha vida honrada, será sempre a graça divina que
cobre do ouro da alegria estas paredes nuas, este
desaconchego de regalos, isto que vossa excellencia
já vê com seus olhos. Não demorarei a explicação
do processo um pouco estranho por que vossa ex-
cellencia veio a encontrar Angela, podendo desde
que aqui entrou saber que era ella quem passava
as noites á cabeceira de sua cama. Eu receiei que
o senhor conde despresasse ainda sua filha quando
entrou n'esta casa. Conheci que felizmente me en-
ganara; mas sobreveio o medo dos incidentes fataes
da operação, quando grandes excitações moraes im-
plicam a placidez do curativo. Quiz preparar o seu
animo com delongas; prevenil-o de hora a hora
para receber sua filha sem surpreza. Esta de ser
ella a esposa do seu facultativo cuidei eu que seria
grata a vossa excellencia. Não será de vexame ao
nobre conde que o marido de sua filha seja o cirur-
gião que teve a ventura de lhe abrir os olhos para
que visse a creatura feliz, que primeiro trilhou to-
das as vias dolorosas por onde pôde ir a honra de
240 Os brilhantes do brasil eiró
uma mulher até ao calvário, em que o mundo cos-
tuma crucifical-as na ignominia. Ella ahi está, se-
nhor conde, a sua filha Angela. Ainda vossa excel-
lencia não viu ao lado d'ella a sua antiga criada que,
desde os dois annos, a acompanhou, e lhe matou a
fome com os cordões ganhados no serviço de seu
pae e sua tia.
. — Es tu, Victorina ! — exclamou o conde —Pois
tu vives, mulher, e não abraças o teu amo !
— Não, que vossa excellencia chamou-me velha,
e fez rir as minhas amas, a zombar de mim !
E, dizendo, abraçou-se-lhe aos joelhos, e beijou-
lhe as mãos, lavando-lh'as de lagrimas.
N'este lance annunciou-se o primo Pisarro, com
outros fidalgos flavienses que pediam a honra de
ser apresentados ao senhor conde de Gondar.
— Que entrem — disse o general — Mando como
em casa tua, minha Angela.
Pisarro foi com os braços abertos felicitar o ve-
lho que exclamou:
— Sahiu-me a cara que eu imaginava, primo Pi-
sarro. Parece-se bastante com o general seu tio.
Aqui estou com os meus olhos envidraçados; mas
conheço tudo que Deus creou, e já sei que heide ir
vendo terra até ella se abater debaixo dos meus
pés. Apresento a vossa excellencia e aos seus ami-
gos que me honram, Angela da Costa, futura con-
dessa de Gondar.
— Quem?! — inquiriu o pávido fidalgo.
— Angela, minha filha, casada com meu genro o
sr. Francisco José da Costa. Agora, minha querida
Angela, se crês que Deus tem na terra òs seus
Os brilhantes do brasileiro 241
agentes para os grandes fins de premiar ou punir,
vae abraçar aquelle cavalheiro que foi o mensageiro
providencial que me trouxe aqui.
Angela inclinou-se aos braços respeitosos de Pi-
sarro, que, mal cobrado do seu assombro, disse:
— Sr.* D. Angela, vejo que Deus tomou a si o
encargo de a vingar da sociedade.
lò
CONCLUSÃO
Restaurado de forças physicas á proporção que
a alma lhe remoçava, o conde ordenou, em tom
militar, que toda a sua família das Boticas se trans-
ferisse para Ponte do Lima. Francisco José da Costa
contrariou seu sogro, allegando que se tinha con-
tratado por tempo de três annos com o município,
e não podia deixar os seus doentes, sem que o seu
logar estivesse occupado. O conde tacs artes usou,
de intelligencia com Pisarro, que dias depois um
medico, com vantajosíssima ofterta pecuniária do
conde, se offerecia a substituir Costa.
Mudou-se a família para Ponte.
Dias depois, Angela era agraciada com o titulo
de condessa de Gondar, e seu marido participante
do titulo em duas vidas.
Francisco Costa, lendo o ofíicio do ministério do
reino, dirigiu se ao sogro, e disse risonho :
— Um operador de cataratas conde! Meu queri-
Os brilhantes do brasileiro 243
do amigo! não queira vossa excellencia afugentar
de mim os doentes pobres que precisam dos meus
serviços ! Os enfermos indigentes que tem um col-
meiro de palha como leito não ousariam chamar á
sua caverna um conde. O pobre que se chama sim-
plesmente Francisco folga e alegra-se de poder cha-
mar sr. Francisco ao irmão que lhe faz a receita.
O titulo que vossa excellencia pode sem custo e
com muitíssimo proveito dar ao marido da condes-
sa de Gondar, é permittir que ella pague do seu
bolsinho ao boticário as receitas que eu mande
aviar, e darm'a também como auxiliar na cura dos
pobresinhos que adoecem de fome e frio.
O conde de Gondar viveu dez annos a mais di-
tosa existência de velho. Ainda viu seis netos á
volta d'elle, perfumando-lhe de primaveras aquelles
dez invernos cheios de sol.
Morreu aos oitenta, encostando serenamente a
face sobre o braço da filha, que lhe dava a oscular
a Cruz de Christo.
Um anno antes tinha descido abençoada á sepul-
tura aquella primorosa Victorina, legando os seus
cordões restaurados, e um bom casal que lhe dera
Angela, á filha mais velha de sua ama.
Vivem actualmente a condessa de Gondar, o ma-
rido que ficou sempre Francisco José da Costa ^
seis filhos, o mais velho dos quaes, aquelle Antoni
nho, nascido nas Boticas, é o mais requintado aris-
tocrata do Minho, e turde os seus condiscípulos da
universidade contandolhes legendas do Paço de
Gondar, de que elle vem a ser o vigésimo senhor.
244 ^5 brilhantes do brasileiro
A legenda que elle ignora é a de sua avó D. Maria
d'Antas.
Angela tem hoje quarenta e nove annos. As ru-
gas não ousam ainda combater a mocidade renasci-
da n'aquelle coração. Cinco meninas formosas que
a seguem á missa passam pelo desgosto de ouvir
dizer :
— A mãe é melhor que as filhas.
Quem ainda vive, a competir com os velhos ro-
bles do Paço de Gondar, é João Pedro, que pediu
a sua reforma, e está feitor nominal do condado.
Na véspera de • Natal vem sempre a Ponte con-
soar com Ota sua gente» diz elle. E depois que as
rabanadas e o Porto lhe aguçam a memoria, cos-
tuma dizer todos os annos, a sós com Angela :
— O' senhora condessa!. . . mal diria eu quando
a vi casada com aquelle Hemorragildel. . .
Angela, com quanto já conheça de antemão, o
gracejo obrigado da noite de Natal, applaude sem-
pre com uma risada e dois piparotes nas orelhas
musgosas do macrobrio.
EPILOGO
Concluido o livro, suja se uma verdadeira lauda
com as escavações que mandamos fazer nos pânta-
nos d'esta historia.
Descobriu-se, atravez dos fétidos esgotos, que os
três amigos e herdeiros de Hermenegildo Fialho de
Barrosas ainda respiram e medram.
Athanasio José da Silva é barão da Silva
Pantaleão Mendes Guimarães é barão de Mendes
Guimarães.
Joaquim António Bernardo, como não tinha apel-
lido, apossou se da quinta dos Choupos que lhe
fora hypothecada na divida fantástica de Fialho,
e fez-se barão dos Choupos.
Ainda ha mais um titulo.
O marido de Rosa Catraia, retirado á terra onde
nascera, Cabeceiras de Basto, fez-se influente poli-
tico, principiando em regedor, depois camarista,
presidente do município, e administrador substituto
do concelho.
246 Os brilhantes do brasileiro
Luctador acérrimo em eleições de deputados, vin-
gou levar ao parlamento um sobrinho de Rosa for-
mado á sua custa. A commenda que o agradecido
bacharel lhe enviou, fez saltar a rolha da cornuco-
pia das graças, que mais se retorcia de vergonha
sua e da pátria, como se uma e outra podessem já
allegar pudor, e negar-se a solicitações de infames.
Rosa Catraia, é pois, baroneza de Villar d'Amo-
res, titulo um tanto lyrico e romanesco, bem ajus-
tado ás escarlates bochechas e túrgidos seios que
resumbram bestidade, saúde, alegria e lubricidade
serôdia.
As outras baronesas, bastante mais avelhentadas,
representam os estragos da corrupção moral nas pes-
soas, e o despejo da corrupção politica nos títulos.
FIM
índice
PAG.
Prefacio da segunda edição 5
I Afflicções sudoriferas 7
II 1 :65o^coo réis ! 1 3
III Retratos do natural 23
IV Tribunal de honra 27
V Considerações plásticas .... 34
VI Amigos do seu amigo 41
VII Revelações cómicas 49
VIII Revelações tristes 54
IX Amores fataes 61
X O Poeta 7 í
XI Sonhos e esperanças ^o
XII A fuga 85
XIII Desamparo 91
XIV Via dolorosa 98
XV Meio milhão ! 1 0()
XVI Por causa do fígado 120
XVII Historia dos brilhantes 127
XVIII A infamada 141
XIX Amor próprio 149
XX O doente e o doutor i55
248 índice
PAG.
XXI Morre Hermenegildo 167
XXII Felicidade suprema 172
XXIII Os homens honestos 184
XXIV A opinião publica 188
XXV O cego 196
XXVI A Providencia , 202
XXVIl Vem rompendo a luz 208
XXVIII Confidencias do cego 216
XXIX Luz ! 227
XXX Finalmente 236
Conclusão 242
Epilogo 245
J. P. OLIVEIRA MARTINS
OBRAS COMPLETAS
I. Historia nacional:
Historia da civiIíISAção ibérica, 4.* ed. (1897), 1 vol. br. 700 rs. Ene- 900.
Historia dk Portugal, 6.« ed. (1901), 2 vol., br. 1^400 rs. Ene. 1^800.
O Brazil e as colónias poRTuauBZAS, 3.* ed. (1888), J vol., br. 700 rs. Ene. 900.
Portugal contemporâneo, 3.' ed. (1895), 2 vol., br. 2^000 rs. Ene. 2^51400.
Portugal nos mares, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900.
Camões, os Lusíadas e a renascença em Portugal (1891), 1 vol., br. 600 rs.
Ene. 800.
Navegacioneb t descubrimikntos de los portugueses (ed. do Âteneo de Madrid
1892), 1 vol. (não entrou no commercio.)
A VIDA DK NUN'ALVARBS, 2.* ed. (1894), 1 vol., br. 2^000 rs. Cart. 2^^400. Ene. (fo-
lhas doiradas) Sy^200.
Os filhos db d. João i, 2.* ed., 2 vol., br. 1<J400 rs. Ene. 1^800 rs.
O Príncipe perfeito, (1895) 1 vol., br. 2^000 rs. Encad., folhas doiradas, 3^200 rs,
II. Historia geral:
Elementos de anthbopolooia, 4.» ed. (1895), 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900.
As RAÇAS HUMANAS E A civiLiSAçJío PRIMITIVA, 2 vol., br. 1^400 rs. Enc. 1^800 rs
Systema DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 2." ed. (1895) 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1^000.
Quadro das instituições primitivas, 2.* ed. (1893) 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
O REGIME DAS RIQUEZAS, 2.* ed. (1894), 1 voI., br. 600 rs. Ene. 800.
Historia da republica romana, 2.* ed., 1897, 2 vol., br. 2^000 rs. Ene. 2^400.
O HELLBNISMO B A civiLiSACÃo CHRiSTÃ, 2.* ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc. 1^000 rs.
TaboAS de CHRONOLOaiA B^OEOGKAPHIA HISTÓRICA, (1884), 1 vol., br. 1^000 rs. En-
eadernado 1^200.
III. Varia :
A CIRCULAÇÃO FIDUCIÁRIA, 2.» ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc. 1^000 rs.
A BEORGANISAÇÃO DO Banco DB PORTUGAL, optwcttío, (1877) br. 150 rs.
o ARTIGO «Banco» no Diccionarin Universal Portuguez^ (1877), 1 vol , br. 500 rs.
Politica e bconomli nacional, (1885), 1 vol., br. 700 rs.
Projecto de lbi de fomento rural, apresentado á camará dos deputados na sessão
de iS87, 1 vol., br. 300 rs.
Elogio histórico de Anselmo J. Braamcamp, ed. part. (1886), 1 vol. (esgotado).
Theophilo Braga k o Cancioneiro, opúsculo, (1869) esgotado.
O Socialismo, (1872-3), 2 vol., br. 1^200. (Esgotado)
As ELEIÇÕES, opúsculo, (1878), br. 200 rs.
Carteira db um jornalista : I. Portugal em A/rica, (1891), 1 vol., br. 400 rs,
Inglaterra db hojb, cartas de um viajantb, 2.' ed., (1894), 1 vol., br. 600 rs,
Enc. 800.
Cartas PENiNSULASBa, (1895), 1 vol. br. 600 ri. Ene. 800 ta.
Parceria António Maria Pereira— Livraria Editora
Ena Augusta, 50, 02 e 64 — LISBOA
Obras de JOSÉ QUINTINO TRAVASSOS LOPES
Nova grammatica elementar da lingua portu-
gueza» redigida segundo as iheorias modernas, e contendo
quadros synopticos muito uteis^ cart. 160 róis.
Compendio de arithmetica e systema métrico,
28* edição, contendo 29 gravuras e mais de 2.000 exerci-
cios e problemas, reformado segundo os actuaes program-
mas, br. 200 réis, cart. 280 róis.
Resumo de arithmetica e systema métrico, 5.»
edição, muito augmentada e contendo 13 gravuras, appro-
vado pelo antigo conselho superior de instrucção publica,
br. 100 róis, cart. 180 róis.
Dois mil exercícios e problemas de aritlimetl-
ca e systema métrico, abrangendo os programmas do
ensino elementar e complementar, em br. 160 rs., cart. 240 rs.
Compendio de historia pátria, 13." edição, refor-
mada, e contendo no fim uma noticia resumida dos factos
principaes de cada reinado^ br. 160 róis, cart. 240 róis.
Compendio de historia sagrada, 2.* edição, illus-
trada com muitas gravuras, approvado pelo antigo conse-
lho superior de instrucção publica, br. 160 róis, cart, 240 rs.
Leituras Correntes e Intuitivas : primeiras li-
ções sobre objectos. — !.■ parte, 9.* edição, muito
augmentada, ornada com gravuras e vinhetas, dedicada ás
creanças de 7 a 9 annos, br. 160 róis, cart. 240 róis ; com
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Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras li-
ções sobre objectos. — 2." parte, 6.* edição, ornada com
gravuras e vinhetas, dedicada ás creanças de 10 a 12 annos,
br. 160 róis, cart. 240 róis; com encad. de luxo, para pré-
mios e brindes, 360 róis.
Leituras Correntes e Intuitivas, obra adoptada
para o ensino official primário, 300 réis, cart.
Historias de animaes, sua vida, costumes, ane-
cdotas, fabulas, etc. — noções amenas de zoolo-
gia para creanças — lições sobre objectos, 3 volu
mes, obra interessanlissima, ornada com 400 gravuras e
vinhetas, br. 200 róis cada volume, cart. 280 réis ; com en
cad. de luxo, para prémios e brindes, 400 róis.
Os contos da avozinha, collecço illustrada de his-
torias, lendas, fabulas e contos, cora 300 gravuras, 3 vo-
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